São Tibira do Maranhão, o primevo

 

Por Fausto Gomes

Amarrado à boca de um canhão pela cintura, Tibira teve seu corpo destroçado e espalhado pela força da explosão. Pedaços do que era um homem foram despejados aos pés do Forte de São Luís do Maranhão e ao mar. Essa foi a execução da pena deferida ao índio por Yves D’Évreux, missionário francês da ordem dos Capuchinhos, em 1614. Seu crime? O amor e o tesão por outros homens.

 

Évreux, o próprio carrasco, dedica um capítulo inteiro de seu livro (“Viagem ao Norte do Brasil pelo Padre Ives D´Évreux”) ao Tibira, “mais cavalo que homem”. Como último desejo, Tibira escolhe mascar fumo - petum para os tupinambás. E a misericórdia do capuchinho não para por aí. Para não morrer pagão, Tibira é batizado com o nome de Dimas, uma referência ao bom ladrão perdoado por Cristo durante a crucificação de ambos.

 

Hoje, no que era o Forte de São Luís do Maranhão, funciona o Palácio dos Leões, o edifício-sede do governo do estado do Maranhão. O mar, apesar dos restos do corpo de Tibira e de toda a história ecológica do local, continua sendo o mar. Tibira, quase esquecido, hoje engorda a memória e o cruel passado colonial brasileiro.

 

Essa história despertou o interesse de muitos agrupamentos sociais por ter sido a primeira condenação por orientação sexual do país. Mas desde que eu entrei em contato com esses documentos, passado o incômodo de imaginar a cena e a incredulidade de que essa é uma prática ainda comum no país (exceto, claro, pelo uso do canhão), passei a imaginar o que pensava Tibira nesses últimos momentos de sua vida. Não tanto preocupado com a relação que ele tinha com a morte, se a temia ou não, mas se ele compreendia o motivo de sua condenação. Será que ele sabia que seu amor era considerado ilegal e punível com uma bala de canhão?

 

Por permear as pautas políticas da atualidade, a sexualidade pode parecer um assunto recente, mas, como uma das expressões da nossa existência, está presente desde sempre. Vale ressaltar, entretanto, que raramente está nas narrativas históricas, salvo quando ressaltam práticas sexuais como estranhas, bestiais ou, como no caso de Tibira, criminosas  só servindo à narrativa como estratégia para depreciar um sujeito, uma sociedade ou um traço cultural.

 

No trabalho intitulado “Índios gays no Brasil: Histórias não contadas da colonização das sexualidades indígenas”, Estevão Fernandes e Barbara Arisi concluem, após uma extensiva análise que, junto com os europeus, também desembarcou na América a homofobia. Um pouco como Oswald Andrade já disse no seu poema “Erro de Português”:

 

Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português.

 

E é nos destroços do corpo de Tibira, que mancharam a praia ao invés de purificá-la, como desejava o missionário francês, que vemos um dos primeiros registros desse comportamento apoiado, defendido e praticado por muitos religiosos. Mas não só por eles. Registros de relações entre pessoas do mesmo sexo, poligamia, transgeneridade e não-binarismo estão presentes em diversos documentos históricos. Mas a questão que eu levanto aqui, sem  nenhuma pretensão de respondê-la, é sobre os rótulos, definições e classificações das práticas sexuais. Ou até mesmo se existe ou existiu essa preocupação entre as diversas etnias que existem entre os povos nativos. Será que classificavam essas práticas como algo ruim e desconectado da afetividade, companheirismo, amizade, tesão e do próprio amor? Ou ainda, será que descrevem-nas de  outras formas que ignoramos e dificilmente teremos a chance de conhecê-las já que as explodimos com balas de canhão ao invés de ouvir os nativos da Ilha de Vera Cruz?

 

Cecília McCallum, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, chama a atenção para essa questão. Hoje há a preocupação com a violência que se imprime nas sociedades humanas ao utilizar categorias universalizantes (para o ocidente) para falar de práticas ou das formas de pensar de indígenas, por exemplo. Nas palavras de McCallum (2013):

 

“Enquadrar a temática de sexualidades indígenas numa dicotomia que opõe modernidade à tradição representa uma violência epistemológica maior do que aquela que porventura resulta do uso de uma categoria analítica como gênero. A expressão “povo tradicional” pouco faz jus aos modos de ser indígenas, não obstante a visão hegemônica veiculada nos meios de comunicação latino-americanos e fixada no imaginário popular. Pessoas nascidas e criadas nos ambientes sociais denominados indígenas aprendem formas de pensar e fazer abertas à inovação e à criatividade. Não se concebem como acorrentados por uma “cultura” objetificada e estagnada no tempo, para cuja constatação existe farta documentação na literatura antropológica das últimas décadas.”

 

Ao apontar o dedo para Tibira e acusá-lo de sodomia, Évreux estava utilizando de um conceito retirado das escrituras sagradas de seu povo para julgar os hábitos e comportamentos de outro. Um erro muito comum quando assumimos que nossa própria história cultural e, consequentemente, as construções de conceitos que naturalizamos ao longo da vida são universais e se aplicam a todo ser humano, independente de sua história e das particularidades de sua cultura.

 

Mas se esse parece ser um texto que reflete sobre um longínquo acontecimento histórico à luz dos saberes atuais, não se deixe enganar pela superficialidade da minha escrita. Há um canhão amarrado à cintura de todo gay que vive hoje no Brasil, há uma corda ao redor do pescoço de toda lésbica, uma lâmina pendendo sobre a cama de todos os transsexuais, pelotões de fuzilamento mirando os bissexuais, pranchas apontando para o oceano aos pés de todo indivíduo que é adverso às classificações simplistas que naturalizamos tanto desde o nosso nascimento. Já passou da hora de despir o português.

Foto (Índio Tibira - 3a Edição).jpg