“Você não Estava Aqui” (SorryWeMissedYou)

Inglaterra, França, Bélgica, 101 minutos, 2019 Direção: Ken Loach

Roteiro: Paul Laverty

Elenco: KrisHitchen, Debbie Honeywood, Rys Stone, Katie Proctor

Por Rita Barbosa

 
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Cartaz de Divulgação do Filme

Depois de “Eu, Daniel Blake”, Ken Loach, em mais uma parceria com Laverty, continua sua série de críticas ao drama dos trabalhadores ingleses, agora em “Você não Estava Aqui”. A denúncia não está na burocracia absoluta que, por meio de seus protocolos, torna-se, contraditoriamente, obstáculo à garantia dos direitos básicos do cidadão – como se passa com o personagem Daniel Blake. Outra lógica, tão perversa quanto, cada vez mais presente na sociedade neoliberal é escancarada: o empreendedorismo e a ilusão de ser seu próprio patrão como fonte de felicidade plena e alcance de seu “primeiro milhão”.

A história se passa no norte da Inglaterra. Richy Turner (Kris Hitchen) mora em uma casa simples com sua esposa Abbie (Debbie Honeywood) e seus filhos Seb (Rhys Stone) e Liza Jane (Katie Proctor). As cenas sugerem que o protagonista está com dificuldades de se recolocar na construção civil e recebe indicação de um amigo para trabalhar como entregador em uma empresa. Abbie logo observa ao marido que eles mal se veriam nessa nova condição, mas Richy deixa claro que é a única opção para conseguirem o que precisam: um mínimo de independência financeira, sair do aluguel, comer decentemente; enfim, tudo o que seria de direito pelo fato de serem humanos. Movido pela necessidade, ele a convence a venderem o carro que ela utiliza para seu trabalho – também autônomo – de cuidadora de idosos e de pessoas com deficiência para que ele consiga comprar o veículo e começar imediatamente.

Richy, então, conhece a empresa e todo o discurso do mundo “uberizado” e do “faça você mesmo” é lançado: “você será seu próprio patrão”, “você faz por você, pela sua família, no seu tempo, com seus horários”, “ganha pelo quanto se esforçar”.

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Abbie em seu trabalho como cuidadora. Imagem: Vitrine Filmes

Contudo, com prazos cada vez mais curtos para realizar as entregas, multas e descontos em seus pagamentos pelo não cumprimento de metas impossíveis e um cansaço desproporcional ao tempo de que dispõe para o descanso físico, Richy e a família vão constatando que tal autonomia não é nada real. A falsa liberdade é escancarada no clímax da história, acompanhada pelo falso discurso de empreendedorismo que, no fundo, deixa o trabalhador à própria sorte.

 

As cenas vão causando revolta, indignação, angústia e até culpa no espectador, por fazer sentir que essa é a realidade de tantos trabalhadores no mundo inteiro, além de ser uma tendência cada dia mais cruel nas relações de trabalho. Trabalho esse que acaba por corroer as relações familiares, causando esgotamento físico e mental tanto para os que trabalham quanto para os seus filhos, que passam a saber dos pais somente por meio de mensagens ou tentativas desesperadas de orientação por telefone.

Em situação semelhante está Abbie. Autônoma, é terceirizada de uma empresa de cuidadores. Diariamente visita várias casas para garantir o mínimo àquele elo também abandonado da sociedade: por não serem mais necessários, idosos e pessoas com deficiência devem se contentar com a possibilidade de um cuidador passar por lá e dar um banho. Abbie, por sua vez, precisa dar conta de todas as casas, limpar, cozinhar e ainda existir. Em um de seus dias difíceis, uma senhora trança seus cabelos enquanto ela chora.

 

Richy urina numa garrafa. Sim, numa garrafa, orientação que recebera do amigo para casos de emergência, que se tornam frequentes diante de um ritmo de entregas que não possibilita o mínimo de humanidade e, mais uma vez, evidencia a lógica desumana das relações de trabalho denunciadas por Loach. Em uma dessas paradas para urinar em uma garrafa, Richy é assaltado, sua carga levada e seu equipamento que rastreia os produtos também.

No hospital, cheio de hematomas e aguardando atendimento, fala com o dono da empresa de entregas, que deixa bem claro quais serão os custos que ele terá por causa ao assalto – inclusive o pagamento do rastreador roubado.

 

Abbie, até então, marcada por tentativas de apaziguamento e calma nas relações conturbadas, toma o telefone do marido e adverte com palavras duras o patrão que não é patrão. É bonito ver sua revolta.

É bonito, porque temos que gritar em algum momento. E ela grita com quem precisa. Com o filho, revoltado, que foge de casa, picha paredes, tem problemas na escola, ela não quer gritar. Parece que entende que o problema não está com ele. Entende que precisava, na verdade, estar com ele.

 

A filha mais nova, Liza Jane, é uma personagem notável. Como bem marcado por Joana Oliveira, em análise no El País, ela parece procurar vestígios de vida enquanto está sozinha, nos pratos sujos, nas roupas jogadas no caminho. Sente medo das brigas familiares e as ausências a levam a urinar na cama. Passar um tempo com seu pai significa passar um dia fazendo entregas, com poucos minutos para comer antes que rastreador apite.

 

O dia mais alegre é quando eles pedem comida tailandesa. Mas a alegria é curta, o jantar é interrompido por uma idosa que Abbie atende e foi deixada na mão por outra cuidadora da empresa. Os quatro se reúnem e vão levá-la. Cantam no caminho, lembram porque estão juntos e devem torcer, lá no fundo, para aquele momento durar um pouco mais.

 

Quando os problemas vão piorando com o filho, Richy precisa estar presente na escola. Ao dizer ao patrão - que não é patrão - que não pode trabalhar por um problema pessoal, a resposta “problema pessoal?” soa quase como se não fosse possível viver para além do trabalho.

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Abbie, Liza Jane, Seb e Richy Turner. Imagem: Vitrine Filmes

O elenco é realmente muito bom, bem relacionado entre si. Propositalmente não são atores conhecidos. Os enquadramentos com luz natural, quase que documentais, tentam trazer o dia a dia da família da maneira mais próxima possível. A trilha sonora é muito pontual, apenas para reforçar sentimentos duros que as situações transmitem - o homem sujeito à máquina.

 

O final é seco e duro, demonstra a tentativa árdua de Richy em não desistir. Os filhos pedem, a esposa também, o corpo dele também. Mas a responsabilidade e o medo de estar a seu próprio custo fazem-no continuar. A sensação de que em algum momento pode valer a pena, pode dar certo, como deu para o exemplo que passou na televisão, no programa de domingo, na palestra do coach que está fazendo sucesso.

 

Há quem diga que há um caráter panfletário na obra e que o diretor já foi mais artístico em filmes anteriores. Penso, no entanto, caro leitor, que é urgente a arte se envolver nas esferas da vida humana em que há sofrimento e exploração, não apenas como alívio e refúgio, mas como meio de conscientização e denúncia. Como lembra o roteirista, em entrevista ao El Pais, é realmente necessário um cinema que desafie o poder de um modo radical.

Referências: El Pais, 28/02/2020, Joana Oliveira,

“Nosso filme olha para o caos da vida dominada pela tecnologia.

É sobre essa falsa ilusão de liberdade”.

 

CAMPOS, Antonia M.; MEDEIROS, Jonas; RIBEIRO, Márcio M.

Escolas de Luta (Coleção Baderna). São Paulo: Veneta, 2016, 352 p.

Por Luis Vieira

Desde 2013, a vida política do país e seus acontecimentos tem desafiado a capacidade de compreensão e explicação da sociedade como um todo. Mesmo intelectuais e estudiosos ainda pisam em campo minado quando os temas em pauta são, por exemplo, as chamadas Jornadas de Junho ou impeachment ou golpe de 2016 – a própria falta de consenso de como chamar revela uma explicação em aberto. Quem nunca riu ou curtiu um meme lamentando a tarefa dos professores de História do futuro que terão a desafiadora tarefa de explicar o Brasil atual?

 

Atenuando, talvez, um pouco do desespero dos futuros professores, foi lançado, em 2016, Escolas de Luta, livro que narra o movimento das ocupações de escolas estaduais por estudantes secundaristas contra uma política de Reorganização Escolar do governo do Estado, em 2015 - possivelmente, o fenômeno mais importante e impactante dos últimos anos quando o assunto é educação pública. As ocupações das escolas paulistas são contextualizadas e apresentadas nesta obra em seus próprios termos. E, assim, ao menos a um dos relevantes eventos da política brasileira dos últimos anos uma explicação consistente nos é oferecida.

A obra integra a Coleção Baderna – anteriormente pertencente a Editora Conrad e atualmente na editora Veneta. Quem já teve contato com outros livros contestadores da série certamente perceberá que Escolas de Luta encontrou a casa certa. O livro foi escrito a seis mãos por Antonia Campos, mestra em sociologia; Jonas Medeiros, doutor em educação; e Márcio Ribeiro, professor do curso de sistemas de informação da USP. Os três passaram a frequentar as ocupações e a recolher informações tão logo a ação estudantil começou. E, segundo os autores, a intenção não foi apresentar uma produção acadêmica, mas contar a história da perspectiva de seus protagonistas, os estudantes. Portanto, aquilo que pouca gente se dispôs a fazer na época e de forma acessível ao público.

 

A narrativa é divida em três grandes capítulos, além de uma introdução e um balanço final. Essa divisão acompanha e se guia pela cronologia dos fatos. Inicialmente, somos transportados para a época do anúncio (na prática uma imposição) da chamada

Reorganização Escolar. Um plano da Secretaria Estadual de Educação com supostos fins de otimização do processo educacional, mas que acarretava, entre outros efeitos, o fechamento de escolas, a transferência de alunos para unidades escolares fora de seus bairros e a lotação de salas de aulas das escolas remanescentes. O período entre o anúncio e as primeiras reações dos estudantes e repercussões na sociedade civil compõem o primeiro capítulo. O início e o auge das ocupações, suas rotinas, organização, desafios e desenvolvimento estão no capítulo dois. O recuo do governo (isso não é um spoiler, certo?) com a suspensão da Reorganização, o processo de desocupação e algumas de suas consequências fecham a narrativa no terceiro capítulo.

 

Percorrendo as páginas de Escolas de Luta, somos apresentados à progressão de fatos e eventos que originaram as ocupações: num primeiro momento, a reação dos estudantes frente à política unilateral da Reorganização, procurando alianças com a greve dos professores de 2015 e depois promovendo os seus próprios atos de rua. Nenhuma das ações apresentou resultados mínimos, com o governo mantendo fechado qualquer canal de diálogo e retendo os detalhes da Reorganização. Nisso, descobrimos que as ocupações, longe de ser uma primeira tentativa radical de protesto, foram na verdade o último recurso de estudantes temorosos ante a possibilidade de mudança arbitrária de escolas e a piora das condições já precárias da educação pública estadual. 

 

Além disso, nos explicam os autores, que diferente da versão do governo do Estado e de parte da imprensa, as ocupações não tiveram uma organização centralizada por entidades sindicais e partidos políticos. Primeiro, conforme o livro, ocorreram as ocupações iniciais, que serviram de experiência e foram adaptadas em outras localidades para que depois houvesse tentativas de unificação das iniciativas, mas sempre mantendo forte autonomia local. Somos, na realidade, apresentados a um batismo de fogo da maioria desses jovens em uma militância pública.     

 

Outro destaque na análise dos autores foi o papel das redes sociais em todo o processo. Grande parte das declarações reproduzidas no livro veio de páginas do Facebook, criadas pelos alunos para divulgar e apresentar sua versão dos fatos. As páginas foram fundamentais na guerra de informações e narrativas em que os estudantes foram jogados. Precisaram rotineiramente desmentir acusações de que estariam depredando os prédios escolares e demonstrar o completo oposto: o envolvimento discente na manutenção do patrimônio público e o comprometimento com uma rígida e democrática organização das ocupações. Além disso, os estudantes realizavam assembleias diárias para tomadas de decisões, se dividiam em Comissões responsáveis por áreas estratégicas (alimentação, segurança, limpeza etc.) e ofereciam atividades e abertura ao diálogo entre as escolas ocupadas e as comunidades do entorno.

 

Mas o mais impressionante talvez seja a assimetria de forças em disputa que a obra nos revela. De um lado o governo do Estado, com a burocracia técnica da Secretaria de Educação e o braço armado da PM paulista. De outro, estudantes secundaristas, e, portanto, menores de idade em sua maioria, com algum amparo – mas não dirigidos - por entidades civis. Inclusive, essa assimetria é ressaltada na decisão judicial que negou a reintegração de posse das escolas na capital pela PM, consistindo em um marco importante para as conquistas dos estudantes. 

 

Essas e outras informações são encontradas em Escolas de Luta, um documento de suma importância para entender o que foram as ocupações estudantis de 2015 e porque elas representam tanto na história recente da educação pública brasileira. 


LINK: https://www.youtube.com/watch?v=j42hfZiOfSU