haverá guerra ainda?

Por Larissa Lisboa

A gente tenta levar uma vida mais zen na gravidez. Mas essas 34 semanas de gestante se resumiram a muitos filmes de zumbi, CSIs, romances históricos sobre grandes problemáticas da humanidade, além de muita, mas muita briga política. O ano de 2020 foi, basicamente, em casa acompanhando a tragédia de governabilidade no nosso país. Uma mistura de filme B hollywoodiano com novela mexicana. 

 

Além das incertezas da vida, como trabalho, futuro, boletos etc., todas essas questões são adicionadas a uma certeza arrebatadora: a mulher barriguda que vai ter menina. 

 

Há 35 anos, mamãe paria uma filha da democracia. Sou a geração do fim da ditadura militar, das Diretas Já, da redemocratização, da nova Constituinte, das utopias... Charlotte, diferentemente, será filha da incerteza. Uma democracia às avessas, um país desgovernado, tempo de distopias...

 

Estamos perdendo vidas para a Covid graças ao desgoverno de Jair Bolsonaro. Já sabíamos a tragédia que essa gestão seria, afinal, um político em exercício desde a década de 80 – e que nunca fez absolutamente nada para o país - não poderia se tornar um bom presidente.

 

Mas temos o que temos, o retrato do Brasil ignorante, violento e repressor. Não apagamos ainda o resquício do militarismo... 

Charlotte, minha filha, qual será o seu destino nessa seara de loucura que está o nosso país? Queria eu poder acreditar que ter filhos é resistência. Do nosso útero, criaríamos uma nova nação que faria diferente. Mas será mesmo isso possível? Pariremos heróis ou assassinos? 

 

Todo facínora teve uma mãe. 

 

 

Larissa Lisboa

Professora de língua portuguesa, doutora em Estudos Literários pela USP e mãe de primeira viagem.

gravidez na pandemia

Por Flávia Martins

Quando a pandemia chegou ao Brasil, nós já estávamos tentando engravidar do segundo filho há alguns meses. Tudo que fazemos tende a ser muito planejado, então tínhamos em mente que seria muito bom para nós se o bebê nascesse até março de 2021. Seja por conta da diferença de idade para o nosso primogênito, seja por conta da licença maternidade, isso encaixaria perfeitamente nos nossos planos.

No final de março, iniciamos o trabalho em home-office e o isolamento social, evitando contato presencial com todos os familiares e amigos. As previsões sobre a duração da pandemia eram muito otimistas: parecia que, após poucos meses, tudo estaria normal como antes. Então, não vimos motivo para alterar nosso projeto inicial. Era quase julho quando descobrimos a gravidez.

 

Estar grávida na pandemia teve algumas vantagens, é claro. O primeiro trimestre normalmente caracteriza-se por uma série de náuseas e vômitos. E este foi bem o meu caso. Passei boa parte destes meses no banheiro e estar em casa ajudou muito. Consegui controlar melhor a alimentação, ingestão de água e exercícios físicos.

 

Dentre as desvantagens, posso citar algumas. Diferente da minha primeira gestação, meu marido não pôde acompanhar as consultas e exames. Como utilizamos um hospital público, as regras sobre acompanhantes ficaram muito rígidas para evitar a circulação de pessoas possivelmente contaminadas. É um tanto triste fazer as consultas e ultrassonografias sozinha, mas concordo com os objetivos do hospital. Em pouco tempo, acabei me acostumando e achava divertido chegar em casa e contar tudo o que os médicos haviam dito (principalmente quando descobri o sexo do bebê).

 

Desde a descoberta da gravidez, passei a não sair mais de casa. Nem para as compras do mercado, que eu tanto gostava de fazer, nem para levar nosso filho para algumas atividades presenciais na escola. Neste último caso, foi até mesmo muito difícil decidir se deveríamos mandá-lo ou não. Mas confiamos em todas as medidas impostas pela escola e decidimos que haveria muito mais vantagens para o seu desenvolvimento.

 

Hoje ainda tenho receio de sair de casa, até porque nos vemos em uma nova onda de alto risco de contaminação. A previsão do nascimento da nossa bebê é fevereiro e eu tenho muito medo de como estarão os hospitais nessa época. Sentiria muito não poder ter um acompanhante comigo na internação, pois o apoio emocional após o parto é fundamental.

 

Apesar de tudo, não me arrependo da nossa decisão. A vida sempre nos traz obstáculos e encará-los nos torna mais fortes. Espero que tudo fique bem logo, com a esperança renovada de que a vacina possa nos trazer grande conforto.

 

Flávia Martins

Formada em Química pela USP, professora do ensino fundamental II e médio, casada, mãe do Mathias de 3 anos e grávida da Bianca de 37 semanas.

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