alice, presente!

Por Flavio Cosac

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- Pai, descasca essa banana pra mim?

- Gente, só um segundo.

- Oi, Alice!!

- Oi, Alice, tudo bem com você?

- É lindo seu vestido, Alice.

- Dá um "oi" pro 7ºC, Alice. Ficou tímida, gente. Continuando, um dos indicadores socioeconômicos mais importantes é a expectativa de vida, também conhecido como esperança de vida ao nascer. Funciona como um "termômetro" da saúde e da qualidade de vida de determinada sociedade.

- Professor, qual país apresenta a maior expectativa de vida?

- Japão. Aproximadamente 84 anos. Esse dado é justificado pela prática da medicina preventiva, uma preocupação social com a saúde física e mental, além de uma...

- Pai, acabou a Peppa Pig.

- Gente, só um momento.

- (...).

- Prô, você está mutado.

- Perdão galera. Onde eu parei, Léo?

- O Léo caiu, prô.

Alice corre para o quarto. Para o Fundamental I.

- A Chapéuzinho chegou à casa de sua vovó. A pobre velhinha adoentada estava deitada na cama. Chapéuzinho colocou a cesta em cima da mesa e... Filha, assim não. Você machuca a gatinha desse jeito.

- Por quê?

- Porque não é assim que se pega.

- Taynah, posso ver a Alice?

- Oi, Alice!

- Alice, faz uma careta?

- Oi, Alice!

- Deixa a Alice contar a história, Taynah?

- Como termina a história, filha?

- A Chapeuzinho pegou a vovó no colo e levou lá para o Japão.

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Flavio Monteiro Cosac

Pedagogo, geógrafo, pai da Alice e sobrevivente de 2020.

asfalto

 

Por Valdênia Souza

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Ah! Que saudade.


As palavras ficaram pesadas e não estão para brincadeiras. Busquei uns verbetes, umas frases carinhosas para falar da importância do autocuidado e de fazer coisas boas para garantir a manutenção da energia vital.

Um aconchegar-se... Era exatamente o que eu queria ouvir, mas escutei outras histórias que reposicionaram minhas inquietações. Passei um bom tempo inconformada com a ideia de morte sem ritos de passagem. Como assim não acompanhar os momentos finais da vida, não velar em ladainhas, não chorar na presença e não entregar a alma em orações coletivas?

Não parei de me atormentar com isso, só que outro pensamento se fixou em  minha mente... E @s sequelad@s? Um parente meu desenvolveu um trombo como resultado da Covid-19. Felizmente, respondeu bem ao tratamento e não houve mal maior. Ocorre que muitas pessoas não têm a mesma sorte. Falar em sorte, às vezes, me soa simplista, porque há muitos fatores envolvidos: rapidez na busca de atenção, acesso ao sistema de saúde, resistência do organismo, a aceitação ao medicamento etc. O fato é que a formação e deslocamento de trombos para regiões mais sensíveis do corpo é coisa bastante comum. E como será nossa convivência com as pessoas em estado vegetativo? As que tiveram membros amputados? As traqueostomizadas? Como será que essas pessoas serão cuidadas? Quem serão os cuidadores e cuidadoras? Quais respostas serão dadas pelo Estado?
 

Vivas ao Sistema Único de Saúde! Vivas ao Sistema Único de Assistência Social. Acreditamos que são fundamentais, não é verdade?


Sim, claro! E os recursos, o planejamento, a articulação com outras políticas públicas, a reforma tributária que deve ter resultados revertidos para investir em serviços públicos?!

 

Pausa para os porquês, para os julgamentos, para o sonho possível...

Os telejornais falam das mortes e mostram as recuperações. Temos mesmo que nos condoermos com cada morte; celebrar todas as curas. Mas como lidar com os dias e noites inquietos?

Afetos são necessários, cuidar é o lema, mas construir novo tempo continua sendo a labuta. Enquanto o sono não vem, enquanto a vida brotar do asfalto.

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Valdênia Souza

Assistente social, especialista em gestão pública, que conversa com o tempo escrevendo vidas cotidianas.

 

POBRE HOMEM DE MUITA FÉ

Por Luis Vieira

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A essa altura, já nem fazia ideia de quantas fichas de cadastro para candidatura a vagas de emprego iguais a essa já havia preenchido. Mesmo assim, parte do estranhamento permanecia como se fosse a primeira. Apesar da rotina de sentar-se numa sala de espera nada convidativa e despejar sua vida em garranchos nas linhas impressas, ainda não desvendara os segredos das respostas ideais, aquelas que corresponderiam ao gabarito arbitrário trancado a sete chaves no departamento de RH. Aquelas respostas objetivas e diretas que impressionariam o recrutador de tal modo que mesmo não sendo selecionado à vaga, ao menos saberia disso por meio de uma ligação, onde o chamariam pelo nome, talvez com um senhor antes, numa entonação sincera de lamento, empatia e incentivo.

As malditas fichas sempre surgiam como aquela prova para a qual não se estudou, onde se arriscavam respostas, tal qual um troglodita desenvolvendo os primórdios do método de tentativa e erro, para perguntas não compreendidas. Pior ainda:      e se não houvesse respostas certas? E se o destino dessa radiografia de sua vida medíocre tivesse fatalmente o picador de papel como destino certo? E se tudo isso não passasse de mero entretenimento para empresários sádicos observando como os fracassados se agarram a vãos, fúteis e esperançosos esforços?

Parte das perguntas eram tão recorrentes que inevitavelmente se repetiam: nome? endereço? idade? Por outro lado, outras sempre variavam de lugar para lugar, de opressiva sala de espera para opressiva sala de espera. Tinha até certa expectativa mórbida em saber quais seriam as inéditas e excêntricas perguntas da vez. Foi assim como classificou aquele conjunto de perguntas tão invasivas quanto cômicas e descabidas que se alternavam nas fichas em cada ocasião. Num inferno de eterna repetição de preenchimento manuscrito de informações, as quais tinha cada vez maior certeza de que ninguém estava interessado, a variedade entre as perguntas inéditas e excêntricas até que surgiam como uma brisa no estático e adensado ar da derrota.

E eis que chega a inédita e excêntrica da vez: “Religião, crença espiritual ou filosofia pessoal”. Já fora obrigado a responder sobre religião anteriormente, mas nunca perante      uma pergunta escrita de forma tão estúpida. Tentava responder procurando captar a atmosfera do lugar e deduzindo através dela a alternativa correta. Já tinha sido católico, evangélico, espírita e até mesmo ateu. Mas pelo quadro invicto de rejeições, estava claro que ainda não havia chegado à resposta certa.

A caneta presa a uma corrente, já adiantando a tentativa de furto, começou a receber cada vez mais pressão da mão trêmula e tensa, permanecendo imóvel sobre o papel, logo à frente do ponto final. O que escrever? O que responder? O que querem que eu seja? No que querem que eu acredite? Em troca de um salário mensal acredito no que eles quiserem, até mesmo que se importam comigo e com meu bem-estar. Ou indo além, que reconhecem em mim a mesma humanidade deles, a ponto de respeitarem qualquer que seja minha religião, crença espiritual ou filosofia pessoal.

E eis que, como toda boa epifania, essa surgiu quando ele nem mesmo sabia que ainda se importava a ponto de ter novas e estimulantes ideias. Não é que ele tenha descoberto a resposta certa, a que bateria na mosca com a da folha-resposta do RH. Não foi isso. Aliás, não saberia dizer se era melhor ou pior do que isso. Mas era uma epifania num momento de total desesperança e apatia, e isso bastava. Ele finalmente descobriu qual era a sua religião, crença espiritual ou filosofia pessoal. E o insight foi tão certeiro que claramente tratava-se de uma religião coesa em seus dogmas. E respeitando a sublimidade do momento, preencheu o papel descrevendo tudo o que lhe havia surgido na cabeça, mesmo extrapolando o espaço e as linhas de resposta.

"Eu me desprezo religiosamente. Oro perante altares que reproduzem em looping todos os meus fracassos. Adorno minha casa com imagens mentais da minha própria degradação. Creio fervorosamente nas profecias de que jamais conseguirei triunfar nessa ou em nenhuma outra tentativa de melhorar minha vida e que tudo que me aguardava de bom já é passado. E regularmente peregrino em lugares sagrados como este aqui para ter provas miraculosas inquestionáveis da minha fé".

Depois disso, terminou de responder rapidamente às outras perguntas e com um sorriso no rosto devolveu a ficha para um funcionário esplendidamente indiferente. Saiu mais leve do que entrou. Provavelmente não conseguiria o emprego. Dificilmente desvendaria o segredo das fichas. Mas pela primeira vez tinha respondido uma para si. E mais do que isso, a partir de agora, descobrira sua fé.