Entrevista de Marcelo D'Salete

Autor de HQs, ilustrador e professor. 

Revista Coonectar

marcelo dsalete - por rafael roncato 201

Entrevista realizada por áudio em 17/12/2020

[Revista Coonectar] Quando começou a desenhar e a produzir História em Quadrinhos e quais foram suas principais influências? O que costumava e costuma ler de HQ?

 

[Marcelo D’Salete] A minha relação com os quadrinhos começou com quatro, cinco anos e, depois, na adolescência, com quinze ou dezesseis anos, em um curso de design gráfico, eu decidi que iria trabalhar com quadrinhos, mesmo que ela não fosse a minha atividade principal. Costumava ler o quadrinho mais mainstream em banca de jornal. Mas já gostava de ver coisas diferentes. Gostava de ver alguns artistas europeus e, claro, me impactou bastante acompanhar a cena de quadrinho nacional, quando tive contato com obras do Angeli, da Laerte, “Chiclete com banana”, “Piratas do Tietê”. E ainda do Lourenço Mutarelli. Creio que esses trabalhos contribuíram bastante para o tipo de quadrinho que faço hoje.

 

[R.C.] Nos seus livros, predominam os desenhos com pouca inserção da linguagem verbal. E esta costuma aparecer, sobretudo, em discursos diretos. Além disso, não há coloração nas páginas, sendo todas em preto e branco Como você desenvolveu e chegou a esse estilo?

 

[M.D’S.] Sobre a forma dos meus quadrinhos, da composição do layout da página, organização da relação do texto com a imagem, penso que as minhas leituras mais marcantes sempre foram de cenas muito silenciosas nos quadrinhos. Elas me chamavam muita atenção. Eu ficava vendo e revendo. Queria decifrar todos os códigos que estavam ali. Era uma forma muito instigante de contar uma história. E, de certo modo, quando eu comecei a produzir quadrinhos foi segundo essa forma de narrar. Tenho um apreço muito grande pelo branco e preto, influência de outros artistas brasileiros e latino-americanos, como Breccia, Munhoz, Flávio Colin, Hugo Pratt, Mattotti. Esses são artistas que conseguiram criar todo um universo somente a partir do preto e do branco. Claro que a cor é importante, mas é possível contar boas histórias sem utilizar esse recurso. É uma outra linguagem que nós utilizamos. Eu persigo e tento dominar essa linguagem do preto e branco.

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Sequência “Angola Janga - Uma história de Palmares” (Veneta, 432 páginas, 2017).

[R.C.] Como foi o processo de produção de Cumbe e Angola Janga desde o surgimento da ideia até publicação de fato?

 

[M.D’S.] “Cumbe” e “Angola Janga” começaram a partir de algumas discussões e cursos na época da minha graduação, em 2004. Eram cursos focados em pensar a história do Brasil e da experiência afro-diaspórica nesse território. É muito necessário conhecer esse grupo para compreender de fato o que é o Brasil. Foram quase 5 milhões de pessoas negras escravizadas que chegaram no Brasil e menos de 800 mil pessoas da Europa entre 1550 e 1850. O nosso país foi formado a partir da presença negra e indígena e compreender essas culturas e histórias é fundamental. Lutar contra o apagamento sistemático dessas histórias é primordial. Em 2006 realizei um primeiro esboço de roteiro sobre Palmares. Depois fiquei um bom tempo lendo e pesquisando. Surgiram os outros livros de quadrinhos nesse momento, o “Noite Luz” (2008) e o “Encruzilhada” (2011). Ao mesmo tempo eu aprofundava cada vez mais uma série de pesquisas sobre Palmares e sobre o Brasil colonial. Quando me senti mais seguro para tratar do assunto, comecei a realizar os esboços das histórias do “Cumbe” e “Angola Janga”. Em 2009 e 2010 fiz os primeiros esboços dessas histórias. Em 2011, comecei a finalizá-los. “Cumbe” saiu primeiramente em 2014 e depois o “Angola Janga” em 2017.

 

 

[R.C.] Seu livro Cumbe ganhou o Prêmio Eisner na categoria Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro, em 2018. Isso significa a exportação da História do Brasil para o público estrangeiro, quando o mais comum tende a ser o contrário. Quais, em sua opinião, são os elementos da história da escravidão e da resistência negra no Brasil que despertaram interesse e identificação no público estrangeiro?

 

[M.D’S.] Esses livros foram pensados inicialmente para o público brasileiro. Fiz essas histórias com a intenção de proporcionar experiências narrativas instigantes para o leitor local. Aos poucos essas obras foram ganhando uma repercussão muito maior. Mais do que eu poderia imaginar. “Cumbe” foi publicado então em Portugal, depois na França, Itália, Espanha e nos Estados Unidos – onde ele ganhou uma premiação importante.

“Angola Janga” também foi publicado em diversos países e ganhou prêmios no Brasil e na Alemanha. Eu imagino que essas histórias refletem, de certo modo, o Brasil colonial e a presença da população negra nesse período. Elas trazem personagens singulares para a compreensão desse universo. Então, imagino que essas histórias tratam de algo profundamente brasileiro, mas elas tratam também de uma experiência diaspórica de violência, de subjugação, e de busca de estratégias, de autonomia, de luta, de negociação dentro do período colonial que é uma experiência que não remete apenas à história do Brasil. Essa experiência afro-diaspórica no Atlântico está conectada com uma história de boa parte do mundo, pois envolve as antigas metrópoles da Europa e as suas diversas conexões na modernidade. Então, a escravidão acaba sendo a base da expansão marítima européia, uma modernidade pautada no escravismo.

Uma modernidade que se desenvolveu, de certo modo, a partir dessa experiência de violência do escravismo – duas faces da mesma moeda (e nem sempre a gente gosta de lembrar desses dois lados). Imagino que hoje, mais do que nunca, é importante esse debate voltar à tona. Até porque nós temos sequelas, consequências imensas ainda hoje do que foi essa história na América e no Brasil.

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Cumbe (Veneta, 176 páginas, 2014) aborda o período colonial e a resistência negra contra a escravidão no Brasil. O livro foi publicado em Portugal, França, Áustria, Itália, Espanha e EUA (Fantagraphics). Cumbe foi selecionado pelo PNLD literário de 2019 para o Ensino Médio, Plano Ler + como recomendação de leitura para escolas de Portugal e premiado no Eisner Awards 2018 na categoria Best U.S. Edition of International Material.

[R.C.] Num panorama global, os super-heróis sempre ocuparam uma grande fatia do mercado de quadrinhos e desde há alguns anos parecem cada vez mais onipresentes na indústria cultural. Como você vê a hipertrofia desse gênero e como é para você ter conseguido furar um pouco a hegemonia desse filão?

 

[M.D’S.] O quadrinho surge no século XIX em diversos países, mas sempre com algo em comum - uma forma de contar histórias utilizando desenhos, texto, e geralmente publicado em mídias como jornais, revistas e livros – e, hoje em dia, internet. O conceito moderno de super-herói – que é interessante diferenciar da ideia de herói da literatura clássica – despontou no século XX, durante o entreguerras, por volta de 1930 e 40, dentro de um contexto bélico de afirmação dos Estados Unidos em escala mundial, principalmente na segunda guerra mundial. Eu considero que o termo “super-herói” é algo bem próprio da história norte-americana. Por esse motivo avalio ser perigoso tentar transplantar esse conceito para cá. É possível aproximar? Sim. Mas trazê-lo sem fazer a sua devida crítica para o território brasileiro pode ser um tanto quanto estranho. 

Nós temos histórias para contar que não precisam ser necessariamente no formato super-herói – essa talvez seja uma forma limitada de contar histórias, embora alguns autores tenham desenvolvido ótimas obras a partir disso. Enfim, gosto de pensar que o quadrinho precisa se desenvolver para além deste tema, porque se ele ficar limitado a isso talvez não sobreviva em termos de linguagem e de potencialidade. 

 

 

[R.C.] A História do Brasil é usualmente adaptada para literatura, cinema e televisão e menos para os quadrinhos. E apesar de alguns títulos já clássicos (como Da Colônia ao Império: Um Brasil para Inglês Ver! de Lilia Schwarcz e Miguel Paiva; D. João Carioca, de Lilia Schwarcz e Spacca e tantos outros) as Histórias em Quadrinhos parecem amenizar a violência da nossa História em nome de mais humorístico. Quais possibilidades o gênero oferece ou pode oferecer para a adaptação e a reconstituição histórica?

 

[M.D’S.] Eu diria que nós temos hoje uma produção madura de quadrinhos para além do humor. O humor sempre foi muito forte dentro das charges e das tiras no Brasil. Essa linguagem acabava sendo, historicamente, um diferencial humorístico aos assuntos tratados em formato de texto no jornal. Hoje em dia, há uma cena bem interessante de quadrinhos que estão tratando de história do Brasil, principalmente desse último século, da passagem do século XIX para o século XX. Acho que vale muito a pena a gente pensar em obras como “Couro de Gato”, do Patati e do Sánchez, que vai falar sobre Rio de Janeiro, o morro do Castelo, sobre a destruição desse local, que era um cortiço, devido à instalação de um novo plano urbanístico das grandes avenidas. Tem um outro trabalho também muito interessante sobre isso, tratando de Porto Alegre, o trabalho da Ana Koehler, “Beco do Rosário”, que vai falar sobre algo semelhante: a reestruturação da cidade de Porto Alegre e a destruição de um cortiço para reorganização da cidade. Novamente estamos falando de desalojar pessoas e enviar essas pessoas para outros cantos da cidade, mais afastados do centro. Essa discussão sobre gentrificação, a criação desses espaços urbanos e a exclusão de grande parte das pessoas pobres e negras que estavam morando ali no centro é algo bem interessante para compreender o início do século XX.

Embora tratando de período um pouco mais recente, podemos falar do “Carolina”, da Sirlene e do João Pinheiro, tratando da Carolina Maria de Jesus aqui em São Paulo, revendo sua trajetória e vida. É interessante observar o modo como esses personagens estão vivenciando uma transformação social e urbana que a todo momento cria os limites sobre quem são as pessoas integradas e quem estará à margem disso, quem será programaticamente esquecido nesse modelo de urbanismo, jogado à margem.

 

 

Há também outros livros, como o “Os sertões”, do Carlos Ferreira, um trabalho bem interessante, porque não é uma simples adaptação da obra do Euclides, mas os autores repensam um pouco a trajetória do próprio Euclides naquele contexto de Canudos. Tem trabalho sobre o Lucas da Feira, sobre o João Cândido, da Revolta da Chibata... Enfim, penso que já temos uma produção de quadrinhos sobre a História do Brasil interessante. Ainda falta muito, temos pouquíssimas obras falando, por exemplo, sobre a realidade indígena no Brasil. Acho que não temos obras de quadrinhos falando de quilombos contemporâneos, ou outros quilombos da nossa história para além de Palmares. Eu acho que isso pode render boas histórias.

 

 

[R.C.] No Brasil, a História vem sendo alvo de grande disputa e politização nos últimos anos, o que extrapola o campo acadêmico. Como você enxerga a inserção de livros como Cumbe, Angola Janga e sua mais recente participação em ilustrar o Discurso sobre o colonialismo de Aimé Césaire nesse embate?

 

[M.D’S.] Estamos vivendo um momento bem difícil de crise de valores. Talvez seja possível dizer que boa parte das coisas que imaginamos, sonhamos quando jovens... E eu vivenciei isso bem porque venho de uma geração da década de 80 que não tinha internet. Só fui ter acesso à internet na adolescência, e ela surgiu com muitos sonhos, muitas possibilidades de integração, de acesso à informação, de democratização dessa informação.

 

Embora isso continue sendo algo forte, hoje vemos que a internet tem seu lado obscuro, a propagação sistemática de mentiras e de informações que visam embaralhar justamente o debate público. Hoje quem está utilizando esse jogo de uma forma extremamente perigosa, destrutiva para a democracia - com certeza o que aconteceu no Brasil nos últimos anos - são principalmente grupos conservadores de direita. Então imagino que termos mais opções de discutir a nossa história a partir de outras perspectivas e opções que sejam acessíveis ao grande público, seja nos quadrinhos, música, cinema e outras áreas é algo extremamente relevante, justamente para fazer esse debate e ter a possibilidade de criar novas narrativas não hegemônicas.

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Encruzilhada (Veneta, 160 páginas, 2011), relançado em 2016, trata de violência, jovens negros e discriminação em grandes cidades.

[R.C.] Quais são os projetos que está desenvolvendo no momento? Alguma nova publicação à vista?

 

[M.D’S.] Estou desenvolvendo um trabalho para o segundo semestre de 2021. Será um trabalho sobre o Brasil do século XIX. Estou pesquisando e abordando alguns temas que têm me chamado bastante atenção sobre esse período chave para entender o Brasil.

 

[R.C.] Uma curiosidade de fã de quadrinhos: apesar das temáticas bem distintas, e da distância geográfica, seu estilo (pouca linguagem verbal, traço limpo, opção pelo preto e branco etc.) me parece bem semelhante ao do quadrinista canadense Jeff Lemire (Condado de Essex, Soldador Subaquático e outros). Você conhece o trabalho dele? Enxerga essa semelhança?

 

[M.D’S.] Conheço um pouco do Lemire. Infelizmente ainda não li a fundo os trabalhos dele, mas acho um trabalho artístico muito bem feito, bonito. Tem ali uma forte presença de uma forma gráfica do quadrinho latino-americano, Breccia, Munhoz, Pratt. Aprecio em grande parte esse trabalho em preto e branco que ele faz. Não posso dizer muito mais porque ainda está na minha lista de leitura desse ano.