Editorial da edição

Dois mil e vinte. Por extenso mesmo, já adiantando algumas publicações que certamente terão esse título. Sobre o conteúdo desses futuros livros, entre tudo o que pode e já é dito sobre este ano, além de suas palavras-chave – pandemia, corona, quarentena, crise, recessão, fascismo – dobramos a aposta em afirmar que dois mil e vinte será historicamente associado a pontos de ruptura, transformações ou mudanças de rumos em inúmeros aspectos no nosso modo de vida. Desenvolvimentos e planejamentos que se baseavam, em alguma medida, em prognósticos precisaram ser repensados de forma urgente e, por vezes, violenta.      

 

Entre a infinidade de planos e expectativas solapadas pelas exigências desse vendaval, que pode ser resumido em meros quatro dígitos, 2020, estava a criação da publicação projetada diante seus olhos. Desde o início do ano, passou a ser discutida a elaboração desse projeto, mas com pretensões mais amplas: Coonectar, uma revista voltada para a discussão não só de temas voltados para a Educação e Cultura, mas também de outras questões sociais do Brasil e do mundo, de notório interesse coletivo, cujos desdobramentos dialoguem com o conhecimento científico.

Sendo assim, os planos e as ideias se desenvolviam nas reuniões de trabalho de nossa equipe. Chegou o momento de discutir as pautas para essa nova edição e, então, as sugestões de temas e assuntos apropriados para uma revista mensal começavam a se condensar de maneira visível. Foi quando o vendaval de 2020, alimentado, sobretudo pela pandemia de COVID 19, nos alcançou...

Independente do que tivéssemos pensado até então, a agenda de 2020 fez suas exigências perante a agenda de criação de Coonectar. Mesmo não sendo uma revista de assuntos gerais, nem da área da saúde ou de gestão pública, seria impossível se esquivar, sob o risco de uma grosseira negligência, de temas como pandemia, quarentena e contágio. Isso devido ao impacto social, a abrangência e os desdobramentos desses fatores em relação à Educação, Cultura e Ciência, revelando que a crise de 2020, seja lá como for definida, é tão totalizante quanto global.

É por isso que, entre os conteúdos presentes neste número de retorno, destaca-se o bloco que compõe uma seção temática cujo foco é a pandemia de COVID 19: dois textos autorais e três externos sugeridos pela nossa curadoria. Em conjunto, exploram e apresentam ao leitor uma abordagem multifacetada sobre o assunto, refletindo, por exemplo, sobre o impacto da crise na Educação, ao ressaltar nessa situação extraordinária a lógica produtivista que tem guiado o setor nas últimas décadas. Apresentamos também uma crítica ao discurso e aos valores propagados pela mídia e o quanto e de que modo estes refletem ou mascaram a realidade material. Como complemento, reunimos outros três relatos de experiências e reflexões pessoais acerca dos impactos da pandemia em São Paulo e das expectativas nas reaberturas em curso na França e no México.

Isso significa que, para além desse núcleo, nada mais dialogará com o tema? Não, e comprovando a magnitude e amplitude do assunto, nossa seção Ciência em Foco, cujo objetivo é a divulgação do conhecimento científico, estreia esclarecendo, sob o viés da bioquímica, como o uso de sabão e álcool se faz eficaz como método preventivo perante a estrutura microscópica presente nos vírus, em especial, do SARS-CoV-2. Portanto, proposta desse texto é apresentara justificativa molecular da assepsia e, assim, indo além de ressaltar o óbvio cuidado com assepsia, pois nada é realmente óbvio quando não entendemos minimamente seu funcionamento. Na mesma seção, uma reflexão sobre a inserção e impacto da Inteligência Artificial nas diversas áreas de conhecimento científico e como estas podem se organizar internamente e entre si a fim de extrair contribuições da tecnologia ao invés de mera incorporação acrítica. Em tempos de demanda de trabalho em home-office e baseada em computadores e aplicativos, uma ponderação no mínimo necessária. 

 

Política (incluindo as patinadas do atual governo federal) e pandemia são os temas das entrevistas reunidas para esta edição. Ambos elementos centrais da grande crise que movimenta o ano de 2020. E mantendo o olhar nas rotineiras polêmicas envolvendo o presidente, apresentamos a seção Multiangular. Em tempos em que fake news pautam o debate público, sugerimos a análise sobre uma multiplicidade de reportagens centradas no ato aparentemente trivial de Bolsonaro beber um copo de leite durante um pronunciamento. Em cada reportagem, um enfoque diferente concentrando-se em diversos possíveis significados dessa ação. Qual reportagem é fake? Aliás, alguma é fake? Ou o presidente habilmente provocou a polêmica ao explorar a polissemia de um ato simbólico? Cruzando a fronteira, as turbulências política da Bolívia, representadas pelo golpe perpetrado contra Evo Morales, em 2019, são o primeiro tema da seção Nossa América.

 

Diminuindo a análise e ensejando a criatividade, o conto Sofia, na seção Muro Cinza, nos leva ao que há de mais prosaico no dia a dia, mas narrado com o lirismo que o cotidiano esconde sob sua banalidade. Um respiro em relação ao COVID 19? Não confirmamos nem negamos, mas voltamos a ressaltar o alcance da crise... Todavia, se sua preferência não estiver na prosa e sim na poesia, a leitura de A beleza de Maria não deixará a seção sem atrativos.

Retrocedendo à década passada, nossas resenhas trazem comentários sobre obras que revelam duas grandes crises anteriores que vêm sendo potencializadas pelos ventos de 2020: a precarização do ensino público, com a apresentação do livro Escolas de Luta, sobre o movimento discente de ocupação das escolas públicas paulistas em 2015; e a precarização do trabalho sob a tutela dos aplicativos com o comentário sobre o filme Você não estava aqui, do diretor britânico Ken Loach, de 2019.

Quase como uma alternativa ao cenário sombrio descrito no filme, a seção Ágora Agora traz um texto descrevendo a experiência cooperativista de trabalho, pontuando suas demandas, ganhos e formação para além da especialidade individual, em sua convivência política específica. Na seção Gênero e Sexualidade, uma discussão de cunho histórico sobre sexualidade, procurando desnaturalizar conceitos e preconceitos. Por fim, procurando minimizar a trama da insalubridade coletiva na quarentena, algumas dicas culturais de lazer, entre exibição de filmes, concertos e recomendações musicais na seção Fios de Cultura.

É sobre essa variedade de temas e abordagens que a Coonectar se apresenta nessa conjuntura de mudanças e novidades ainda mais bruscas e radicais. Entre a sensação incerta de tatear no escuro e pisar em solo frágil, que caracterizam as grandes crises, esperamos contribuir para formação de quem partilhe das nossas inquietações e luta.

Boa Leitura!