vacinação e o aprofundamento das desigualdades

Curadoria de Umberto Ribeiro

O andamento da imunização contra a COVID-19 tem reforçado as assimetrias estruturais existentes entre países ricos e pobres em escala global. E tem agravado ainda, no interior de ambos, as clivagens raciais, regionais, de gênero e socioeconômicas. É notório que a demora na vacinação das distintas populações de todos os países prolonga a necessidade de adoção das medidas restritivas assumidas no combate à crise sanitária mundial cujos impactos econômicos negativos são sentidos pelas maiorias. Mas essa demora incide de maneira ainda mais perversa nas economias mais frágeis, com sociedades mais desiguais. Essa demora repercute no aumento do desemprego e do subemprego em massa; na intensificação da exploração do trabalho doméstico feminino e na violência privada sobre as mulheres pela hiperconvivência familiar no confinamento; no incremento da concentração de renda; no aumento da pobreza, da fome e mesmo dos óbitos diretos e indiretos causados pela intensificação da pressão por atendimento médico e hospitalar.

Esse andamento desigual da vacinação mundial reproduz a ordem da economia vigente. A lógica de funcionamento dela é, com uma mão, socializar os custos de desenvolvimento e produção das vacinas pelo aparato técnico-científico e universitário pagos pelos poderes públicos. Mas, com a outra a mão, privatizar e concentrar os lucros da especulação e distribuição desigual desses imunizantes, cercando-os como propriedades privadas, por meio da criação de patentes. Sem qualquer poder de sanção, o consórcio internacional arquitetado pela Organização Mundial de Saúde, Covax Facility, vem tentando reduzir os impactos dessa concentração da oferta de vacinas em vão. A escassez de vacinas no cenário mundial é o resultado da compra excessiva e bilateral por Estados nacionais mais ricos que furam a fila internacional, orquestrada segundo as necessidades e urgências de cada país membro.

São aterradores os números dessa rapina sanitária de empresas que colocam os lucros acima das vidas e de países que abandonam consensos humanitários e a necessidade de cooperar internacionalmente como única forma possível de superar a pandemia e seus efeitos deletérios, inclusive, em seus próprios territórios nacionais. Os 32 países mais ricos (dos quais 27 pertencem à União Europeia) retiveram o equivalente à metade da oferta das principais vacinas de circulação mundial, mas correspondem a apenas 13% da população do planeta. Liderando a fila está o Canadá, com seis doses por cada um de seus 38 milhões de habitantes; logo em seguida os Estados Unidos e o Reino Unido, com cerca de quatro doses por habitante; a UE, com cerca de 2,5 doses e a Nova Zelândia com três doses para cada um de seus 15 milhões de habitantes. Apesar do aparente cavalo de pau em relação à política de vacinação do antecessor de Joe Biden na Casa Branca, há uma nítida continuidade entre ambos na retenção e concentração dos meios de combate à pandemia pelos Estados Unidos em detrimento dos demais países. Antes de Biden, Donald Trump também havia sido responsável por gerar um apagão na oferta mundial de aparelhos respiratórios, máscaras, medicamentos e demais EPIs, retendo a produção nacional estadunidense e violando contratos já assumidos no primeiro semestre da pandemia. Agora Biden gera o mesmo apagão na oferta mundial de vacinas, como denuncia o atual presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador. Os Estados Unidos vacinaram mais de 145 milhões de pessoas em apenas seis meses e a grande imprensa internacional vem noticiando isso apenas como um sucesso estrondoso dessa nova administração democrata na condição de defensora da ciência...

      Na América Latina, onde há (com exceção do Chile) essa escassez de vacinas é vital questionar quais são os critérios práticos assumidos na imunização das distintas populações, considerando classe social, região e raça. Além da liberação inaceitável de compra privada de vacinas, para conservar velhos privilégios sociais que afetam toda lógica pública de vacinação, outro índice importante do grau de exclusão social, regional e racial presente na gestão da crise sanitária latino-americana é o tratamento dos povos indígenas rurais e urbanos nessa pandemia. Historicamente, foram esses povos aqueles contra os quais os Estados nacionais construídos na colonização da América se fundaram. E essa guerra de origem colonial é ainda hoje um processo em curso. Os sobreviventes desses povos originários, no meio rural, são sujeitos permanentes da ganância e da violência de quem deseja extrair as riquezas que estão sobre e sob essas terras de pertencimento indígena. No meio urbano, os indígenas têm sua identidade negada e assimilada à de camponês pobre, padecendo de exclusão ainda maior das políticas públicas voltadas a indígenas, pelo estereótipo de que todo indígena vive em aldeamentos e isolados. E ambos os grupos são alvo da indiferença e do descaso assassino dos Estados que devem protegê-los.

      Por tudo isso, como algumas lideranças políticas, sociais e científicas já vêm defendendo com cada vez maior volume, é urgente a quebra das patentes das vacinas em escala internacional, para garantir o acesso à imunização como um bem e um direito de toda a humanidade. Para que a economia seja retomada com segurança e a convivência social seja novamente percebida em toda sua relevância.

Lógica da concentração das vacinas em escala global

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/12/26/Quais-os-efeitos-do-ac%C3%BAmulo-de-vacinas-em-pa%C3%ADses-ricos

 

https://www.brasildefato.com.br/2021/03/26/panorama-mundial-entenda-por-que-vacinacao-se-concentra-nos-10-paises-mais-ricos

 

Estados Unidos (145.812.835 doses aplicadas/ c. 329 milhões de habitantes)

 

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52166245

 

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,imunizacao-avanca-e-aumenta-pressao-para-biden-quebrar-patente-de-vacinas,70003662818

 

Chile (9.905.091 doses aplicadas/ c. 19 milhões de habitantes)

 

https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-56261426

 

https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2021/03/20/chile-vacina-30percent-da-populacao-com-pelo-menos-1-dose-contra-a-covid-19-e-se-torna-exemplo-entenda.ghtml

 

Brasil (18.082.153 doses aplicadas/ c. 211 milhões de habitantes)

 

https://www.youtube.com/watch?v=6fCx0lpuq2Y&ab_channel=BrasildeFato

 

https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/justica-libera-compra-de-vacinas-por-entidades-privadas,cf5473328b1c94536cdb5ca0f65f221c893hvdu7.html

 

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/02/05/Os-desafios-da-vacina%C3%A7%C3%A3o-de-ind%C3%ADgenas-contra-a-covid-19

 

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/03/15/Qual-a-situa%C3%A7%C3%A3o-dos-ind%C3%ADgenas-nos-centros-urbanos-do-Brasil

 

Argentina (3.744.566 doses aplicadas/ c. 45 milhões de habitantes)

 

https://www.lanacion.com.ar/sociedad/vacunas-covid-19-cuales-llegaran-argentina-que-resultados-nid2526910/

 

México (7.018.449 doses aplicadas/ c. 128 milhões de habitantes)

 

https://brasil.elpais.com/internacional/2021-02-16/mexico-denunciara-no-conselho-de-seguranca-da-onu-a-concentracao-de-vacinas-pelos-paises-desenvolvidos.html

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