Romeu

 

Por Bruno Andreoli

Trepida, canta e urra o escapamento aberto do Fiat cruzando a Barra Funda.

Romeu acelera, moreno e meio peludo.

"Desce, baby. Ou joga suas tranças."

"Não rola, Romeu. Meu pai não tá curtindo seu estilo. Cavaquinho e panca de vagabundo."

"Eu lhe faço uma aliança, Julieta, com a corda mi pra lhe provar meu amor."

"Deixa, Romeu."

"Tomei o Fepasa até o Jaçanã; o mínimo que você faz é descer um pouco."

"Mentira. Escutei o Italo Disco no máximo há quarteirões."

"Pelo menos você vem no Largo amanhã."

"Pra quê?"

"Derrubar isso que está aí."

"Meu pai tá dizendo aqui que já está bom como está."

"Certo."

Romeu abandona o Fiat que cheira muito a gasolina e segue ao bar mais próximo. Ele está com a camisa aberta, e ele é jovem, mas não é uma coisa bonita, e por isso sabemos que alguma coisa vai acontecer.

Romeu não está bem, é um dia fraco e ele exagera no Cynar. Se retorce e vomita no colo do traficante local ao seu lado.

O pau quebra.

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Romeu jaz inconsciente na guia. Vozes para além do palco indicam que está jurado de morte e que não há ninguém que queira morrer junto com ele.

 

DESCE O PANO

 

asas

Por Livia Cucatto

 

Dizem que tenho Asas...
Grandes e lívidas...
Capazes de cortar o firmamento
E se transformarem em foguetes
Sem destino.

Dizem que são poucos os que têm.
Privilégio ou sacrilégio.
Não sei.

Dizem que posso levar você comigo.
Não importa a altura.
Nem o peso.
Basta que se tenha alma...
Alma de pluma.

Dizem que talvez um belo dia,
Eu me farte de sua companhia.
E lá de cima,
Solte sua mão.
Se você não soltar,
Corto minha asa.
O sangue vai escorrer.
Dizem que acharei engraçado 
O vermelho se misturando ao azul.
E mesmo com uma asa, 
Continuarei voando... subindo....

Dizem que você caiu.
Deixe que digam.
Só eu sei.
Só eu vi.
Que você criou asas.