Entrevista de cristina judar

Escritora, jornalista e autora de dois romances. Escreveu o livro de contos Roteiros para uma vida curta (Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014) e as HQs Lina e Vermelho, Vivo. 

 

Revista Coonectar

 

Entrevista realizada por e-mail em 28/03/2021

[Revista Coonectar] Como você se tornou escritora? Quando foi que essa visão de si mudou? Que dificuldades ou desafios essa mudança trouxe?

[Cristina Judar] Não me tornei escritora, nasci escritora (risos). De fato, não houve um momento tão determinante, um antes e depois. Eu comecei a ler desde cedo e a escrever nos laboratórios de redação do meu colégio, e, até onde me lembro, sempre “aceitei” a minha escrita (assim como a leitura, que sempre foi um prazer  ̶  e acredito que as duas coisas estão interligadas). É claro que, até você começar a produzir literatura, depois ter o primeiro livro publicado (o que não necessariamente significa que aquilo que está impresso nas páginas seja literatura), já é uma outra história. Estudei, li, ralei, errei, escrevi e tentei me desenvolver  ̶  enquanto fazia tudo isso. Eu trabalhava como jornalista, em uma agência de comunicação, quando reuni o primeiro volume de textos ficcionais que, na minha opinião, podiam ser considerados como publicáveis. E assim nasceu meu livro Roteiros para uma vida curta, que foi Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Escrever é difícil e fácil, é prazeroso e doloroso, pode ser muito ou pouco. A ambiguidade que reside em fazer e pensar literatura é algo que me interessa e que não me faz  desistir do caminho. Se fosse uma coisa só, previsível, sempre a mesma, para um lado ou para outro, eu já teria desistido.

[R.C.] Há todo um espectro das relações possíveis entre arte e política -- cujos extremos podemos brincar de ocupar com uma postura parnasiana (de arte pela arte), de um lado, e com uma postura jdanovista (de arte como ferramenta política) de outro. Como você pensa esse balanço entre literatura e política nas suas obras?

[C. J.] Eu não faço uma arte exclusivamente política (a ponto de classificá-la como tal), embora a política esteja presente o tempo todo, em praticamente tudo o que eu escrevo. Considerando as condições atuais, a vida, a situação do Brasil, do mundo, eu não vejo como existir e, consequentemente, escrever, de outra maneira. Vivemos, pensamos e respiramos no século 21, sentimos na pele as dores e estigmas de um dos períodos mais conturbados e caóticos da história, então não há como separar uma coisa da outra. A visão do coletivo, as lutas que se fazem necessárias e que estão em curso, são um estopim para a escrita e a literatura, assim como para as artes em geral. Se eu quisesse me manter à parte disso tudo, escrever só sobre meus dramas e dilemas particulares, teria que me esforçar muito, e, acredito, fracassaria totalmente.

 

[R.C.] Em nome do que escrever nesse Brasil do século XXI?

[C. J.] No Brasil de hoje dá para escrever em nome de muita coisa, sobre tudo aquilo que atravessa o individual e chega ao coletivo, assim como sobre o que é pouco retratado pelas artes pelo simples fato de estar numa situação de invisibilidade extrema, de subalternidade, de desimportância, de marginalização. O conceito de universalidade e normatividade que permeia os discursos e pensamentos ainda é predominante, e em todos os cantos, então é preciso cavar e cavar e construir, erigir aos poucos, até que novos pilares de representação estejam em posição de evidência  ̶  e com bases sólidas. Não é possível considerar apenas um único referencial de existência, de expressão, de sexualidade, de identidade, de criação, de permanência, como o correto e natural e aceitável e determinante para todo e qualquer indivíduo que pise na face da Terra. Adoro pinçar pequenas joias da realidade, diamantes afundados no chão e dar palco a isso via literatura.   

[R.C.] Qual o impacto das questões étnico-raciais e regionais (sermos um país latino-americano, falante de português) na sua criação literária?

[C. J.] Latino-americana, falante de português, descendente de imigrantes árabes, alemães e portugueses, situada no Brasil (atualmente, o cemitério do mundo), natural da cidade de São Paulo, de um bairro classe-média, pertencente a uma comunidade marginalizada, detentora de uma realidade de gênero fluida e praticamente desconhecida por quem não compartilha dessa mesma vivência etc.

São tantos os filtros e lentes que me atravessam... Eu me rendo a todas essas ondas de significados que envolvem a minha existência e que, obviamente, são retratadas pela minha literatura, mesmo quando não escrevo sobre mim  ̶  em algum momento não escrevemos sobre nós mesmos? (risos). Brincadeiras à parte, eu acredito que os nós, brasileiros, nessa condição isolada / suspensa que nos é imposta ou autoimposta, deveríamos ter maior consciência sobre o que é ser e estar na América Latina hoje (e desde sempre). Os avanços do pensamento decolonial têm sido fundamentais nesse aspecto. E apontam para caminhos e saídas para que não sejamos meros espelhinhos portáteis do Norte global. Temos muito a aprender ainda, a pensar com nossos próprios cérebros, a reter com as nossas próprias entranhas aquilo que somente a nós diz respeito, sem absorver aquilo que não nos cabe. Eu tento pensar – e escrever em termos geográficos, mas, ao mesmo tempo, universais. Sem que, para isso, eu precise dar as costas ao meu entorno, à minha cultura e a todos os meus laços e vínculos sociais, culturais.  

    

[R.C.] Como você vê a inserção da literatura brasileira atual dentro e fora do Brasil?

[C. J.] É como se a literatura brasileira estivesse em uma esfera muito particular, em suspensão. Há dificuldades enormes para se disseminar a literatura no país; fora, então, é ainda mais complicado. No entanto, vale contar que eu precisei ir para fora  ̶  mais precisamente para a França e para a Bélgica, durante a Primavera Literária Brasileira, projeto promovido por Leonardo Tonus, que é poeta e professor na Universidade Sorbonne  ̶  para entrar em uma sala de aula e ter a oportunidade de conversar com professores e alunos sobre literatura brasileira contemporânea. No Brasil, raramente vemos iniciativas nesse sentido. É preciso fazer muito ainda, mas, pensando nos recorrentes desmontes que têm nos afetado diretamente nos últimos tempos, penso que esse sonho de aproximar escritores de leitores, de alunos, de educadores esteja, infelizmente, cada vez mais distante.   

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Oito do sete, seu romance de estreia, foi ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e finalista do Prêmio Jabuti do mesmo ano.

[R.C.] Na leitura dos seus dois romances, Oito do Sete (Editora Reformatório) e Elas marchavam sob o sol (lançamento pela Dublinense) saltam aos olhos algumas marcas do seu estilo literário, como por exemplo, uma tentativa de desconstrução da noção corrente de enredo, normalmente atrelado a um tempo linear e uniforme, substituindo-o por uma aparente fragmentação narrativa, uma teia de relações com nós centrais ou periféricos a depender da ótica lançada para a trama.

 

[C. J.] O espaço ocupado pelo “entre”, pelo que é limítrofe  ̶  e, justamente por isso, não necessariamente denominado  ̶  me interessa muito. Penso no tempo narrativo como círculos dentro de círculos dentro de círculos. Há um círculo maior, mais abrangente, onde está apresentado o tempo linear, nas sequências das horas, dias, meses anos, noite e dia e assim por diante. Nos círculos menores, internos, até se chegar a padrões microscópicos e à invisibilidade (que, definitivamente, não significa inexistência), são apresentados outros cortes, as faíscas que cruzam um ou mais tempos e, quando unidas, dão a noção do todo. Esse é o (meu) grande barato, trabalhei dessa forma no meu mais novo romance, Elas marchavam sob o sol.     

 

[R.C.] Nesses romances, você aproxima a pluralidade dos protagonismos femininos das suas personagens em trajetórias que não se encontram, mas convergem por muitos outros caminhos, como em dimensões da “condição feminina” - aborto, menstruação, exigências de ordem estética...

 

[C. J.] Os encontros e desencontros fazem parte e colaboram, sim, para que haja essa convergência (ou para que ela fique evidente). Em Elas marchavam sob o sol, os poderes que determinam a normatividade em relação a corpos, comportamentos, ideologias, crenças, a biologia, a indústria cosmética, os ritos de passagem, são evidenciados pelas vivências e reflexões de Ana e potencializados pelas inversões e reflexos causados pela frequências mágicas, mitológicas e ritualísticas trazidas por Joan  ̶  assim como pelas outras personagens que são apresentadas na narrativa.

E, resumo, a sociedade determina como os pelos devem (ou não) se apresentar no corpo das pessoas que têm pelos. A sociedade determina como deve ser usado (ou não) o útero de pessoas que engravidam. A sociedade determina como deve ser administrado o sangue das pessoas que menstruam. E muitos outros exemplos desse controle são trazidos à tona. É importante dizer que Elas marchavam sob o sol é sobre violências e aprisionamentos que afetam mulheres cisgênero e transgênero, bem como uma infinidade de corpos e existências que acabam sendo subjugadas a certas leis e normas de controle das identidades, da expressão e da sexualidade que, historicamente, foram inventadas com o único propósito de favorecer a opressão.          

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Seu segundo e novo romance, Elas marchavam sob o sol, é lançamento da editora Dublinense.

[R.C.] Isso parece assemelhar a forma dos seus romances daquela de Milan Kundera, ou mesmo da linguagem cinematográfica de Alejandro Iñárritu. Também chama atenção esse estilo com cenas breves, intensas e de diálogos cortantes que misturam o trágico e o cômico e às vezes esfumaçam a fronteira entre o sonho, a memória e a realidade presente - e essas tensões lembram as dos filmes de Quentin Tarantino. Você concebe seus romances como roteiros de filmes, ou ao menos essa interlocução com o cinema atinge o seu processo criativo? Como esse diálogo com o cinema aparece na sua obra?

 

[C. J.] Eu amo cinema. E acredito que as linguagens artísticas possam conversar entre si, dando origem a obras interessantes em seu hibridismo, em todas as intersecções e fusões que podem surgir. Mas, embora eu já tenha produzido para o audiovisual, não escrevo literatura como escrevo um roteiro. Os caminhos são outros, os processos que me instigam são diversos e muito particulares. São ritos e rotas que eu sigo, especificamente, quando penso em ficção literária. Alguns mecanismos criativos que desenvolvo, a cada livro, fazem sentido para aquele livro  ̶  e só. Isso não quer dizer que alguma influência do cinema, até mesmo nas imagens, nos cortes temporais e nos diálogos, não possam acontecer, mesmo que não intencionalmente. Assim como influências vindas da música, da cultura popular, das artes plásticas. As partes sobre as quais temos menor controle podem ser até mais interessantes. Muito do que me estimula ou motiva surge de um certo desconhecimento, de eu não ter uma ideia precisa de como aquilo chegou até mim  ̶  o importante é que chegou e eu gosto que seja assim. Sobre as possíveis referências que você citou, achei muito interessantes, pois eu nunca havia pensado nelas.  

 

[R.C.] A ligeireza, cheia de alegorias, de ambos os seus romances escritos com o cuidado de não terem muito mais de uma centena de páginas parece incluir uma reflexão sobre o tempo no romance. No seu novo romance, inclusive, você brinca em uma cena com uma publicidade sobre body shape feminino, com a linguagem publicitária e a arquitetura conservadora de gênero que isso carrega - é crítica da sociedade de consumo. Mas parece que a celeridade na forma da sua escrita também inclui uma reflexão sobre a experiência do tempo do romance, ou seja, do tempo de leitura do romance como uma experiência que deve ser intensa, marcante, porém pontual - convidando a um reencontro para que se entendam sutilezas espalhadas por toda leitura. Qual equilíbrio você buscou entre a forma literária e essa de forma mercadoria que todo livro tem na concepção dos seus romances?

 

[C. J.] É o conteúdo, a essência do texto que determina o tempo na minha literatura, e não o contrário. Ou seja, eu não determino que o texto precisa ser breve para, depois, começar a trabalhar nele. Eu não persigo a brevidade como um objetivo. Tanto que eu não me importaria de escrever um romance de quatrocentas páginas, por exemplo. Se um dia rolar, vou achar ótimo. Desde que ele não tenha nenhuma palavra a mais, nem a menos. Até hoje, meus livros tiveram, segundo os meus próprios critérios, o número necessário de palavras. Se eu sinto que algo está faltando ou sobrando, não sossego até resolver. Sim, eu gosto da precisão, da assertividade. Mas não sou econômica. Algo interessante: várias pessoas já me contaram sobre a vontade ou necessidade de ler os meus livros mais de uma vez e que, a cada leitura, descobriram algo diferente. Novas camadas, outros tons e significados que, na primeira leitura, passaram despercebidos. Eu penso que essa é uma outra forma de se trabalhar o tempo: fazer as pessoas se jogarem na água (quantas vezes for preciso) para perceber o que está abaixo da ponta do iceberg.

 

[R.C.] Cada pessoa que lê possui uma história própria de vida e de leituras e somos alçados a encontrar semelhanças entre a sua produção literária e diversos outros autores e autoras, atuais ou não. Isso torna a leitura uma experiência mais intensa, dialogando com nossas próprias experiências, nossas visões e sentimentos a respeito do mundo, da mulher e das relações que se estabelecem entre esses elementos. Quais são as suas leituras e influências -- nacionais e internacionais, do passado e do presente -- que colaboraram na idealização e na produção das suas obras? Como essas leituras influenciaram a sua escrita?

 

[C. J.] Com honestidade, eu não reconheço as obras de um ou mais autores como influências diretas na minha escrita  ̶  e nem sei se cabe a mim fazer esse tipo de identificação. Quanto a referências e conexões, tenho várias. Que estou descobrindo até hoje. Livros que são amigos, que dão conselhos. Há escritores que cospem na nossa cara, que nos provocam. Do Brasil, do exterior. De outros tempos. De hoje. Há tanta gente boa nativa, tantos livros bons. De editoras grandes, médias, pequenas. Não vou citar nomes porque a gente sempre se esquece de alguns, o que acaba sendo injusto. Mas há muita gente com quem eu troco, com quem eu tenho boas e verdadeiras conexões e lampejos conjuntos. É nisso que acredito.

 

[R.C.] Algum conselho para quem lê essa entrevista e quer trilhar um caminho na literatura?

 

[C. J.] Viva. Leia. Escreva.