Extravagante e trivial – lendo Alice Munro num cotidiano de estranhezas

Por Juliana Ramos Gonçalves

Há pouco mais de um ano o que costumávamos chamar de dia a dia está suspenso e embaralhado. Há pouco mais de um ano estou trabalhando em casa e, desde então, venho tentando cultivar com afinco, como uma planta delicada, este cotidiano resguardado, apartado da rua e dos outros. Mas como nomear isso que parece um cotidiano, tem cheiro de cotidiano, tem sons de cotidiano, mas na verdade é só uma tentativa desenfreada de se aplicar em gestos familiares, como se eles pudessem implodir a estranheza e o assombro? Como entender o fato de que essa própria estranheza e esse próprio assombro, por sua vez, há tanto tempo também têm sido cotidianos?

Acossada por essas perguntas, minha resposta é continuar me dedicando a tarefas conhecidas e domésticas: trabalho, rego as plantas, limpo a casa, leio, escrevo, cozinho. Enquanto do lado de fora o país ainda tem contornos assustadores e trágicos, amplificados por um manejo criminoso da pandemia, cultivar a casa e a vida caseira continua sendo uma forma de responder, sem palavras, ao assombro – um enfrentamento dos dias que não me parece se confundir com a negação (muito menos com o negacionismo), sobretudo num momento em que cuidar da vida comunitária também significa, mais do que nunca, abrigar-se na vida privada. 

Foi envolta por esses pensamentos que nos últimos dias tive vontade de reler a contista canadense Alice Munro, autora de uma quinzena de livros, dos quais conheço apenas dois: Ódio, amizade, namoro, amor, casamento (Biblioteca Azul, 2013, em tradução de Cássio de Arantes Leite) e O amor de uma boa mulher (Companhia das Letras, 2013, em tradução de Jorio Dauster). Nesses livros, os contos geralmente enfocam personagens, em sua maioria mulheres, ocupadas em executar tarefas cotidianas e/ou domésticas, as quais muitas vezes envolvem algum tipo de cuidado – com a casa, com os filhos, com pessoas idosas ou doentes, mas dificilmente de com elas mesmas. Enquanto desempenham essas funções, essas personagens são atravessadas por sonhos, descobertas, sentimentos de inadequação e divagações sobre o presente e o passado, o que faz com que as narrativas sobre elas revelem – mas não muito – as camadas que, entre um dia e outro, se ocultam nas dobras da memória e do corpo.

"Jardim", Gabriela Sacchetto, 2017 

8,8 cm x 15,8 cm

óleo sobre madeira

As histórias de Munro, assim, com frequência trazem mulheres bastante desconfortáveis com os papéis fixos que o seu tempo e a sua sociedade lhes atribuíram (como esposa ou mãe), e esse desconforto contrasta enormemente com a aparente normalidade de seu dia a dia – normalidade que em várias histórias está a ponto de arrebentar, ou que arrebenta de fato. Nesse sentido, a literatura de Munro me ensina que o que chamamos de acontecimentos não são apenas os eventos extraordinários, mas também algo que é da ordem do comum e que, ao mesmo tempo, subverte o comum, algo que se dá no espaço replicado entre um dia e outro dia, e que pode passar despercebido em meio à distração ou ao recalque. Num conto intitulado “Mobília de família”, há uma fala de uma personagem – uma mulher escritora – que me parece sintetizar o modo da própria autora conceber a literatura: “escrever se parece mais com agarrar algo no ar do que com construir histórias”.

Mesmo quando não tratam de eventos necessariamente domésticos e triviais (em O amor de uma boa mulher, por exemplo, há contos que aludem a um assassinato ou a abortos clandestinos), as histórias de Munro estão menos focadas nesses acontecimentos em si e mais nas impressões das personagens sobre eles, no modo como eles incidem em sua vida e sua personalidade. Assim, mesmo as histórias que apresentam certas reviravoltas ou revelações não me parecem estar interessadas em oferecer uma explicação, um desfecho ou um sentido delimitado para os eventos narrados (ou mais aludidos que narrados). Com frequência, não há propriamente relações causais entre um evento e outro, ou entre um evento e o seu efeito nas personagens; o que há são distâncias, lacunas, pontos em suspensão. Cabe-nos, como leitoras e leitores, também ter a argúcia de agarrar algo no ar – aliás, tantas vezes não é isso que se dá na nossa própria vida?

Os contos de Munro muitas vezes percorrem um grande arco espaço-temporal. Uma situação ou alguma personagem apresentada no início nem sempre são desenvolvidas ou retomadas ao longo da narrativa, e isso nos surpreende com guinadas inesperadas – até mesmo nas histórias em que à primeira vista não parece estar acontecendo muita coisa. Também pode ocorrer de acompanharmos uma única personagem durante sua vida quase inteira; porém, dessa vida quase inteira, temos acesso apenas a alguns eventos pontuais e bastante espaçados, que não apresentam uma relação óbvia entre si. Mais uma vez, portanto, nos deparamos com lacunas, mas são justamente essas lacunas que me parecem ajudar a construir as personagens e as situações, pois provocam questões como: “por que a voz narrativa elege precisamente esses eventos, mesmo os aparentemente banais, pra ilustrar toda uma vida?”, “o que há neles de singular e digno de relevo?”, “o que eles podem revelar de algo maior – do caráter de alguém ou de um fato?”. Nada é gratuito no espaço do conto e na escrita incisiva de Munro.

"Grade", Gabriela Sacchetto, 2016

9,5 cm x 11,7cm

óleo sobre madeira

Numa história de que gosto particularmente, intitulada “A Ilha de Cortes”, uma mulher não nomeada conta em primeira pessoa sobre sua época de recém-casada, em que procurava entender sua personalidade e seus desejos em meio aos afazeres da casa e do casamento, à relação com uma vizinha sedenta por atenção e seu marido debilitado (de quem acaba se tornando cuidadora) e à sua paixão sincera pela leitura e a escrita. No momento em que a narradora escreve, não sabemos muito bem há quanto tempo isso tudo se deu ou como está sua relação atual com o marido – se é que existe. O que sabemos é que se o seu passado distante era cheio de desejos, inclusive o de se tornar escritora, seu passado mais recente está envolto pelo ressentimento de alguém cujas tarefas de casada, antes “nas margens da [sua] vida real”, de repente ocupam uma “posição central”. A narradora não nos oferece um fio explicativo que ligue um ponto ao outro da sua vida, mas nos instiga a perceber o quanto um acontecimento “extravagante e ao mesmo tempo trivial” – no caso, a leitura de um artigo de jornal para o idoso de quem se encarregava – ficou para sempre marcado na sua subjetividade e na sua interpretação de si mesma e de suas relações. Agarremos a informação no ar.

Ao identificar esses aspectos na prosa de Munro, penso em Clarice Lispector, outra brilhante prosadora que, de modo bem diverso, também criava histórias nas quais o extravagante podia irromper do mais trivial. No livro Para não esquecer, há uma frase de Clarice que me remete ao agarrar algo no ar de Munro: “Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”. Munro também sempre chega ao cerne de alguma coisa sem usar a palavra fácil ou delimitadora, sem reduzir essa coisa a um único nome – sem esmagar a entrelinha. Os artifícios de suas histórias geram em nós uma espécie de reconhecimento, porque também nós, em meio às tarefas mais cotidianas, às vezes somos atravessada(o)s por uma notícia, um desconforto ou uma rememoração que nos descarrilha, provocando perguntas do tipo: “como é que viemos parar aqui?”, “quando foi que este eu se sobrepôs àquele outro eu?”, “quantas vidas cabem dentro de uma vida?”. 

Há mais de um ano questionamentos como esses me acometem com relativa frequência. Enquanto ainda nos é vedado conhecer nós mesma(o)s a partir do contato direto com os outros e o mundo, ao menos nos resta o prazer (e o assombro) de conhecer o mundo e nós mesma(o)s pelas histórias – ainda que elas nos tragam um universo que, por ora, parece não existir mais. 

Juliana Ramos Gonçalves

 

Juliana Ramos (Osasco, 1987) escreve, revisa e traduz. É autora do livro No coração fosco da cidade (Impressões de Minas, 2018) e participa da antologia Corpo de terra, que será lançada ainda em 2021 pela editora Quelônio. Publica ocasionalmente no site https://juliana-ramos.medium.com/, dedicado a traduções de poesia e prosa de língua francesa.