Vitalismo e a fundação da química orgânica

Por Andrés Navarro

Em princípios do século XIX, a então nascente ciência moderna ainda se via em dificuldades para interpretar com o rigor e a precisão que lhe são característicos, o conceito de Vida. Essa dificuldade, entretanto, não se restringia apenas à sua definição, pois outras perguntas como “qual sua origem?” e “qual a base material para que possa existir?” estavam igualmente distantes de qualquer explicação de natureza científica.

A dificuldade de se compreender a vida como um fenômeno espontâneo e casual da natureza conduziu muitos pensadores sobre o tema a afirmar de maneiras diferentes que tudo aquilo que é considerado vivo apresenta um domínio próprio e dissociado da esfera abiótica, sobretudo em relação à vida inteligente. Essa doutrina de pensamento remonta aos gregos da antiguidade, como nos exemplos da concepção da imutabilidade da alma de Platão e da quintessência presentes nos corpos animados de Aristóteles. Na Idade Média, estabelece-se sob a ordem cristã do espírito e de uma alma eterna e vinculada ao divino. Na modernidade, de igual maneira, influencia a produção científica, a exemplo das experimentações de Duncan MacDougall em suas tentativas de pesar a alma no começo do século XX. O conjunto dessas diferentes interpretações acerca da existência de uma esfera própria de leis e princípios dissociada daquela que determina o funcionamento dos objetos não vivos é chamado de Vitalismo.

Nesse contexto, em fins do século XVIII e princípios do século XIX, a Química - conjunto de conhecimentos que aos poucos se configurava como aspirante a uma representante da ciência moderna - não se via em situação diferente quanto ao Vitalismo. O princípio vitalista não implicava apenas numa concepção abstrata e ontológica sobre a vida, mas também num domínio material específico para os seres vivos. Acreditava-se, à época, que esses seres eram detentores de uma “Força Vital”, capaz de lhes permitir serem exclusivos na produção de um grupo de substâncias presentes em seus corpos: glicose, ureia, ácido lático, etc. Ao mesmo tempo, objetos não vivos, como as rochas e os minerais, não eram possuidores dessa característica. Essa diferença na interpretação sobre a procedência das substâncias fundou dois ramos supostamente distintos da Química: Química Orgânica, atrelada às substâncias produzidas pelos seres vivos; e Química Inorgânica, vinculada ao domínio das substâncias presentes nos sistemas não possuidores de vida.

Ainda que sob a ótica da teoria científica atual, a distinção entre seres possuidores ou não de uma força vital possa parecer inadequada, são compreensíveis alguns motivos que contribuíram para a aceitação da teoria vitalista da matéria. Um deles diz respeito à síntese desses compostos. Muitas substâncias presentes em sistemas orgânicos são bastante complexas para serem produzidas utilizando-se exclusivamente substâncias de natureza inorgânica, mesmo levando-se em conta o conhecimento químico contemporâneo. Outro motivo se baseia na incrível capacidade que os organismos têm de metabolizar reações que são muito difíceis de serem conduzidas dentro de um frasco de laboratório. Somado ao fato de que nossas máquinas orgânicas se autogerem, autorreplicam, autorreparam, autoconduzem sem nenhum estímulo evidente além do ar que respiramos e do alimento que ingerimos, é bastante razoável considerar que esse complexo sistema de relações tem um domínio próprio, não podendo ter sido fruto simplesmente do acaso e de uma natureza sem intenções.

Apesar de retratar seu panorama de época, o vitalismo não perdurou como teoria científica sólida para a definição de Vida. Os trabalhos do químico alemão Friedrich Wöhler, em 1828, a respeito da síntese da ureia a partir do cianato de amônio - um sal inorgânico -, aliado à crescente aceitação da teoria atômica como modelo para a compreensão da composição primeira da matéria, colocou ao vitalismo uma série de questionamentos que seriam gradualmente respondidos nas décadas e séculos subsequentes. Em especial, o desenvolvimento da bioquímica e da compreensão da estrutura biomolecular dos seres vivos, ao longo do século XX, trouxeram luz sobre tais questões.

 A interpretação vitalista da matéria foi superada pela concepção de que os elementos materiais que constituem os seres vivos em nada diferem daqueles que constituem todos os demais corpos inanimados que se conhece, mesmo que tal concepção ainda esteja envolta em mistérios e sujeita a muitas dúvidas. Química Orgânica e Química Inorgânica, termos frequentemente empregados atualmente, remontam a um único corpo integrado de conhecimentos sobre a matéria e suas transformações, isto é, à Química.

revista coonectar

© 2020 por Coopernexus. Webdesign Matheus Meira, Bruno Andreoli e Livia Cucatto.

Aos leitores:
Os artigos publicados nesta revista não refletem necessariamente uma opinião da Coopernexus, já que somos um fórum de opiniões. A responsabilidade das matérias aqui publicadas é exclusiva dos membros da revista.