Commodities e seus impactos na economia brasileira

Por Caio Davanzo

Em 2020 o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro recuou 4,1% em relação ao mesmo período de 2019, segundo o IBGE - a maior redução nos últimos trinta anos. Na prática, esse indicador evidencia o reflexo da crise COVID na economia do país, exemplificado pela queda no consumo das famílias brasileiras, que no mesmo período caiu 5,5%. Ressalta-se, porém, que apesar de uma queda expressiva no PIB, o Brasil, comparativamente com outros países, obteve o 21º melhor resultado entre 50 países analisados pela Austin Rating, ficando à frente de países como Reino Unido, Espanha (-11%) e Alemanha (-5,3%). Dessa forma, o que poderia nos ajudar a compreender tal desempenho?

Isolando aspectos temporais do impacto do COVID em cada país, um fator determinante para os diferentes resultados entre Brasil e os países citados é a composição de suas respectivas economias. Em países caracterizados como desenvolvidos, setores da economia como serviços e indústria têm maior peso proporcionalmente quando comparados com países em desenvolvimento. Ao decompor o PIB brasileiro por exemplo, apesar de retração nos setores de serviços (4,5%) e indústria (3,5%), houve crescimento de 2% na agropecuária. Em 2019 o agronegócio correspondia a 20,5% do PIB do Brasil, saltando para 26,6% em 2020 segundo o CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

Nesse contexto, nota-se a importância das commodities para a economia brasileira que, de maneira simples, podem ser compreendidas como todas as matérias primas básicas, sem diferenciação e baixo nível de industrialização, que serão utilizadas no processo produtivo para confecção de produtos de maior valor agregado. Em 2020, segundo o ministério da economia, o Brasil apresentou recordes de exportação ou valor comercializado em diversos produtos, tais como petróleo, carne “in natura”, café não torrado e açúcar, além da soja - principal produto exportado - que apresentou crescimento de 13% nos embarques frente ao mesmo período de 2019. O Brasil, além de ser o maior produtor e exportador de diversos produtos, tais como a soja, consolidou-se como o país com maior superavit agrícola (diferença entre o volume exportado e o volume importado) no mundo. Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2019, o superavit brasileiro foi de 71,5 bilhões de dólares, muito acima da União Europeia, segunda colocada, com superavit de 35,2 bilhões. Tais números reforçam a importância das comodities para o crescimento econômico e geração de riqueza no país.

Contudo, se por um lado o país possui características demográficas extremamente favoráveis para agropecuária e atividades extrativistas - como clima, posição geográfica e área cultivável, sendo o Brasil a 5ª maior área passível de cultivo do planeta, atrás apenas da índia, EUA, China e Rússia -, é importante salientar a dependência econômica dos patamares de preços do mercado externo, pois, como conceituado acima, por se tratar de um produto com pouco diferenciação e níveis de qualidade padrão, as commodities são negociadas em bolsas de valores em todo mundo, sendo o seu preço estabelecido pelo mercado mundial de acordo com a oferta e demanda de cada um desses produtos. Dessa forma, os países possuem pouco ou nenhum controle sobre os patamares de preço, ficando a mercê de quedas acentuadas como ocorridas em 2014 oriundas de desequilíbrio entre a produção e consumo ou motivadas por especulações no mercado internacional.

Nesse cenário, com perspectiva de elevação dos preços das principais commodities produzidas no Brasil para 2021, como minério de ferro, petróleo e soja, atingindo patamares de preço não observados nos últimos seis anos, as commodities serão um fator importante para retomada da economia após seu recuo histórico em 2020. Entretanto, o crescimento expressivo da sua participação relativa no produto interno bruto brasileiro acende um farol amarelo, pois como observado em 2014, após o fim do super ciclo de preços no mercado internacional, não há garantias, e basear a retomada econômica em apenas um setor expõe a economia brasileira a fatores não gerenciáveis, podendo culminar em uma retração ainda mais severa.

Formado em Administração de Empresas e Agronegócios pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde foi professor e coordenador do curso pré-vestibular no campus durante a graduação. Pós-graduado (MBA) em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e especialização em Gestão Financeira pelo INSPER. Consultor na FALCONI desde 2012 com atuação em reestruturação de empresas e desenvolvimento estratégico. Apaixonado por história e adepto de qualquer atividade que o coloque em contato com a natureza.

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