Saúde mental em tempos de pandemia

 

Psicóloga Tatiane Patricia de Sousa - CRP 06/137380

Covid

Todos nós já experimentamos episódios de tristeza, desânimo, tédio, preocupação, irritabilidade, entre outros, em vários momentos do nosso dia-a-dia, mesmo antes da pandemia. No entanto, a questão é que na atual situação tudo está intensificado e nos convidando (ou nos obrigando) a refletir sobre estratégias para cuidarmos de nossa saúde mental frente às mudanças e novas exigências desse período.

Antes de prosseguirmos, é interessante que tenhamos uma mínima compreensão sobre o que é saúde mental. Segundo um artigo da OMS de 2016, saúde mental é muito mais do que a ausência de transtornos mentais, compreendendo também aspectos biológicos, sociais, ambientais, entre outros, tratando sobre a capacidade do indivíduo em passar por eventos traumáticos e difíceis, podendo se emocionar, se reestruturar e interagir a partir dos recursos e habilidades que possui.

Saúde mental de forma alguma se define em nunca viver momentos ruins ou evitar os sofrimentos. Na verdade, ela evidencia a importância da estrutura de nossos recursos emocionais e do reconhecimento dos nossos limites para enfrentarmos um momento difícil como esse que estamos vivendo, cheio de incertezas e que nos afeta de diferentes formas e com vários desdobramentos.

Vamos tentar ilustrar melhor essa nossa reflexão. Desde o início da chegada do COVID 19 ao Brasil, já se previa, por exemplo, que haveria um bombardeio de notícias aliado a uma rapidez de disseminação dessas informações e que nós dificilmente teríamos como processar tudo, o tempo todo, sem sermos afetados. Porém, como o novo Coronavírus é algo com o qual nunca lidamos, sendo constantemente pesquisado, precisaríamos manter uma rotina informativa para sabermos como melhor nos organizar para combatê-lo, nos proteger e saber o que ocorre à nossa volta. Por isso, muitos profissionais de saúde mental insistem na importância de se informar, só que de forma seletiva e ponderada: não negando a realidade, não fugindo dela, mas também não fazendo dessa busca por informações algo obsessivo.

Percebemos que, de fato, a quantidade de informação lá nas semanas iniciais da quarentena foi enorme e, muitas vezes, parcialmente falsa ou confusa, o que pode ter causado mais ansiedade e insegurança. Somamos a isso todos os desdobramentos que o Brasil tem passado, sejam políticos, sociais e/ou econômicos. Tudo isso além do luto pela morte de tantas pessoas, o contínuo medo do contágio de si e de pessoas próximas, as experiências, necessidades e vulnerabilidades de cada família, de cada pessoa, que são únicas e que têm suas urgências. Não é exagero dizer que culminamos em um todo cheio de preocupações, de diversas ordens, emocionalmente cansativo e potencialmente adoecedor.

É claro que cada um de nós viveu esse período até aqui de formas diferentes e com intensidades diversas, sendo mais ou menos afetado. É esperado que estejamos alternando entre momentos mais ansiosos, entediantes e alertas, principalmente porque várias das questões de higiene e distanciamento, necessárias para combater o vírus, requer de nós mais atenção, planejamento e as ações repetitivas de lavar as mãos, as compras, não esquecer a máscara, etc. No entanto, mesmo que sejam esperadas mudanças em nossa forma de sentir e em nosso comportamento, temos que ser cuidadosos e observar quando algo está fora de controle.

Outro ponto importante e que requer atenção é o fato de que a períodos de estresse intenso, como o momento atual, se somam todas as coisas que já não andavam muito bem em nós antes da pandemia. E embora compreender tudo isso seja difícil, é justamente por meio do entendimento do que se passa à nossa volta e conosco, atrelado à busca por formas de cuidado e suporte emocional, que se pode exercer aquele conceito de saúde mental que escrevi lá no início do texto: passar pelo períodos desafiadores, pelos sofrimentos, com os recursos que temos, que vamos construindo ao longo da vida e que nos tornam capazes de nos reestruturar.

Pensar em cuidar da saúde mental não é ainda algo que seja tão valorizado, muito menos priorizado ou incentivado. E é bem verdade que, por vezes, trata-se de algo pouco acessível. Agora, talvez o assunto esteja mais aceso pela evidente necessidade e é importante entender que várias atividades colaboram de formas diversas e em aspectos diferentes para o que entendemos como bem-estar. Nessa quarentena, muitos descobriram prazer em cozinhar, cuidar das plantas, praticar yoga, dançar, aprender um instrumento musical, meditar, fazer artesanato e tantas outras práticas que, com suas especificidades, atuam de formas diferentes em nós, promovendo saúde e prevenindo adoecimento. Tudo isso faz parte de um grande entendimento de saúde mental, tudo isso é potente e nos auxilia a melhorar nossa qualidade de vida. Mas é importante saber que apesar de todas essas práticas serem terapêuticas, elas não são psicoterapia e não a substituem. Todas elas trabalham sim para o bem-estar, mas cada uma com suas finalidades e importâncias e, em casos de sofrimento intenso, precisamos buscar ajuda profissional.

Nós, que trabalhamos com a escuta de pacientes, ultimamente percebemos, por exemplo, o aumento nos relatos de sofrimento psíquico agudo e duradouro que reverbera por semanas, impedindo a pessoa de trabalhar, de dormir ou comer, lançando-a, algumas vezes ao uso abusivo de bebidas alcoólicas, cigarros ou outras drogas. Algumas pessoas também se mostram excessivamente irritadas, agressivas ou, o contrário, desesperançosas e deprimidas. Nesses casos, a ajuda de um psicólogo e psiquiatra é importante para auxiliar o paciente em seu tratamento. Por isso, caso precise de ajuda para você ou para alguém próximo, o SUS conta com uma rede de Atenção Psicossocial, com dispositivos como os CAPS e as UBSs. Existe também o Centro de Valorização da Vida (CVV) que realiza apoio emocional, prevenção ao suicídio e é um serviço gratuito, 24h e disponível para qualquer pessoa, bastando entrar em contato pelo telefone 188. Caso deseje serviços particulares, procure por profissionais certificados em seus conselhos de classe - CRP para Psicólogos e CRM para médicos, que tenham boa formação e que ofereçam serviços éticos e regulamentados. Tem muita coisa que é vendida como psicoterapia por aí com promessas grandiosas e curas imediatas e, na verdade, não é. Psicoterapia é um processo de tratamento entre um profissional e seu paciente, sem convicções religiosas e morais ou qualquer tipo de preconceito, serve para qualquer pessoa e não só para quem está em sofrimento psíquico intenso.

Gostaria de finalizar dizendo que é preciso que exercitemos a nos escutar com carinho e compreender o que se passa conosco. Esse momento de pandemia é desafiador sim, nossos sentimentos, muitas vezes, estão mais intensos. E a rotina e as práticas de saúde de outras pessoas não necessariamente servem ou se adéquam à nossa realidade e possibilidades. Não precisamos fazer yoga, meditar ou fazer psicoterapia se isso não atende nossas necessidades. Mas é importante compreender que tudo isso está à disposição e contribui com nossa saúde mental, sabendo onde e como encontrar, se for necessário.    

 

A psicose e a perversidade que se revelam na pandemia e o capitalismo

 

Curadoria de Gisele Cova

Em artigo publicado em julho de 2020 no Blog da Boitempo, o filósofo esloveno Slavoj Zizek apresenta uma reflexão de fundo psicanalítico perante a ordem capitalista nos tempos pandêmicos. Respaldado por Tedros Adhanom Ghebreyesus, atual diretor-geral da OMS, parte do pressuposto de que a pandemia só poderia ser controlada por meio da solidariedade e de uma nova conformação política. Em seu percurso, o autor dialoga com Lacan: denuncia o recorrente comportamento psicótico da recusa ao lockdown como um sintoma da manutenção da vigente ordem capitalista. Por meio de Hegel, resgata o imponderável das decisões e das ações humanas. Sendo assim, Zizek estrutura a reflexão para enfrentar o momento mais crítico que se apresenta à sociedade, o retorno ao movimento. Lançando mão da análise sobre a temporalidade da pandemia através das lentes da tríade da antiguidade grega, Chronós, Airón e Kairós, o filósofo anuncia, ainda que brevemente, sua proposta: que sigamos um desses titãs para que enfrentemos as psicoses que se nos apresentam. Vale conferir o que Zizek tem a dizer sobre nossos tempos.

https://outraspalavras.net/outrasmidias/zizek-a-volta-ao-normal-e-a-psicose-suprema/

Zizek

Saturno devorando um filho, Goya (1819 - 1823)

Imagem: https://www.wikiart.org/pt/francisco-de-goya/saturno-devorando-um-filho-1823,

acesso em 24 de agosto de 2020

 

No tempo da morte, a morte do tempo

 

Curadoria de Gisele Cova

Fuks

A persistência da memória, Salvador Dalí (1931)

Imagem: https://www.culturagenial.com/a-persistencia-da-memoria-de-salvador-dali/, acesso em 22 de agosto de 2020

O escritor e crítico literário Julián Fuks, autor de “A resistência” e “A ocupação”, escreveu no projeto Decameron do The New York Times, traduzido para o UOL no fim de julho, um conto sobre as relações que se estabelecem com o tempo ao se deparar com a morte. A reflexão sobre a paralisia do tempo ocorre no dia em que mil e uma mortes são noticiadas no Brasil. O contato com uma morte é suficiente para entender o mundo de outra forma, ou para deixar de entendê-lo. Fuks se refere às infinitas mortes e mais uma. Em sua sensível visão, transfere essa experiência individual para o campo da impessoalidade, inerente ao momento de pandemia. O autor oferece elementos para considerar quanto silêncio e horror as pessoas estão enfrentando ao se relacionarem com as infinitas mortes.

E como uma das possíveis molduras para a leitura desse conto, trago aqui uma reflexão proposta por Vladimir Safatle, quando da apresentação de seu curso de 2017 sobre Reconhecimento, na graduação em Filosofia: vivenciar a recusa do direito à transmutação da experiência de vida em memória é uma forma de presenciar a recusa social sobre a existência de alguém. Essa recusa hoje se apresenta sob a forma de diluição nos números de vítimas da pandemia e sob os ritos invadidos pela pressa e pelo medo. A leitura do conto de Fuks é importante para manter o movimento do incômodo perante os números que se nos apresentam e, assim, fortalecer o reconhecimento da existência de todos que se foram.

Texto publicado no UOL:

https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2020/07/25/no-tempo-da-morte-a-morte-do-tempo.htm?fbclid=IwAR2dPllSkPrsfJelxLbV71GxEbPht4hm0lSg_ELPpyp2l7K_scBHRsAgcRQ

 

Texto original, publicado no The New York Times: https://www.nytimes.com/interactive/2020/07/07/magazine/decameron-project-short-story-collection.html

 

 Crise no mercado de trabalho:

será a pandemia a única vilã?

 Curadoria de Cibele de Luccas

Cibele

Você já se perguntou, ou ouviu alguém se questionar, qual ou quais cursos deveriam realizar para ter maiores oportunidades no mercado de trabalho? Muitos de nós temos a ideia enraizada de que precisamos de especializações e de um ensino superior concluído para termos melhores oportunidades e sucesso profissional.

Inclusive, em período de pandemia, temos claro que a instabilidade e a presente crise afetarão ainda mais o andamento de nossas carreiras e nosso caminho no famigerado mercado de trabalho.

Na reportagem abaixo, publicada no G1, vemos um cenário preocupante. Pois, assim como Camila, Bruna e Bruno, citados na matéria, existem muitos outros que se encontram na mesma condição que eles: graduados que não conseguem ingressar em suas áreas de formação ou em áreas quaisquer em que o ensino superior seja necessário. São considerados sobre-educados. O número de jovens entre 22 e 25 anos nesta condição chega a 40% no Brasil.

https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2020/08/11/no-brasil-40percent-dos-jovens-com-ensino-superior-nao-tem-emprego-qualificado.ghtml

Porém, não se engane, esse cenário foi somente agravado pela crise econômica decorrente da pandemia. Ou seja, seu início antecede a situação atual. De acordo com a reportagem acima, a produtividade do trabalhador brasileiro está estagnada desde a década de 80.

Veja que, segundo a reportagem abaixo, realizada pela BBC, em 2016, os cursos de ensino superior e o formato em que são ministrados para um público expressivo de nossa população não fomentam o que o mercado de trabalho exige. Há mais cursos e mais alunos formados em áreas restritas onde já não há vagas para todos. Além disso, muitas profissões exigem experiências que não eram motivadas ou oferecidas pelos cursos superiores.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37867638

Dessa forma, podemos pensar que talvez não seja somente a pandemia a responsável por este cenário de estagnação. Muitos defendem, inclusive, que um dos cernes para esta situação alarmante, da não conquista de uma posição justa no mercado de trabalho, está vinculada a outros problemas. No caso do artigo abaixo, também anterior à crise atual, a educação brasileira, de forma mais profunda, é apontada como elemento fundamental do cenário de amplo desemprego.

https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/educacao-trabalho-e-cidadania