AGONIA​

Por Gisele Cova

Quinta-feira, dia 14 de janeiro de 2021. Manaus em agonia. Falta de oxigênio nos leitos para os pacientes de Covid-19 e para qualquer pessoa que enfrente dificuldades em respirar, mesmo os 61 recém-nascidos. Prematuros ou não. O mundo acompanha em agonia. Brasil agoniza junto. Bolsonaro se esquiva, Mourão se esquiva, o problema não é meu, a culpa não é minha. Enquanto isso, médicos, enfermeiros e famílias lutam para que o ar chegue aos pulmões de quem precisa de um elemento essencial em cada minuto da vida do ser humano. Na verdade, de tantos seres vivos.

 

Façamos um salto em nossa análise e voltemos nossa atenção para o ambiente que circunda o cenário de desespero relatado em Manaus e que carrega em si algo do sublime: pensemos sobre a Amazônia. Aqui, cabe o cuidado de ressaltar que não partiremos do pressuposto irreal de que esse bioma representa o pulmão do mundo. Essa é uma imagem fantasiosa frequentemente viva no olhar sobre a Floresta. Talvez por estar tão inconscientemente presente, passa a ser tão utilizada nas narrativas de sensibilização sobre a importância da Floresta. Pensemos, por outro lado, sobre a Amazônia como um grande centro regulador do clima do planeta. As estruturas florestais que conhecemos em diversas partes do globo são resultado de anos e mais anos de evolução a partir das condições abióticas desses ambientes, tais como umidade relativa do ar, regime de ventos, teor de insolação e sombreamento. Buscando maior precisão nessa análise, cabe considerar que as condições abióticas selecionam os seres vivos e, ao mesmo tempo, os seres vivos, humanos ou não, impactam o meio em que vivem. Por isso, podemos dizer que algumas características do clima são mantidas pelos seres que ali habitam. Para ilustrar essa relação de interdependência, observemos nossa Caatinga: um ambiente árido, pouco chuvoso e com elevadas temperaturas ao longo do ano. As plantas que vivem no nosso sertão resistem e sobrevivem, estão muito bem adaptadas ao clima. Esses seres vivos apresentam baixíssima taxa de perda de água para o ambiente, o que retroalimenta a escassez de água local. Mesmo os animais estão muito bem adaptados a tanta aridez. Há ali um anfíbio, um sapinho, de certa forma recém-conhecido do mundo científico, o Pleurodema diplolister, que é capaz de se enterrar nos leitos dos rios secos nas épocas de estiagem da Caatinga. Dessa maneira, esse organismo consegue reduzir sensivelmente seu metabolismo, diminuindo, por exemplo, o ritmo cardíaco e o de trocas gasosas. Com a vida em suspensão, espera pelos momentos de chuva para que possa se alimentar e se reproduzir. Se a seca aperta, ele é capaz de se enterrar um pouco mais, tirando proveito da escassa umidade relativa que se mantém no solo. Alguns estudos indicam que o P. diplolister resiste nessas condições por até três anos. Trata-se de um representante de um grupo de seres vivos que sobrevive mesmo com as adversidades próprias da Caatinga.

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Sapo da Caatinga da espécie Pleurodema diplolister logo depois de entrar em atividade por resposta à percepção de retorno de umidade ao ambiente

Voltemos para o outro bioma, diametralmente oposto da Caatinga quanto à oferta de umidade. A Amazônia se refere a um bioma, a uma formação climatobotânica gigantesca, fenomenal, imensa. Poderíamos pensar em uma série de adjetivos que descrevam algo que, de tão complexo e extenso, nos escapa. Compartilha a latitude da Caatinga, mas, como muito do que se refere à Amazônia, extrapola seus limites. A carga de biomassa que existe ali é igualmente fenomenal. Aliás, é justamente devido à tamanha biomassa que a taxa de fotossíntese realizada pela floresta é praticamente equivalente à taxa de consumo do oxigênio. E é nessa relação que reside a razão em ser uma fantasia afirmar que a Amazônia é o pulmão do mundo. Há praticamente tanto consumo quanto produção de oxigênio. Falamos que a produtividade primária líquida da floresta é muito baixa, ou seja, há pouquíssima “sobra” de oxigênio para o planeta.

 

Para entender um pouco da dinâmica da Amazônia e seu papel de regulador de clima para territórios muito distantes de suas raízes, é bem importante partir da análise do ciclo da água: a floresta apresenta uma taxa de evapotranspiração altíssima. A evapotranspiração é o fenômeno observado nas folhas das plantas. Há, ali, estruturas reconhecidas como estômatos essenciais à vida da enorme maioria das plantas. Os estômatos são estruturas formadas por células presentes na epiderme das folhas que permitem a captura de gás carbônico, essencial à fotossíntese, mas que, ao mesmo tempo, promovem a perda de água do corpo da planta, sob a forma de vapor. É algo realmente encantador. Os estômatos conseguem se abrir em resposta ao nascer do dia, e, assim, captam o gás essencial à manutenção da vida das plantas e permitem a condução da água pelo caule, já que a perda do vapor d’água para a atmosfera promove a subida da seiva, especialmente nas árvores de grande porte. Portanto, os estômatos são estruturas fundamentais à existência de uma árvore. As árvores de sistemas úmidos apresentam muitos estômatos, não há qualquer pudor em perder tanta água para o ambiente, ao passo que árvores de meios mais áridos não podem se dar ao luxo de manter os estômatos sempre abertos. Ainda que precisem estar presentes, justamente porque sem essas estruturas a fotossíntese não seria viável, observam-se várias adaptações que protegem as plantas da Caatinga de uma situação de desidratação. Os estômatos de uma planta da Caatinga ou do Deserto tendem a ser protegidos por fendas, tricomas (uma espécie de pelo da planta) e até podem se abrir à noite, quando a perda d’água não é tão pronunciada. Para além de ser um fundamento da vida de uma árvore, pode-se dizer que os estômatos são estruturas basilares da manutenção de muito da vida de nosso planeta, pelo menos tal como a conhecemos.

A enorme carga de estômatos presentes na floresta permite uma taxa de evapotranspiração descomunal. Calcula-se que a taxa de evapotranspiração seja da ordem de 20 bilhões de toneladas de água por dia. Sabe-se que a vazão do rio Amazonas, rio mais volumoso do planeta, é da ordem de 18 bilhões de toneladas no mesmo período. Percebemos com esses dados que, a cada dia, há mais água evaporando do que água correndo no rio Amazonas. Pelo menos, é o que havia. Muito dessa água, derivada da atividade dos seres vivos, sustenta o clima do ambiente, alimentando a própria floresta. É a chuva que despenca do céu. Quem já teve a oportunidade de visitar Manaus ou alguma região Amazônica já vivenciou essa chuva. Muito dessa água, porém, percorre outros caminhos e forma os rios voadores. A água, sob a forma de vapor, segue para o sul da América do Sul, enfrenta a barreira da Cordilheira dos Andes e alimenta boa parte do sudeste da América do Sul. Alimenta o Cerrado e a Usina Hidrelétrica de Itaipu, por exemplo. Esse movimento de umidade é reconhecido como um serviço ecossistêmico que a Floresta fornece a outros ambientes.

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Chuva que se forma especialmente a partir da atividade biológica da própria Floresta Amazônica: estruturas presentes nas folhas das árvores denominadas estômatos são as grandes responsáveis pela volumosa evapotranspiração

Não há aqui a intenção de trazer novidades. A permanência do garimpo que envenena de modo definitivo os rios, o solo e os povos da floresta, a ganância que se manifesta no ato da grilagem em terras do Estado e o desmatamento seguido da ocupação pela pecuária, o que tem representado uma estratégia de especulação fundiária, têm sido, de alguma forma, noticiados. Entretanto, dada a magnitude da floresta, é bem possível que cada um de nós assuma para si que a Amazônia está em risco, mas que provavelmente tudo vai se resolver. A floresta vai conseguir se regenerar e cicatrizar esses tempos duros. E, diante desse cenário de crença, cabe recorrer a dados e fatos para se vincular à razão. Até 1975, cerca de 0,5% da Amazônia havia sido desmatada. Em 1985, esse índice chegou a 5%. Em 2007, já não havia 17% da floresta original. Hoje, estima-se que 20% do bioma tenha sido desmatado. Lembremos que as condições abióticas são também mantidas pelos seres vivos que ocupam determinado ambiente. O processo de savanização da Amazônia está em curso. A partir de certo ponto, a taxa de evapotranspiração que ali ocorre a partir da vegetação que tem sido preservada, não será suficiente para a manutenção do clima que hoje conhecemos. Os estômatos não operam milagres: quanto mais se agride a Amazônia, menor a vazão dos rios voadores.

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Dentre outras ações humanas que esvaziam a Floresta, as queimadas diárias se referem a uma realidade que persiste por anos e que ainda bate recordes

Muito possivelmente, amargaremos outra vez a angústia que sentimos pelo povo de Manaus em janeiro de 2021. Nossa angústia não será pela falta de oxigênio, mas pelas mudanças climáticas que a derrubada da floresta provocará. Apesar de ser um signatário da Convenção de Paris de 2015, compromisso internacional firmado para mitigar as mudanças climáticas, e de repensar estratégias de emissão de gases de efeito estufa, o Brasil assume um papel protagonista no processo de aquecimento global. As queimadas lançam na atmosfera o carbono que estava armazenado na biomassa da floresta. Nos próximos anos, enfrentaremos secas em Itaipu e, consequentemente, uma profunda crise de energia, uma vez que nossa matriz energética ainda é largamente dependente de hidrelétricas. Lidaremos com secas no Cerrado e prejuízos descomunais advindos de impactos na agricultura, já que ainda se investe tanto em latifúndios. Isso sem mencionar a evidente perda perpétua da biodiversidade. Perda irrecuperável das riquezas que a complexidade oferece. Cabe destacar que, por exemplo, poderemos não mais encontrar registros do Pleurodema diplolister na Caatinga, pois as previsões apontam para secas ainda mais pronunciadas, de modo que os indivíduos que estiverem enterrados nos leitos dos rios não sobreviverão a estiagens mais prolongadas. Se o Brasil é hoje referência mundo afora sobre como não se deve lidar com a pandemia, logo assumiremos nossa responsabilidade pela aceleração do aquecimento global e presenciaremos mudanças climáticas locais e globais. Nesse curso, contribuímos muito para que o planeta passe a apresentar outra fisionomia. As agonias se aprofundam.

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A Floresta silencia. Barro, pedra, pó e nunca mais.