O negro no mundo dos brancos: uma sociabilidade possível?

Por Alex Eleotério

O título deste texto evoca o célebre livro do sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1920 – 1995), publicado em 1972. De acordo com ele:

 

O Brasil que resultou da longa elaboração da sociedade colonial não é um produto nem da atividade isolada nem da vontade exclusiva do branco privilegiado e dominante. O fato, porém, é que a sociedade brasileira foi montada para esse branco (FERNANDES, 1972: 14).

 

Passados quase cinquenta anos da publicação da primeira edição do livro O Negro no Mundo dos Brancos, creio valer a pena o questionamento sobre a atualidade deste título, nos idos do século XXI. De acordo com o sociólogo, após as transformações sociais derivadas do deslocamento de uma sociedade colonial, para outra imperial, passando posteriormente por dois períodos ditatoriais e duas repúblicas, fato é que o regime escravocrata, em vigor no país por cerca de 300 anos, deixaria como herança profundas e indeléveis sequelas para a sociabilidade dos cidadãos brasileiros. Ora, como permitir que os negros tenham as mínimas condições para usufruírem das benesses sociais e materiais de uma sociedade montada, de acordo com Florestan, para pessoas brancas? A partir desta questão, nos surge uma outra, a saber: Há a possibilidade de vislumbrarmos no Brasil um espaço respeitoso no qual a sociabilidade entre negros e não-negros não seja afetada por condições histórico-sociais tão longínquas, mas ainda tão presentes e traumáticas?

Pensando sobre as complexidades que envolvem as redes de relações humanas, o sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918) nos leva ao entendimento de que a questão da sociabilidade é de suma importância para o estudo e o entendimento sobre a estrutura social. Tal conceito nos permite compreender seus princípios organizativos e o modo pelo qual se edificam; agindo diretamente na constituição de elementos objetivos e simbólicos que permeiam o cotidiano dos sujeitos. De acordo com Simmel,

 

a própria sociedade em geral se refere à interação entre indivíduos. Essa interação sempre surge com base em certos impulsos ou em função de certos propósitos. Os instintos eróticos, os interesses objetivos, os impulsos religiosos e propósitos de defesa ou ataque, de ganho ou jogo, de auxílio ou instrução, e incontáveis outros, fazem com que o homem viva com outros homens, aja por eles, com eles, contra eles, organizando desse modo, reciprocamente, as suas condições – em resumo, para influenciar os outros e para ser influenciado por eles. A importância dessas interações está no fato de obrigar os indivíduos, que possuem aqueles instintos, interesses, etc., a formarem uma unidade – precisamente, uma “sociedade”. Tudo que está presente nos indivíduos (que são os dados concretos e imediatos de qualquer realidade histórica) sob a forma de impulso, interesse, propósito, inclinação, estado psíquico, movimento – tudo que está presente nele de maneira a engendrar ou medir influências sobre outros, ou que receba tais influências, designo como conteúdo, como matéria, por assim dizer, da sociação. (SIMMEL, 1983: 165 - 166)

 

Percebemos nos últimos anos uma maior visibilidade sobre o debate das relações raciais nos mais distintos âmbitos da vida social. Tais discussões têm sido profícuas, sobretudo, ao questionarem uma sociedade que foi “montada para o branco”, mas que em nossa época se vê em pleno processo de ressignificação acerca dessa narrativa hierarquizante cujo objetivo é a manutenção de privilégios.

A possibilidade de vislumbrarmos uma sociabilidade afetiva e desracializada entre negros e não-negros se torna tangível quando na vida cotidiana ambos os grupos sociais estiverem efetivamente vivendo uns com outros homens, agindo por eles, com eles, contra eles. Concordâncias e, particularmente, divergências, eis aí o termômetro para uma sociabilidade a contento.

Referências

FERNANDES, Florestan. O Negro no Mundo dos Brancos. Difusão Europeia do Livro, 1972.

SIMMEL, G. Sociologia. Organizador [da coletânea] Evaristo de Moraes Filho; São Paulo: Ática, 1983.

Alexsandro Eleotério Pereira de Souza

Homem negro, doutor em Ciências Sociais, professor de sociologia da UNESPAR, apreciador de rap, jazz & samba, engajado na luta contra os racismos e demais opressões sociais.

 

Ser o que se é, da maneira que se consegue ser - reflexões de uma mãe de primeira viagem durante a pandemia

Por Isabela Moreira

Despedi-me daquele mundo em plenas férias, quando eu estava na praia, em meio a uma natureza exuberante, preservada, estava na ilha de Fernando de Noronha e era verão. Aquele mundo em que nossa maior preocupação era se eu, como “menina” que sou, poderia vestir azul, ou somente rosa.

Foi então que (quase) de repente, tudo mudou! Pairou uma tensão, aeroportos e fronteiras se fechando, e lá estava eu, num avião, usando máscaras, voltando para casa com uma barriga de 6 meses. Sim, eu estava grávida em pleno advento da pandemia do Coronavírus (COVID-19).

Salvo todos os sustos e incertezas, aos poucos a poeira foi baixando e cada dia mais foi ficando clara a minha situação de futura mãe de primeira viagem durante o isolamento social. Não posso negar meus receios e lágrimas, sim eles vieram, mas rapidamente se foram, pois minha filha estava por vir.

Passadas 14 horas de um trabalho de parto difícil e doloroso, não houve dilatação. Pari minha filha numa rápida e decisiva cesárea. Atribuem a força da mulher grávida à sua forma de parto, mas gostaria de dizer que minha força não foi embora junto com minha cesárea. Pelo contrário, tive que descobrir a mulher que habitava em mim enquanto meu corpo estava se reconstruindo de uma cirurgia e atendendo aos chamados de um outro corpo: minha filha.

Foi um primeiro mês intenso, em que meu marido, minha filha e eu ficamos, forçadamente, totalmente isolados. Bom, ruim, assustador? Foi incrível!

Enquanto o mundo lá fora ruía em quedas de ministros e o vírus se alastrando Brasil adentro, vivi numa redoma construída de amor, aprendizado e afeto. Desligamos as TVs e redes sociais para ter direito a vivenciar o gosto de ver uma vida desabrochar. Ali nascia uma família.

Hoje, passados quatro meses, fico no dilema de como criarei uma criança com valores de coletividade num período de isolamento? Minha bebê não conhece outras crianças, e infelizmente será assim por algum tempo.

A depender das atuais instâncias da gestão da saúde do país, trago pra mim esse desafio: criar valores sociais e de coletividade num processo solitário e individual, afinal, pode não parecer para todo mundo, mas a pandemia ainda não acabou. O isolamento social salva e previne a saúde. Já a saúde mental da mãe de primeira viagem, puérpera, vai lá no chão.

Mas não me deixo abater, encaro esse desafio de frente e convido as outras mães (e pais) a se reinventarem, ou melhor, a se inventarem, pois já se tem tanta “receita de bolo” de como criar seus filhos... Convido a pensarem uma educação inclusiva, igualitária e equânime. Como explicar pra uma criança negra de uma família heteronormativa afrocentrada que lá fora existe um mundo racista que insiste em nos bater. Que as pessoas são livres para vivenciar o amor em qualquer forma que ele se manifestar? E que a dor do outro importa, mesmo se ela não doer em você.

Mas aos poucos, a cada dia, passei a entender que esse conflito se enfrenta com uma construção gradual daquilo que se acredita.

Tento deixar os medos como coadjuvantes e na clausura da quarentena me reinvento, agora como mãe. Não como aquela figura sacra, símbolo de um amor supremo e da piedade, mas sim daquela mãe que acredita que vale a pena ser o que se é, da maneira que se consegue ser. Confiar no meu instinto que até outro dia eu nem percebera que o tinha. E nesse descompasso cadenciado me equilibro no fio do ruído daquele chorinho que me chama. Sim, eu vou, já estou indo minha filha, construir nosso mundo aqui dentro. Transformar de dentro pra fora nossos ensejos de felicidade, cura e paz para um mundo que, hoje, insiste em rugir.

Isabela Coelho Moreira, mulher, negra, mãe, capricorniana. Nascida em Belo Horizonte, tem 34 anos e é formada em Ecologia e Engenharia Ambiental. Residente em Brasília, trabalha no governo federal para promoção de políticas públicas de saúde e saneamento. Também atua como percussionista do conjunto musical Comboio Percussivo.

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