João, carlos, Francisco, Marta, Cláudia e bruna
 

Por Fausto Gomes

 

João, Carlos, Francisco, Marta, Cláudia e Bruna. Todos esses são nomes que podem ou não nos remeter à memória de alguém, mas, independente disso, carregam em si a identidade de um sujeito. São formas de identificarmos as pessoas atribuindo-lhes ao menos uma informação relacionada ao gênero. Este configurado dentro de um processo construído socialmente para representar o masculino e o feminino. 

João, Carlos e Francisco são nomes que trazem a informação de que o sujeito que os porta é masculino. Da mesma forma, Marta, Cláudia e Bruna nos remetem à identidade feminina. Salvo alguns nomes de gênero neutro, como Ariel, Alisson, Noah, entre outros, apresentar-se com seu nome já é uma forma de alimentar a imagem que possuem e que estão construindo de você.

Mesmo os nomes de gênero neutro podem causar confusão quando já temos uma identidade de gênero associada a ele. Conheci um Gabriele na minha adolescência. Houve um conflito decorrente das minhas concepções sobre o indivíduo que carrega esse nome, uma dificuldade em aceitar que um garoto tinha um nome de menina. Era italiano e lá esse é um nome típico de garotos, diferente daqui. Porém os problemas relacionados ao conceito de gênero são muito maiores do que a confusão com os nomes. Para explicar esse ponto, usarei minha própria frase como exemplo.

Quando olhamos com mais atenção para o trecho “um garoto que tinha um nome de menina” percebemos duas informações inferidas por mim e carregadas de conceitos históricos socialmente construídos. Eles refletem questões de gênero e sexualidade de uma época específica de minha vida, assim como uma mentalidade reproduzida por mim e presente em minha fala. 

Considerando que é a partir das relações sociais que se constroem as diversas facetas identitárias constitutivas do sujeito, inclusive a identidade de gênero, eu preciso recorrer à minha história de vida. Ela pode explicar, minimamente, de onde as estruturas que moldaram meu pensamento vieram para poder inferir e reproduzir a frase “um garoto tinha um nome de menina”. Mas não se preocupe, não vou me alongar em nuances da minha vida, até porque são aspectos da minha história comuns a muitos de nós.

Não houve um só evento na minha escolarização ou nas minhas primeiras socializações que se preocuparam em me ensinar de onde vinham e por que existiam as diferenças entre homens e mulheres. Era um dado posto, que não se permitia discutir. Isso aqui era um brinquedo de menino, aquilo era um comportamento de menina. Cabia a mim aceitar essas distinções e evitar ao máximo fazer coisas que não eram de menino, inclusive portar um nome de menina. De fato, ser comparado ou aproximado ao feminino era uma grande ofensa, não só para mim, mas também para os outros meninos.

As mulheres também estavam cerceadas pelos adultos e tinham condutas rígidas a serem seguidas. Arrisco dizer que a rigidez e a cobrança sobre o comportamento das mulheres sempre foi muito maior do que aquela que me atingia ou atingia outros meninos porque além de terem que se comportar como mulheres, elas precisavam se diferenciar também umas das outras. A mais comportada, a mais delicada, a mais carinhosa, a mais arrumada, a mais cuidadosa e por aí vai. As mulheres sempre precisaram ser melhores que as outras e que elas mesmas, enquanto aos homens cabia somente a função de não ser uma mulher.

Talvez por falta dessas reflexões e por essa naturalização tão rígida de comportamentos que tínhamos que seguir, acabei criando conceitos próprios sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Esses conceitos foram formados à base da tentativa e do erro, daquilo que era aceito como típico do homem e daquilo que era típico da mulher. Se passasse pelo crivo social era incorporado como característica daquilo que eu estava formando como o conceito de masculino.

Por isso, ao conhecer Gabriele, julguei seu jeito de andar, sua fala, suas roupas, seu cabelo, todas as suas escolhas estéticas como sendo de um garoto. Ele, criado em uma sociedade que compartilha muitas características como as em que eu fui criado, expressava sua masculinidade nessas escolhas. Era assim que ele se via e como queria ser visto. Seu nome não era um problema, mas para mim foi um elemento de tensão, pois as minhas expectativas estavam relacionadas ao universo feminino. Minhas expectativas não correspondiam à sua realidade.

Saber o sexo do bebê e já escolher seu nome, suas primeiras roupas, as cores com as quais irá se identificar nas paredes de seu quarto, os primeiros brinquedos e as primeiras imagens, tudo isso implica em assumir o gênero da criança a partir da materialidade de seu sexo. Posso assumir com certeza que os pais de Gabriele escolheram esse nome porque, dentro do conjunto de nomes masculinos, esse é o que mais lhes agradava. E acreditavam que faria parte de seu ser a identidade masculina vinculada de antemão ao seu nome masculino.

Mas nem sempre é assim. O conceito de gênero enfatiza a construção relacional do sexo e a organização social desta construção. Nesse sentido, entendo que o gênero é uma construção histórica e que precisa ser entendida a partir de sua articulação com outras categorias sociais. Dessa forma, nós nos reconhecemos como masculino ou como feminino a partir das relações estabelecidas com o mundo e essas só se concretizarão alguns anos após os pais descobrirem o sexo do bebê.

Nem sempre a identidade de gênero que é reconhecida pelo indivíduo confere com aquela entregue a ele pelo mundo ao descobrir que a estrutura sexual do bebê era essa ou aquela. Apesar de possuir um pênis ou uma vagina, de se vestir com essas ou com aquelas roupas e de receber um nome que carrega o estereótipo masculino ou o feminino, há pessoas que desenvolvem uma identidade que pertence ao gênero oposto, não expressa pelo seu corpo, pelas escolhas estéticas da sua família e nem pelo nome que carrega.

Quão violento deve ter sido para o Gabriele ouvir que aquele nome não poderia ser dele e que pertencia ao universo feminino? Mas imagine só quão pior deve ser sentir-se pertencente ao universo masculino e, apesar de expressar escolhas estéticas, estereótipos e até um nome masculino, não ser reconhecido como homem simplesmente porque não era essa a expectativa que o mundo tinha quando nasceu?

Eu não entendo como as pessoas podem se sentir à vontade em chamar de Carol quem se expressa e escolhe ser chamado de Raul. Perceber que, já que os nomes carregam essa dimensão da identidade, comete um erro quem concebe o indivíduo como masculino e insiste em chamá-lo pelo nome feminino. O erro é cometido por quem insiste em reafirmar as expectativas de gênero criadas durante a gestação apesar da história de vida do indivíduo e de sua identidade de gênero. É tão violento quanto negar aos homens a sua masculinidade e às mulheres a sua feminilidade. É tão violento porque é a mesma coisa.

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