SEXUALIDADES: MONÓLOGOS DA EXISTÊNCIA
Fausto Gomes

É possível encontrar textos, blogs e listas de informações sobre o sexo, sobre sexualidades e as construções de gênero em muitos lugares. Este texto, portanto, é só mais um pulsar estroboscópico na balada do tema que lança uma luz aos corpos e comportamentos num único instante, o agora. Meu convite é olharmos para essa foto e levantarmos questões sobre aquilo que se vê, sobre esse recorte temporal, e refletirmos acerca da construção individual das sexualidades, das percepções de gênero, das dimensões de sua existência. Sobretudo, acerca de como a trilha percorrida para chegar aonde estamos pode contribuir para a nossa compreensão do mundo e do nosso pertencimento a esse mundo. Um mundo que há muito tempo deveria reconhecer a sexualidade como um dos elementos cruciais que fornecem pistas para entendermos a nossa existência.


A vivência da sexualidade e o termo sexualidade foram expostos a diferentes sentidos ao longo da história. A história da sexualidade no Ocidente aponta que na antiguidade grega e romana vivenciava-se uma liberdade sexual sem referência à noção de pecado ou de moral, pois vivia-se o completo prazer, tendo o sexo tanto para a reprodução como também para busca de sentimentos profundos do amor, assim como o prazer sexual e a sensualidade. Vários autores reforçam que, no Cristianismo, construiu-se uma moralidade permanente, mantendo a castidade ou o casamento. Isso reforçava a recusa do prazer sexual, reduzindo, assim, as práticas sexuais para os limites estreitos dos interesses procriadores.


Essa redução do sexo e da descoberta do prazer sexual não só tendia a limitar o sexo ao casamento e à função de reprodução, mas também atacava os homossexuais, que não se reconheciam nas convenções de gênero, e as mulheres e seu direito de conhecer o próprio prazer como parte fundamental do conhecimento do próprio corpo. Um efeito colateral bastante útil àqueles poderosos que precisam reafirmar seu papel na sociedade subjugando os outros que pretendem como submissos, dóceis e servos, dependentes das caridades suas.


A mulher, vista como local do sagrado e do amor puro de mãe, também era vista como fonte do pecado e das tentações humanas. Sempre vista como física e mentalmente inferior ao homem adulto. Por muitos anos a mulher ocupou um lugar entre a criança e o homem. E assusta perceber que essa visão de mulher e do lugar do feminino na sociedade pouco mudou nessa foto que acabamos de revelar.


Os homossexuais, enquadrados fora da normalidade da existência e vistos como corpos doentes, não puderam nem ocupar um lugar junto às mulheres na categoria de “outro sexo”, afinal, eram homens rebaixados que possuíam, inclusive, características tidas como femininas, sobretudo o gostar de homens. As mulheres homossexuais também eram tidas como doentes, não pertenciam à normalidade feminina, porque reivindicavam um estrato social mais alto, mais próximo aos homens, dessa ruptura com as suas funções naturais surgia seu prazer em outras mulheres.

 

Mas quem criou essa noção de normalidade? Seria ela uma percepção natural do homem? Submetendo os corpos a essa normalidade, estaríamos saudáveis física e mentalmente? Provavelmente, não. A normalidade ocidental foi definida por um conjunto de homens, brancos e heterossexuais, que tinham a si próprios como normais e a todos os outros como anormais, doentes e, portanto, inferiores. Quem dera esses homens tivessem olhado para esse momento estroboscópio que estamos vendo e definido a normalidade justamente como ela é: diversa ao extremo. Tão diversa que a normalidade nas questões de gênero e sexualidade deveriam existir em tantas categorias quanto existem de pessoas. As construções das individualidades dos sujeitos é um grande monólogo que escrevemos sozinhos enquanto lidamos com as tensões desse nosso momento.


A tensão, hoje, não é a inferioridade física ou mental, aqueles que insistem nisso estão, sem dúvida, ultrapassados e deslocados da realidade. Hoje a adequação dos corpos e comportamentos é forçada a satisfazer modelos de eficácia, produtividade e competitividade regidos por um complexo mecanismo social de normatização das pessoas. Mas ainda são as mesmas pessoas que lutam para definir essas normas de existência social. Para a máxima “não se nasce mulher, torna-se mulher” da Simone de Beauvoir, eu, em toda a minha presunção, faço uma atualização: não se nasce, torna-se. Assim torna-se mulher, torna-se homem, torna-se alguém que reconhece a pluralidade das existências ou torna-se alguém que reproduz um sistema de restrições cruéis e violentas a outras pessoas só porque elas não se enquadram nas suas imposições de normatização.

 
Só podemos escrever nossa existência nesse infindável processo de autoconhecimento à medida que nos permitirmos sentir o mundo do nosso jeito. Como uma das dimensões dessa existência é a nossa sexualidade, quanto mais nos conhecermos, mais saberemos o que nos dá prazer, o que nos é indiferente e o que nos causa asco. Ao observar a foto estroboscópica que despertou a nossa análise vemos, apesar dos diversos atores em cena, um conjunto de monólogos sobre as sexualidades sendo escritos. Expressos individualmente, porém construídos no diálogo que estabelecem com a cultura. Alguns com mais liberdade que outros, mas todos, na construção de suas sexualidades, são autores de
seu próprios monólogos de existência.