The boys

Estados Unidos, 2019 (1ª temporada) e 2020 (2ª temporada)

Série criada por Eric Kripke

 

Por Luis Vieira

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Cartaz de Divulgação da Série

Estreou no começo de setembro a segunda temporada de The Boys, produzida e exibida pela Amazon Prime, a plataforma de streaming da Amazon. De modo geral, os novos episódios mantêm a mesma (alta) qualidade dos lançados no ano passado, o que deverá agradar aos que já acompanhavam a série e, também, atrair novos espectadores. Se a preocupação é o receio de pegar o bonde andando, a quantidade de episódios - oito em cada temporada - não torna difícil a tarefa de cobrir a defasagem para quem começar a assistir agora. No entanto, essa resenha não se restringe apenas ao universo ficcional da série e seus pormenores. A ideia aqui é buscar paralelos entre a ficção a que assistimos e a realidade que nos cerca. Em comum entre uma e outra é a presença massiva de super-heróis e a necessidade cada vez maior em desconstruí-los ao invés de aceitá-los passivamente.   

The Boys é uma adaptação das histórias em quadrinhos homônimas, criada pelo premiado roteirista irlandês Garth Ennis e pelo magistral desenhista norte-americano Darick Robertson, tendo sido publicada mensalmente entre 2006 e 2012. Em uma descrição sucinta, The Boys destila todo o bem conhecido e nada disfarçado desprezo que Ennis nutre em relação ao gênero de super-heróis, justamente o filão mais lucrativo da indústria dos quadrinhos. Na trama original, também utilizada na série da Amazon, Os Rapazes (The Boys), são uma equipe clandestina financiada pela CIA cujo objetivo é manter os super-heróis do planeta na linha. Os integrantes do grupo, todos marcados por tragédias pessoais envolvendo a negligência, despreparo e o menosprezo de indivíduos super-humanos autoproclamados heróis, buscam colocar limites a esses seres capazes de voar, destroçar aço com as mãos, disparar rajadas pelos olhos entre outras façanhas. Portanto, na série, a rigor não existem super-heróis, pois uma vez que são os antagonistas, cabe-lhes melhor a denominação de super-vilões.

O hiato entre o fim da publicação, em 2012, e a estreia da adaptação, em 2019, parece ter sido oportuno, já que durante esse espaço de tempo o gênero de super-heróis cravou ainda mais fundo suas raízes na cultura popular, dominando a indústria do entretenimento e invadindo, ano após ano, a maioria das salas de cinema no mundo todo. Portanto, desmistificar e analisar criticamente os impactos desse assalto cultural, colocando os personagens de colante, armadura e uniformes nos bancos dos réus se faz urgente no atual cenário. Ninguém menos do que Alan Moore, talvez o maior escritor de quadrinhos de todos os tempos, com passagem pelos mais famosos títulos de super-heróis, já expressou sua preocupação e desaprovação em relação a saturação do gênero, argumentando que esse excesso de histórias escapistas e repletas de maniqueísmo infantiliza o público, tornando discussões sócio-políticas da maior complexidade e importância em pastiches reduzidos a frases de efeito numa empobrecida lógica de bem contra o mal. Para Moore, a eleição de Trump – um bufão nazista, nas palavras do escritor - em 2016 está relacionada com o fato de seis entre os doze maiores filmes do mesmo ano serem de super-heróis.

Além desse sugestivo paralelo, é um tanto incômoda a semelhança entre um personagem como Tony Stark (Homem de Ferro), dono de um império industrial, atropelando instâncias de poder legítimas ao clamar em um filme “Eu privatizei a paz mundial”, e Elon Musk, também magnata da indústria e CEO da Tesla, dizer em alto e bom som que apoiou o golpe de 2019 na Bolívia e apoiará outros no futuro. De alguma forma, a massificação do gênero de super-heróis parece contribuir para o culto de personalidades que se apresentam de forma paternalista (deixem que eu resolvo isso) e populista (estou fazendo isso por vocês). Além de Trump e Musk, não posso deixar passar exemplos brasileiros como Sérgio Moro vestido de super-homem e o notório “Véio da Havan” (identidade nada secreta do sonegador Luciano Hang) como boneco de super-herói.

Considerando tudo isso, The Boys se torna oportuno, porque, na série, os super-heróis trabalham/são propriedade de um imenso conglomerado empresarial, a Vought American, que lucra com todos os produtos e merchandises referentes a essa marca, além de forçar a criação de demandas para esses personagens e ensejar a internalização acrítica a esse consumo. O crescimento da companhia e sua ingerência no governo norte-americano é uma das preocupações da CIA e, consequentemente, dos Rapazes. Dessa forma, tanto na trama quanto no mundo real, super-heróis são acima de tudo marcas e produtos cada vez mais onipresentes e explorados com o objetivo prioritário de gerar lucro para empresas privadas e fomentar a passividade do público a fim de possibilitar um crescente aumento de demanda. E, claro, não devemos esquecer o oportunismo político de aventureiros ao utilizar essa estética messiânica e populista.

De fato, vemos pouco heroísmo na série. A equipe principal da Vought American, Os Sete (uma paródia explícita da Liga da Justiça), é formada acima de tudo por celebridades midiáticas, amorais, com graves desvios de caráter e mais preocupadas com o tempo que passam em evidência e os índices de popularidade do que com proteger os fracos e oprimidos. Inclusive, quando se metem a fazer isso, não raramente os resultados são desastrosos, gerando um trabalhão para os relações públicas e a equipe de marketing da Vought American para distorcer os fatos e criar narrativas favoráveis. Inclusive, narrativas são um ponto central na trama. Para permanecer no auge da popularidade, os super-heróis precisam emular valores socialmente em alta, valores vendáveis. Diversidade sexual está no trendig topics? Algum herói sai do armário. Feminismo é a bola da vez? Vemos deixar as heroínas mais tempo nos holofotes. Tudo se torna produto e artifício de venda. Entre distorções de fatos e fake news, o domínio dos uniformizados parece à prova de balas, críticas e da verdade.

Colocando de maneira mais direta, em The Boys os super-heróis estão a serviço do Capital e do Status Quo. Algo que o espectador pode extrapolar para a realidade e, a partir daí, desenvolver uma leitura mais crítica sobre o tsunami de super-heróis na indústria cultural e o consumo exacerbado desses produtos.

Contudo, é preciso ter em mente que a própria série é produzida e exibida por uma das maiores corporações da atualidade e com claros intuitos monopolistas, a Amazon: que vem por meio de concorrência desleal quebrando e falindo livrarias e editoras pelo mundo todo. Dessa maneira, a crítica plantada por The Boys pode e deve ser estendida à própria plataforma que exibe a série. A Amazon também é a Vought American, utilizando tanto a estética do super-herói quanto a própria crítica ao tentar monopolizar e lucrar de todas as formas possíveis com esse debate. Cabe ao espectador não se deixar passivo e se apropriar criticamente da discussão, reelaborando o conteúdo que consome.

Assista o trailer clicando aqui.

 

torto arado

Itamar Vieira Junior

Editora Todavia

Por Ana Roque

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Ilustração de Linoca Souza 

Um acidente transforma para sempre a vida das irmãs Bibiana e Belonísia: o silêncio. Através da distância e da aproximação, o livro Torto Arado desenha a relação entre as irmãs desde a infância até a vida adulta de forma franca e sem idealizações. As protagonistas, que também são narradoras, contam como é amadurecer tendo a Chapada Diamantina como cenário. O livro é uma viagem ao sertão baiano. O autor não nos informa a data e não precisa. O que acreditamos ser apenas passado se revela também como presente: o patriarcado, o coronelismo, as migrações, o trabalho, a exploração e o latifúndio.

A questão fundiária é o pano de fundo do romance. A família de Belonísia e Bibiana trabalha para os proprietários das terras, digo, as pessoas que possuem o documento de posse. O retrato desta classe - oportunista - surge em oposição à família das protagonistas que vive a terra em todos os seus ciclos e reitera a centralidade do solo como fonte de sustento.

Há também a terra em sua face imaterial, apresentando a conexão que existe, principalmente, entre a mulher e o solo. A metáfora é conhecida, porém singularmente reiterada através do universo feminino presente no romance conectado com o trabalho do campo. As mulheres em Torto Arado vivem diferentes papéis femininos no Brasil rural. Cada uma à sua maneira enfrentam a seca, o Sol, o tempo, o trabalho árduo, os patrões e os homens. Aqui as mulheres não são juízas, advogadas ou médicas. O romance nos recorda que as heroínas também são parteiras, professoras primárias, agricultoras e donas de casa.

Aos professores do ensino público, há um capítulo inteiro sobre o ponto de vista de uma aluna e sua perspectiva da escola que atinge precisamente quem ensina. A escola, vista pela comunidade como potencial mudança para as novas gerações, é revelada aos olhos de uma criança como uma instituição distante e desconexa. Inevitavelmente, nos faz pensar o que a escola pode oferecer aos alunos, o que é a escola do campo e como podemos repensar a educação contemplando as demandas e particularidades desse ambiente.

Apesar de apontar relações trabalhistas antigas e complexas, o livro transcende a denúncia e revela novas perspectivas e possibilidades de contestação. Nos lembra quão viva é ainda a questão fundiária e a necessidade de migrarmos nosso olhar para as demandas além dos núcleos urbanos. O romance nos convida, perdão… o romance nos convoca a refletir sobre o campo como um novo epicentro quando falamos sobre feminismo, religião, raça, educação e política.

Quem já visitou a chapada com a devida atenção corre o risco de reconhecer alguém em algum lugar ou palavra, mas Itamar Vieira Junior nos leva além do que já sabemos sobre o sertão. O Jarê, uma das vertentes do candomblé na Chapada Diamantina, traz ritmo ao romance nos apresentando sua visão extranatural do tempo, da terra e da família. Ao longo da leitura, é ele quem dita o compasso.

Além de uma história muito bem contada, Torto Arado é também uma nova experiência narrativa. Os períodos são fluídos como uma música e para quem gosta de observar a engenharia que articula as histórias, a narração é original e singular. Aliás, a última parte do romance guarda uma surpresa narrativa. Se eu falar mais estraga. Meu livro está com tantas marcas que não sou capaz de contar. Ganhei de um amigo que havia ganhado de presente. Quando chegou a mim, emprestei para outras três pessoas. Por aí ele foi e espero que ainda vá...

Um adendo à leitura que acredito completar a experiência é conhecer um pouco do trabalho etnográfico de Itamar Vieira Junior na cidade de Lençóis. Comumente mencionado em entrevistas, Itamar pesquisou a territorialidade entre trabalhadores quilombolas, experiência que, segundo ele, ajudou a construir o romance tanto em sua forma como em conteúdo.

Para não dizer que não falei da capa, a edição da Todavia é inspirada na famosa fotografia de Giovanni Marrozzini em que duas mulheres negras de mãos dadas empunham facões. Porém, na brilhante releitura da ilustradora Linoca Souza as mulheres seguram espadas de Ogum. Na capa já iniciamos a viagem ao sertão, às mulheres e ao Jarê.

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Ana Roque é historiadora e atua como professora do ensino médio na Chapada Diamantina.