Estamira

Brasil, 121 minutos, 2004 Direção e Roteiro: Marcos Prado

 

Por Luís Vieira

 

Cartaz de Divulgação do Filme

Imagino que o leitordeste texto espera uma descrição sucinta, objetiva e uma ou outra reflexão sobre o documentário Estamira. Pois então, sobre o que é Estamira?

Sobre tudo. Sobre a realidade.

Não ajudei muito, né?

Vou restringir. Estamira é um documentário sobre arte, consumo e descarte inconsequente e marginalização das diferenças.

Atendo-me a uma sinopse: o documentário nos apresenta Estamira, uma senhora sexagenária que, para sobreviver, trabalha no aterro do Jardim Gramacho - o maior da América Latina até 2012, quando foi fechado, no Rio de Janeiro. Anarrativa do diretor Marcos Prado acompanha Estamira durante o trabalho, nos momentos de folga em seu barraco, registra o que ela tem a dizer, percorre sua sofrida biografia e ouve os parentes mais próximos. Também parece necessário dizer que Estamira foi clinicamente diagnosticada como esquizofrênica. Por isso, acompanhar a realidade apresentada pela protagonista pode ser tão desafiador quanto instigante para o espectador.

Dito isso, Estamira é um filme sobre arte e magia.

 

Estamira é vista em meio uma chuva no aterro. Apósdeclarar ser feiticeira,ela grita e ergue o braço, e imediatamente em seguida ouvimos um trovão. Para alguns ocultistas, magia é a arte das coincidências e dassincronicidades. Outra imagemrecorrente vê magos e xamãs como detentores de um elo privilegiado com a natureza. Para todos os efeitos, a senhora de frágil constituição física demonstrou seu poder.

 

Além disso, Estamira manipula e se expressa freneticamentepela linguagem oral e seus símbolos, condensando em seu discurso míticoreligioso (ela se identifica como uma espécie de profeta)o mundo ao seu redor. Uma mitologia viva,ela fala sobre: religião, consumo, ciência,educação, humanidade, saúde, numa predicação incisiva, crítica e repleta de conceitos autorais. Por exemplo, para Estamira, pessoas do sexo feminino são formato homens par e pessoas do sexo masculino são formatohomens ímpar. Com alguma ponderação, podemos inferir algum lastropara a metáfora conceitual da personagem: mulheres par (XX)/homens ímpar (XY).Esse exercício de recepção e tradução do que é definido como insano, esforço que exige participação ativa de quem vê, talvez seja uma das maiores qualidades do filme. Quem assiste, incorpora, modifica e enriquece a mensagem.

 

Portanto, o que a medicina chama de discurso patológico, de início pode parecer completamente impenetrável em sua falta de coesão e dissociação com a realidade. Em alguns momentosmais, em outros menos.Mas se o espectador se abre e permite a aproximação de sua representação do mundo às ideias de Estamira, logo surgemassociações revelando uma arca infindável de conhecimentos, criatividade e lirismo. Essa literatura oral, desenvolvida pela protagonista, remete a um tempo em que arte e magia eram indissociáveis, com a arte domando e criando umsentido para o mundo e paraa realidade caóticos, arredios e muitas vezes hostis. Porém falamos aqui de umapoesia socialmente marginalizada de uma autora marginalizada.

 

Por isso, Estamira também é um filme sobre o que é jogado fora e ignorado.

 

O aterro não é apenas o local de rejeição e abandono de bens materiais em quantidade proporcional à produção e consumo massivos docapitalismo. É igualmente o lugar de despojo de seres humanos proscritospor esse mesmo modelo social. Se existeum fetiche da mercadoria, onde consumidores ignoram as condições de produção, Estamira nos apresenta o outro lado dessa moeda: a alienação e o descaso em relação ao descarte. O aterro é território estrangeiro, onde coisas, animais e seres humanos são socialmente invisíveis, apesar dos seus mais de um milhão de metros quadrados amontoados de objetos e seres vivos. É igualmente ignorado todo um entendimento e compreensão de Estamira sobre esse mundo que fingimos não ser o mesmo que o nosso, não obstante seu evidente impactosocioambientalestar cada vez mais próximo de nós. Parece mais cômodo simplesmente rotular como insanidade o ato de dar relevância ao que preferimos não ver, ao que jogamos fora inconsequentemente.

Como os indígenas em relação às matas e às florestas, Estamira detém um rico e singular entendimento, ainda que subestimado, sobre esse ambiente de exílio e esquecimento. Como ela bem diz, um depósito de restos e descuidos. Onde vemos um amontoado homogêneo de lixo, ela enxerga uma série de particularidades e aspectos do funcionamento do mundo. Mas para os valores da sociedade de consumo, lixo não merece reflexão e sim desprezo.

 

Por isso, Estamira é um filme sobre o encobrimento das diferenças.

 

Para a filha Carolina, Estamira se perdeu em seus delírios ao desistir de Deus. Para Hernani, o filho mais velho, a mãe pode até mesmo estar possuída por demônios e precisa de internação o quanto antes. Ambos concordam que um tratamento é necessário, mas divergem em relação à internação compulsória. Os três parecem ter uma convivência constante, mas o diálogo é limitado.Estamira rechaça veementemente religiões. Quanto a isso é enfática e por vezes agressiva. Deixa bem claro que nada tem contra Jesus, mas não gosta nem de pastores, nem de padres ou de qualquer um pregando sobre Deus. Esse ponto é o limite para seus filhos. As conversas sempre travam por aí e os ouvidos se fecham para o discurso da mãe, sem maior predisposição para entendê-lo em seus próprios termos. Ela se torna uma pária falando para ouvidos que não escutam. Ironicamente, como diziam de João Batista:uma voz que clama no deserto.

 

Curiosamente, o que os filhos não conseguem adentrar, a produção acadêmica brasileira acolheu como objeto de pesquisa. O nome de Estamira é conhecido por bancos de teses de universidades por todo país. Há uma concentração maior, como se poderia imaginar, nos departamentos de Psicologia. Contudo, trabalhos em Literatura, Linguística, Comunicação, Artes Cênicas, História e outras áreas do conhecimento demonstramque Estamira sobrevive para além de um caso clínico e que seu discurso e trajetória de vida também merecem maior atenção.

 

Enfim, poderia elencar mais tópicos que dialogam com o filme, mas acredito que outros espectadores tenham direito de usufruir do privilégio dessa interação que o documentário instiga. Então, volto a afirmar que Estamira é um filme sobre tudo e sobre a realidade na medida em que o espectador se proponha a procurar e decifrar. Mas, veja bem, um filme sobre tudo e sobre a realidadesob perspectivas e leituras incomuns ao senso comum. Através dos olhos que enxergam a partir do que é jogado fora e excluído. Ou seja, de um lugar onde corriqueiramente as vistas adestradas pela estética da propaganda não alcança. Em um ponto do processo de circulação, consumo e descarte de produtos e pessoas, posterior ao que meros consumidores delimitam como fim. Estamira ultrapassa esse limite e retira esse véu que cobre uma outra realidade, afinal, é o que feiticeiras fazem, certo? Nos ajuda a reconhecer como parte integrante do nosso modo de vida aquilo que em um primeiro momento absolutamente alienígena. Um documentário absolutamente necessário, pois caso não tivesse sido produzido, toda essa riqueza teria sido enterrada com Estamira, falecida em 2011, aos 70 anos.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=hZA3SNRtlDQ

 

rafaela em queda

 

CYRO, Leão. São Paulo: Editora Patuá, 2019, 192 págs.

Por Cyro Leão

Prepare-se para uma sequência de acontecimentos que serão desvendados a cada página, junto com a imaginação extravagante da protagonista e com as desventuras de seus personagens!

 

O coração do livro traz as narrativas de Rafaela, que vêm à tona após seu trágico e assombroso fim, e que revelarão uma autora de mente delirante em busca desordenada e febril por sentido e respostas.

 

Seus questionamentos se manifestam em tramas surpreendentes, como a do homem com incrível habilidade para enxergar cores, ou como a do curioso caso do funcionário que descobre seu nome batizando uma rua.

 

Paira em tudo um ambiente que sufoca, com personagens à caça de certa substância que conforte, de uma saída que não encontram, girando em falso em torno de perguntas rudimentares e irrespondíveis.

Quem somos nós? Quem é você?

 

Talvez possamos classificá-lo como um thriller existencial.

 

racismo estrutural

Almeida, Silvio, Editora Pólen: 2019, 256 págs.

 

Por Umberto Ribeiro

Se engana quem imagina que este livro trata apenas de elucidar o conceito contido no título. E,ainda mais, quem acredita ser esse assunto de interesse exclusivo para pessoas negras. Na condição de “branco periférico” (uma identidade racial descortinada por Silvio Almeida sobre a qual ele nos alerta: toda a branquitude brasileira participaria em maior ou menor grau), depois dessa leitura,asseguro que há nela mais do que um potencial espelho para o reconhecimento de nosso lugar no mundo. Há, nesse livro, um convite à reflexão sobre como as sociedades contemporâneas usam dos racismos para se reproduzir subjetiva e objetivamente. Trata-se, portanto, de uma teoria social crítica geral e global, a partir de um conceito complexo de racismo articulado pelo autor comas dimensões da ideologia, da política, do direito e da economia dominantes no sistema mundial.

Reconhecida a ênfase negra do livro, sua teoria tem validade ainda para entender o racismo sobre indígenas, judeus, ciganos e outras minorias raciais, evocados em analogias e menções por todo o livro. Enraizado na tradição intelectual afro-atlântica, esse modelo interpretativo abrange mesmo a interseccionalidade proposta por Angela Davis entre raça, classe e gênero, com especial foco no feminismo negro. Surpreenderá quem ler “Racismo estrutural”como nele está situada Marielle Franco e sua crítica à guerra ao tráfico presente na política de segurança pública do Rio de Janeiro–à qual Almeida conecta a necropolítica pensada por Achille Mbembe. Ou com o esse livro explicita a relação perversa entre o funcionamento normal do sistema tributário brasileiro e uma maior tributação sobre as mulheres negras.Por isso, e não só por integrar uma coleção feminista coordenada por Djamila Ribeiro, esse livro é um rico diálogo e um poderoso manifesto das pautas históricas dos movimentos negros de todo o continente.

Desde as suas primeiras páginas, notamos ter em mãos uma obra de divulgação ímpar, por sua lucidez e concisão penetrantes e pelo desafio instigante de compreender e ajuizar a complexidade da realidade social abordada pelas lentes oferecidas. Sequer a teoria do Estado de Marx – a quem Almeida se filia também na compreensão da noção de crise – escapa à sua crítica. Uma obra que, por essas virtudes,deve integrar o cânone da questão racial na produção nacional das ciências sociais, mas cuja estatura deve localizá-la na seção dedicada ao pensamento político brasileiro em qualquer boa biblioteca.

Esse intelectual parte do pressuposto de que os conceitos de raça e racismo são sempre relacionais e sociais – e nunca naturais e biológicos. Após uma breve história do conceito de raça e da diferença entre preconceito, discriminação e racismo, ele desdobra os três conceitos de racismo cuja interação e análise serão o eixo dessa obra: o individualista, o institucional e o estrutural.

Segundo o autor,o racismo individualista seria a forma mais corrente, reducionista e limitada de compreender o fenômeno do racismo, porque o tomaria como uma mera questão de consciência ou comportamento anormal, patológico que poderia ser resolvido apenas com tratamento médico, informação ou uma refutação filosófica da existência de raças.Nesse âmbito conceitual, esse cientista social desmonta clichês, revelando o racismo entranhado em termos usados à direita e à esquerda, tais como “racismo reverso”, “meritocracia”, ou “identitarismo” e “representatividade racial” – esta última, em parte, também remédio ao racismo institucional como ele defende.

Os racismos institucional e estrutural, como expostos no livro, estão além da ação individual, embora dependam dela quando coletivamente assumida.Assim, são da ordem social, podem ser inconscientes e tendem a naturalizar a violência, a exclusão de espaços de poder e de prestígio,a desigualdade social e a exploração econômica de minorias raciais promovidas ou conservadas por grupos racialmente dominantes. Há uma linha tênue entre esses dois conceitos considerados críticos e complementares que parece tratar da diferença do âmbito político para o econômico. Mas ambos os tipos de racismo – influenciados pelo conceito de “poder” de Foucault –estão no e além do Estado e do Mercado: capilarizam-se pela totalidade das relações sociais.Em uma leitura mais sutil, a incisão operada pelo autor incide sobre outro lugar – a ser buscado pela aposta generosa que o professor Silvio Almeida faz na inteligência de quem o lê.Pessoalmente, radico essa distinção conceitual fina entre a possibilidade decisória do grupo racialmente dominante de estabelecer quais as normas e condutas válidas para privilegiar o seu grupo (oque identifico com o racismo institucional) e a normalização, a automatização inconsciente desse modo de socialização que tende a repor uma noção de raça sempre em constante transformação (o que identifico com o racismo estrutural).

A saída apontada pelo autor para romper essa fabricação social das raças e do racismo passa por efetivar um projeto internacional que inclua políticas públicas afirmativas com o protagonismo do Estado e o engajamento de toda a sociedade. Em um tempo no qual o feitiço do individualismo lança um véu sobre os laços sociais, em um tempo no qual a visão corrente é a de que “essa coisa de sociedade não existe: só há homens e mulheres, indivíduos e famílias”, em um tempo no qual impera a gestão neoliberal da crise sistêmica e vigora a irresponsabilização do Estado, a indiferença da sociedade e a apatia dos indivíduos; não se engane. Esse livro é, acima de tudo,um chamado à emancipação social pela luta antirracista.

© 2020 por Coopernexus. Webdesign Matheus Meira, Bruno Andreoli e Livia Cucatto.