“Gente da Antiga” e o hype do vinil

 

Por Danilo de Souza

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Os Oito Batutas, conjunto de Pixinguinha (primeiro à direita) formado em 1919. Do Acervo José Ramos Tinhorão/IMS.

Duas coisas muito importantes podem escapar ao ouvinte de hoje que não conhece música em outro formato além do digital: que o samba é um gênero bem mais diverso do que as formas mais historicamente praticadas pelo mercado fonográfico, e que a relação com os produtos desse mercado já passou por transformações bastante profundas.

Alguns entusiastas da música podem até nutrir uma nostalgia de tempos que não viveram com seus toca-discos de visual retrô, crentes de que há algo de mais real no som que escutam através dessa tecnologia de reprodução; outros, é verdade, construíram uma memória musical à base dos bolachões, e talvez apenas a experiência de ouvir música em formato analógico lhes traga à tona afetos. Mas não sejamos assim tão essencialistas. É fato que serviços de streaming e as caixinhas e fones de ouvido podem cauterizar nossos ouvidos com a baixa qualidade de áudio, mas não se corrigem tais distorções com um LP tocado em uma dessas vitrolas de maleta mais baratas.

Ouvir o formato digital de um álbum como Gente da Antiga (Odeon, 1968), por exemplo, mostra como o empobrecimento da experiência de escuta musical está além do que supõe a interesseira promoção de fetiches pelo suporte analógico e sua busca pela qualidade de som autêntica. No streaming, esse álbum é apenas uma série de arquivos agrupados em lista, sem lado A nem B, com indicação dos artistas com direito à participação nos parcos lucros da reprodução – os finados Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Baiana –, do ano da edição disponível e uma miniatura da capa do disco. 

Quem já colecionou ao menos CDs conhece um pouco da experiência de folhear o encarte para ter detalhes mais precisos da ficha técnica, acompanhar as letras das canções e seu respectivo projeto gráfico enquanto as escuta. No caso do vinil de “Gente Antiga”, o encarte traz a fruição estética e histórica, pois em seu verso há, também, um texto de apoio que faz as vezes de resenha da composição e gravação do álbum, pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho. Aliás, a transcrição desse texto pode ser acessada no blog Baú do Samba, de Marcelo Oliveira.

Hermínio insiste que Gente da Antiga pretendia recriar o clima das festas da Penha, bairro da zona norte carioca onde Donga teria gravado um samba pela primeira vez, a canção “Pelo telefone” (1916). Assim, trata-se de um álbum espontâneo, repleto de improviso sobre formas convencionais como choro e outras que remetem ao samba de partido-alto e de terreiro. Seu aspecto tradicional não impede a inventividade das linhas de saxofone e flauta tramadas pelo maestro Pixinguinha, cujo cuidado se revela nas melodias em contraponto, isto é, melodias que são feitas simultânea e complementarmente, mas não em uníssono, como duas vozes que dialogam sem roubar o turno de fala uma da outra.

As canções bem-humoradas e de temática prosaica mais geral, como “Cabide de Mulambo” e “Batuque na Cozinha” (a última conta com releitura de Martinho da Vila), talvez sejam as mais atemporais e, portanto, palatáveis a qualquer ouvido. Afinal, as toadas sobre a vida cotidiana e suas desventuras, seus causos, seus amores e suas dores vêm de tempos imemoriais. Há também os choros instrumentais, gênero de composições em que Pixinguinha mais se sobressaiu, e que frequentemente servem de trilha sonora para as “novelas de época”.

No entanto, o lado A do disco pode ser mais desafiador aos não iniciados. Embora comece com o chorinho “Os oito batutas”, alusão a um dos conjuntos de Pixinguinha formado em 1919, as faixas seguintes apresentam várias referências afro-brasileiras na canção e na percussão, inclusive com um momento de saudação às linhas de candomblé de Angola, Nagô e Ijexá na abertura de “Quê quê rê quê quê”. Conhecer essas matrizes não é pré-requisito para a apreciação do álbum, mas certamente a enriquece. E, de alguma forma, um pouco desse conhecimento está disponível no excelente encarte preparado por Hermínio.

Se Pixinguinha, Clementina e João já eram Gente da Antiga em 1968, esse álbum é hoje um verdadeiro monumento à memória musical brasileira. Poder ouvi-lo, independentemente de o suporte ser analógico ou digital, é um privilégio e um trabalho ao mesmo tempo. Não é música apenas para entreter, mas para conhecer e se conectar com a história viva de nossa sociedade e suas tensões mais essenciais, como o racismo. Afinal, muitos aspectos da pluralidade do samba, sobretudo os mais marcados por matrizes culturais afro-brasileiras, foram preteridos pela emergente indústria fonográfica brasileira e pela classe artística vinda de estratos mais aburguesados; e foram, também, recriminados pelo clima de moralização do samba vigente desde sua chegada ao asfalto no Rio e potencializado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda varguista, que incentivava letras sobre o valor do trabalho, o amor à pátria, a alegria do povo brasileiro e outros valores burgueses da época mobilizados em torno de um projeto político nacionalista. Para ajudar o ouvinte interessado, a página do IMS dedicada à vida e obra de Pixinguinha e o já indicado Baú do Samba podem ser boas leituras de apoio.

Recomendo, por fim, a consulta ao Dossiê das matrizes do samba no Rio de Janeiro do Centro Cultural Cartola, financiado pelo Iphan. Uma excelente maneira de compreender melhor e progressivamente nossa história musical, da qual Gente da Antiga é, como disse, um monumento.