E foi com esses versos que iniciei o ano de 2020

Por Bruna Catarino

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro

Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.”

- Belchior

 

E foi com esses versos que iniciei o ano de 2020. Imagino, inclusive, que eu não tenha sido a única. A triste verdade é que o que mais fiz nesse ano foi morrer sempre um pouquinho mais.

Logo no início do isolamento cultivei uma esperança que foi se diluindo à medida que os churrascos na Zona Sul se multiplicavam. Primeiramente disseram que esta professora estava de férias, então resolvi quarentenar: ler, descansar, cozinhar e me manter saudável com minha filhota. Não durou muito o descanso “fake”, porque com o negacionismo popular e todo desserviço público prestado pelo governo não deixam qualquer pessoa sã descansar de verdade.

Quando as aulas voltaram a rotina deixou de caber nas 24h diárias, o tempo voava e a gente sempre perdia um pedacinho com cada recado que chegava, às vezes parecendo um Ctrl+CCtrl+V do dia anterior: “...não fará as atividades hoje pois o avô/a avó faleceu”. Tudo isso somado aos problemas que herdamos do mundo anterior à pandemia “...meus irmão pretos mortos nos jornais”, o genocídio das nossas raízes indígenas e a destruição agropop.

O coração e a cabeça vão ficando cada vez mais em mil pedacinhos. Querendo acolher o aluno, querendo resistir à intensificação dessa precarização do trabalho docente, querendo fazer o nosso melhor, afinal se vamos fazer que façamos de verdade. As querências se multiplicam no querer dar conta como mãe solo: de cuidar da casa, de cuidar da filha, de auxiliar a filha nas tarefas remotas e de não largar o trabalho porque este faz parte da equação de cuidar da filha, pelo menos para mim. As horas da criança na TV se multiplicam. Uma aula ou outra ela aparece pra chamar atenção e chama mesmo, afinal ela é muito mais interessante que eu.

Mas as surpresas desagradáveis sempre chegam. O pai que atrasa a pensão, que paga com base no salário-mínimo, é o mesmo que pede o CPF da criança porque precisa dele para o auxílio, já que declarou a criança como dependente no imposto de renda. Enquanto isso a sobrecarga é tão grande que a gente tem que optar por trabalhar ou cozinhar, duas necessidades que não cabem num mesmo dia. A casa? Os brinquedos traçam rotas, criam trilhas e fazem parte da decoração.

Falta de organização? Acredito eu que sim. Falta de organização mental, porque temporal é mesmo meio impossível. Os pais das escolas particulares, a maioria assumindo o seu papel de cliente e querendo escolher cada um o seu produto, adequado à sua realidade e a gente enxergando a impossibilidade de um pacto coletivo em um sistema em que cultivamos o egoísmo e a competitividade.

Conforme o tempo passa os recados de óbitos se transformam em recados de crianças com depressão e eu com a minha tendo crises em casa e isolada da minha preciosa rede de apoio continuo buscando resistir. Uma amiga me indica um grupo terapêutico para mães durante a pandemia, com encontros pelo Zoom, e a gente tenta, sem sucesso, pois o tempo só nos permite acompanhar um encontro.

Passamos então para os florais, mas o que melhora mesmo a minha pequena foi o retorno da avó que tinha ido se cuidar no Nordeste. Um retorno tão desejado, mas que faz a gente ampliar os cuidados em um tempo em que o restante das pessoas está afrouxando eles, mesmo o nosso bairro, Jardim São Luís, já tendo ficado em terceiro no ranking de óbitos. A gente nunca sabe se eles pensam que já passou ou se apenas não se importam mesmo. A vida se tornou tão banal. A gente continua isolada, sempre torcendo pelo adiamento da reabertura das escolas, até o momento da chegada da vacina. Por mais que ficar em casa signifique trabalho extra, renda reduzida e desgaste físico e emocional intensificados.

Parece que estamos numa realidade paralela, porque as notícias que do mundo externo, sejam nas mídias oficiais, sejam nos status e redes sociais, apresentam pessoas viajando e se divertindo. Às vezes eu me pergunto se estamos em uma farsa dos loucos anos 20, com as pessoas tentando viver intensamente depois de uma tragédia. Todavia, eu ainda sigo no durante, vivendo a tragédia pandêmica, tentando cuidar de mim, da minha filha, da minha mãe, da minha família e dos meus alunos. Descobrindo antes de terminar a última versão desse relato, depois daquele óbito que dentre todos era o que eu mais queria que não acontecesse, que a perversidade de tempo fluido não pausa pra nossa dor. Os amigos? Sei que me acompanham nessa bolha de desespero e esperança. Acho que a nossa afinidade vem do querer cuidar do outro e não só de nós.

 

 

 

 

Bruna Catarino é professora pesquisadora formada em História pela FFLCH/USP e pós-graduada em docência no Ensino Superior pelo IFSP, dedica-se a área de educação inclusiva. Tem como grande amor e incentivo uma criança tão linda quanto peralta de 6 anos, Hinata, e é legado de uma nordestina incrível, Dona Zuma.

 

da entrega completa à frustração completa

Por Fernanda S.

Sou uma mulher de classe média, branca e carteira assinada, minhas reflexões e relatos apontam privilégios que outras mulheres em condições sociais diferentes não experimentam, ainda assim, denunciam as marcas de uma sociedade caracterizada por desigualdades.Sou professora e mãe de uma criança maravilhosa que completou três anos de idade durante a pandemia. Sou mãe solo, quando começou o isolamento, fiquei algum tempo sozinha com minha filha. Minha profissão me garante, além da questão financeira, a realização “de um tempo só meu”, de completa autonomia, em que a mãe e dona de casa saem de cena e me entrego ao que me move profundamente: pesquisar e lecionar.

Minha rotina estava bem organizada: apenas duas tardes e três noites de trabalho, o que me garante bastante tempo com a minha filha e períodos de qualidade para preparar minhas aulas combinado ao momento “sagrado” em que a porta da sala de aula se fecha - um espaço exclusivo meu e dos alunos. Com a pandemia isso foi arrancado. Misturar vida pública e privada é perigoso e exaustivo. Não há mais a entrega completa à minha filha ou ao trabalho, e sim uma frustração completa em tentar dar conta de tudo e falhar.

A primeira e ingênua reflexão foi: “vou ajeitar muitas tintas e massinhas para a Laura brincar e explicar que alguns momentos a mamãe irá trabalhar ali em casa mesmo, ela é fofa e super inteligente, vai ser ok”. Não foi ok, foi o oposto de ok. Minha filha, obviamente, exigia minha atenção, não entendia porque eu ficava na frente do computador tanto tempo, ao invés de brincar com ela. Eu perdia a paciência, mais do que gostaria ou deveria, em um esforço vão e estúpido de fazer uma criança, que iria completar três anos, entender que ela deveria respeitar meu tempo de trabalho.

Comecei a ficar mais com ela e me dedicar ao trabalho durante as sonecas da minha filha e as madrugadas, voltei a dormir quase nada, revivendo os primeiros meses da maternidade em que Laura não dormia.Laura começou a passar mais tempo em frente às telas, ela “regrediu”, parou de se alimentar sozinha e imitava bebê. Quanto a mim: frustrada por sentir-me uma péssima mãe. Mas a frustração não era só essa, também comecei a sentir-me péssima professora. Havia criado meu estilo em sala todo baseado no afeto e na “presença real”, denunciando os absurdos de uma educação EaD, mas fui rendida pelas circunstâncias.

Vi-me trabalhando muito mais, porém consumida pela certeza de que os alunos não estavam aprendendo. Preocupada se eles possuíam condições materiais e emocionais para aquilo tudo (quando nem eu mesma possuía). Por sorte, a instituição em que trabalho garantiu as condições materiais aos alunos durante o ensino remoto, já as questões emocionais vinham à tona, tanto as dos alunos quantos as minhas: o vazio completo de falar com uma tela, mesmo com câmeras e microfones ligados, a ausência da tensão peculiar de uma sala de aula, aquele feedback imediato feito pelos olhares e gestos dos alunos, a empolgação, a boa ansiedade antes de entrar na sala, o suor cheio de mérito típico do fim de uma aula com reflexões, debates e risadas. Agora, no EaD, a sensação de não fazer mais nada direito me consumia.

Na realização de uma aula síncrona, uma “live”, explicava o conteúdo aos meus alunos, enquanto a Laura estava sentadinha no sofá, ficou assim por alguns minutos, até que pulou em mim, agarrou a minha cabeça e gritava “mamãe” e ria muito, puxando meu cabelo e cantando. Eu segurava o celular na tentativa de explicar o conteúdo, enquanto caminhava com a Laura pela casa pendurada na minha cabeça, fiz isso por um longo tempo. Pedi desculpas aos alunos e encerrei. Fui dar banho nela e comecei a chorar desesperadamente, coisa que assustou a Laura, até então ela nunca havia me visto chorar, pelo menos, não daquele jeito. Senti-me péssima, envergonhada e humilhada, não há consciência feminista que dê jeito naquele sentimento horroroso de se sentir uma merda como mãe e profissional.

 

Coloquei a Laura para dormir, tomei meu banho e fui checar o celular. Havia mensagens das alunas mulheres, algo esperado, afinal elas sabem na pele o que passei. Curiosamente me emocionei profundamente com duas mensagens de dois rapazes com seus vinte e poucos anos, Raul e João, palavras generosas e empáticas me elogiando enquanto mãe e professora, palavras inimagináveis aos homens - historicamente cegos aos seus privilégios. Assim uma pontinha de alegria e esperança me tomaram aquela noite, pensei que, ao menos, um tímido reconhecimento do trabalho “invisível” das mulheres tem sido notado e todos os esforços do movimento feminista na sua mais ampla gama de lutas, incluindo à árdua tarefa de conscientização dos homens, esteja dando frutos e abrindo caminho para que um dia, nenhuma mulher se sinta um lixo enquanto mãe e profissional, que exista todas as condições sociais e materiais para que isso aconteça e nos garanta a tão sonhada e necessária igualdade. Por enquanto, tento internalizar que não está fácil, mas é temporário.

Não vejo a hora de voltar para o presencial. É terrível ouvir de figuras políticas desonestas que os professores não querem “voltar a trabalhar” (estamos trabalhando muito mais!). O que mais quero: voltar para a sala de aula presencial e reorganizar meus tempos e espaços de professora e mãe, mas apenas quando tiver a certeza que minha filha e meus alunos não correm nenhum risco.

Fernanda S.

O anonimato, em períodos sombrios como o que vivemos, é perigoso e, até mesmo, covarde. Por isso entendo a dinâmica da revista em publicar nomes e fotos de quem escreve (além de proteger intelectualmente a produção de quem colabora). Mas no meu caso, como em tantos outros, enfrento questões pessoais relacionadas ao pai biológico da minha filha, o anonimato aqui significa proteção a mim e a ela.

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