Aprendizagem sobre África também

no ensino remoto!

 

Por David dos Santos

O noticiário recente tem ressaltado que o ensino remoto estreitou a relação entre famílias, conteúdo escolar e docentes. Essa aproximação, por enquanto, gera debates sobre a dificuldade de pais e mães, alunos e professores conseguirem transplantar ao ensino remoto a relação que mantinham em sala de aula (SAMPAIO, 2020). Outro ponto que toma espaço na imprensa, principalmente em São Paulo e no Distrito Federal é a retomada oportunista da discussão sobre a regulamentação do ensino domiciliar (homescholling) (REDAÇÃO, 2020 e DUTRA, 2020). Essa modalidade de ensino tem como patrocinador majoritário, segundo Santos (2019), o público de ideologia conservadora.

Esses são os mesmos atores que atuam em outra frente, a da escola sem partido, e que com frequência tentam sabotar e minar, direta ou indiretamente (SILVA, 2013), pautas como o ensino da história e cultura africana. Assim, faz-se necessária a reflexão sobre os riscos imediatos da atuação e influência dessas pessoas na dinâmica e conteúdo das aulas remotas.    

 

Logo que a pandemia da covid-19 chegou ao Brasil, entre fevereiro e março de 2020, houve o “fechamento” de diversos setores da economia e da rotina social do país. As escolas, de todos os níveis de ensino, estiveram entre os primeiros lugares a terem seus portões fechados e a recomendarem que seus usuais frequentadores, alunos e funcionários, ficassem em isolamento social.

As redes de educação pública do país apresentaram e efetivaram propostas distintas de atuação durante esse período. Algumas optaram pela transmissão de aulas utilizando a TV estatal (com destaque inicial para o Maranhão e Amazonas), outras realizaram parceria com a gigante estadunidense de tecnologia Google (notadamente o município de São Paulo), outras anunciaram a oferta de internet móvel aos seus alunos (como a rede estadual paulista) e algumas mesclaram essas a diferentes ações. De uma forma geral, todas foram comumente denominadas de ensino remoto.

Em nenhuma dessas ações, ao menos formalmente, o professor foi dispensando enquanto ator que faz parte do processo de ensino-aprendizagem. Estes, inclusive, embarcaram em uma corrida para se adaptarem ao manuseio dos mais variados recursos tecnológicos e a moldarem as práticas pedagógicas que estavam habituados, a essa nova rotina.

 

2 – Resistências ao ensino de África, conjuntura política e os riscos de retrocesso durante o ensino remoto

 

É lugar comum a quem já estudou qualquer coisa sobre a implementação da Lei 10.639 deparar-se com os mais diversos tipos de resistência para o ensino de África. Práticas que vão desde os cursos de licenciatura, como apontado por Azevedo (2019), até as escolas básicas, como apontado por Freitas (2018), seja por conta de docentes que se recusam a tratar do assunto ou o sabotam, de alunos e seus familiares ou até mesmo de dirigentes educacionais.

Nos últimos anos, em especial após as eleições de 2018 que possibilitaram a distribuição de altos cargos da República a inimigos declarados do ensino de África (ALVES, 2018), vivenciamos o recrudescimento de posições contrárias a conquistas relacionadas a princípios básicos dos Direitos Humanos como a educação laica e de qualidade.

Além disso, o movimento escola sem partido provocou algazarra nos últimos anos ao propor a censura do conteúdo abordado em sala de aula, o monitoramento de aulas e absoluto controle sobre o processo de ensino-aprendizagem e práticas pedagógicas dos nossos docentes. A proeminência da família sobre o Estado e a sociedade, no processo educacional das crianças, é ponta de lança entre seus defensores e propagadores¹.

Eis que durante o período de ensino remoto, motivado pela traquinagem do destino que nos trouxe uma pandemia, aumentaram significativamente as possibilidades de monitoramento das aulas, muitas vezes gravadas pelas próprias redes de ensino, a participação full time de qualquer pessoa que poderia ser considerada, em tempos normais, “estranha” a sala de aula e, por fim, o controle da atividade docente,  do conteúdo abordado e metodologia didática utilizada. Talvez, a materialização de parte fundamental dos sonhos e das ambições dos militantes do movimento escola sem partido. 

Felizmente, até o momento, poucas são as queixas públicas de docentes sobre embaraços, perturbações ou inibições, explícitas ou implícitas, a qualquer etapa do trabalho que deve ser exercido. Fundamentalmente, não veio a público casos de docentes que se viram obrigados a deixar de explicar mitologia iorubá, o que é um terreiro ou adinkras por conta de alguma forma de atuação das forças reacionárias. No entanto, no futuro teremos que realizar profundo balanço, entre os próprios docentes, sobre o quão tranquilo estiveram no exercício de suas funções e liberdades durante esse período. Há, é claro, o risco de problemas estarem ocorrendo, em escala considerável, sem que ainda tenhamos tomado conhecimento. 

No momento, nos resta reafirmar nossa práxis, nos auxiliarmos quando preciso e termos a convicção de que a educação é naturalmente terreno em disputa, seja presencialmente ou remotamente, e que aprender sobre história e cultura africana é um direito de nossas crianças.

 

Conclusão

 

A implementação do ensino de história e cultura africana ocorreu concomitante às resistências e obstáculos impostos a ela. Esses obstáculos, sempre jorrando como seiva quando o tronco do racismo crônico e institucional é fustigado, já presentes no cotidiano das unidades escolares, agora podem se enveredar pelo caminho do que está sendo chamado de ensino remoto.

Familiares de alunos, dirigentes educacionais e até mesmo professores, promotores e incentivadores natos da educação de qualidade, infelizmente e paradoxalmente, muitas vezes estão entre os colaboradores do atraso no que se refere à promoção e garantia do ensino de África nas escolas Brasil afora.

As aulas remotas, realizadas com o auxílio de celulares, tablets, computadores e afins, possibilitam o monitoramento, em “tempo real”, das aulas ministradas pelos professores de qualquer canto do país. Esta situação pode trazer receios aos professores já habituados com os embates enfrentados rotineiramente para garantir os direitos de aprendizagem de seus alunos.

Soma-se a isso a conjuntura política do país, com a águia do conservadorismo exibindo suas garras afiadas e ameaçando arrefecer nossos ânimos. No entanto, é justamente todo esse contexto que deve motivar a ousadia e desdém para com aqueles que pensam que podem deter a inevitável marcha da superação de nossas mazelas históricas.

 ¹O ordenamento jurídico brasileiro equilibra e corresponsabiliza a educação das crianças entre o Estado a família e a sociedade (BRASIL, 1988).

Referências bibliográficas

 

ALVES, C. Contra religião afro, diversidade sexual e feminismo: eis a nova ministra dos Direitos Humanos. Carta Maior. 07/12/2018. Disponível em:  https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Contra-religiao-afro-diversidade-sexual-e-feminismo-eis-a-nova-ministra-dos-Direitos-Humanos/5/42698 Acesso em: 05/10/2020.

AZEVEDO, K.V.F Neopentecostalismo, Raça e Ensino de História da África: Disputas de narrativas no ensino básico do Rio de Janeiro Rio de Janeiro, 2019. 135f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de História) - Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

BRASIL.  Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

DUTRA, F. Comissão de Educação aprova projeto para regularizar ensino domiciliar no DF. Metrópoles. Distrito Federal 28/09/2020  Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/comissao-de-educacao-aprova-projeto-para-regularizar-ensino-domiciliar-no-df Acesso em 06/10/2020 Acesso em: 06/10/2020.

David dos Santos, professor das redes Municipal e Estadual de São Paulo,

Mestre em Educação pela UNIFESP e licenciado em História.

Relações étnico-raciais no brasil: o problema do negro, um problema de todas, todos, todes

 

Por Alex Eleotério

Tema historicamente caro ao entendimento do modo como o Brasil tem se desenvolvido e lidado com questões concernentes às sociabilidades entre os distintos indivíduos, a temática sobre as relações étnico-raciais e, por conseguinte, sobre a questão compreendida inicialmente como “problema do negro”, tem apresentado novas facetas e incorporado um número cada vez maior de indivíduos em seus debates e arenas de discussão.

Ao longo da história, tanto no âmbito brasileiro como no mundial, a temática étnico-racial tem sido objeto de contundentes debates, disponibilizando-nos um rico arcabouço teórico-prático. Essa realidade nos

Ilustração por Antonio Junião para reportagem

publicada no canal Ponte

possibilita, a negros, brancos e outros grupos étnicos, a construção de diferentes argumentos. Ora, é desse profícuo debate, cotidianamente explícito no âmbito acadêmico, nas redes sociais e de modo não menos efetivo nas manifestações sociais antirracistas em todo o mundo, que vemos emergir questões teóricas, políticas e práticas que têm levado e inserido no debate pessoas até então “cegas” às desigualdades sociopolíticas e econômico-culturais. Nesse sentido, essa assimetria social, que tende a recair negativamente de modo mais intenso sobre os indivíduos negros/as/es, e que há tempos vem sendo denunciada pelos movimentos sociais negros, feministas, LGBTQIAP+, e também por distintos agentes sociais inseridos no âmbito acadêmico, têm tomado espaços sociais até então cerrados a esses debates, a exemplo dos almoços de domingo em família, espaços de trabalho, escolas, espaços de lazer, entre outros.

Em nossa época contemporânea, a implementação de políticas de ação afirmativa, voltadas à efetividade da inclusão de estudantes negros nos elitizados bancos universitários, no início dos anos dois mil, mostrou-se como um momento oportuno para que as discussões sobre as desigualdades raciais, o racismo e as violências psíquicas vivenciadas pelos grupos étnico-raciais negros se vissem pautadas em rodas de conversas, para além da arena acadêmica e militante. Deste modo, verifica-se que a inclusão da questão racial na agenda de debates públicos e, por conseguinte, de sua inclusão como diálogo necessário na vida cotidiana, fez com que sujeitos até então indiferentes a essa discussão passassem a pensá-la, e mesmo a se posicionar nesse debate.

Podemos compreender como principais questões suscitadas nesse momento de implementação das políticas de ação afirmativa nas universidades públicas, a indagação sobre quem são os negros no Brasil, o que por sua vez nos leva a outro questionamento: quem seriam de fato os beneficiários dessa política?

Passados quase 20 anos desses primeiros questionamentos, a maior inclusão de estudantes negros aos campi universitários e também, mesmo que de modo desproporcional, a outros espaços elitizados na vida social, nos fez ver que a questão sobre a identidade negra, bem como o perfil dos sujeitos aptos às políticas de discriminação positiva, há também a necessidade de se questionar o modo como gênero, sexualidade e classe intersecionam-se, objetivando a efetividade dessas políticas.

A vertiginosa expansão das redes sociais, o retorno dos protestos de rua e o significativo aumento de textos acadêmicos questionadores de epistemologias até então hegemônicas têm causado fortes tensionamentos no modo como vemos e vivemos nossas respectivas realidades sociais.

Indagados cotidianamente por questões que tangem as relações étnico-raciais, o problema do negro é hoje, como vislumbrados por teóricos críticos da questão racial no Brasil e também por militantes dos movimentos negros ao logo da história brasileira, um problema de todas, todos, todes.

Alexsandro Eleotério Pereira de Souza

Homem negro, doutor em Ciências Sociais, professor de sociologia da UNESPAR, apreciador de rap, jazz & samba, engajado na luta contra os racismos e demais opressões sociais.

Entre a idealização e a criminalização póstumas de mulheres negras: os silêncios de Breonna e Juliana

 

Por Fernanda Sousa

“Mas e se não era a hora dela e por causa de um vacilo a hora dela já foi?”, diz Juliana, protagonista do filme Temporada, de André Novais (2018), interpretada por Grace Passô, em uma conversa com uma prima sobre a perda aparentemente recente da mãe e a morte de uma conhecida de sua prima por causa do alcoolismo, que se torna uma breve reflexão sobre o sentido da morte. Com traços visíveis de cansaço e certo desânimo, Juliana inicia a conversa dizendo: “É, prima, perder a mãe não é mole, não”.

No filme, Juliana é uma mulher negra adulta, casada e recém-convocada em um concurso público para trabalhar como agente de combate a endemias em Contagem, Minas Gerais, cidade para onde se muda sem o marido, que ficara em Itaúna/MG, ajeitando as coisas, segundo ela, para depois se mudar também. Em um emprego que paga mal, mas lhe garante estabilidade, acompanhamos a rotina, as dificuldades, as descobertas, as conversas de Juliana, que lida com a espera de um marido que nunca chega nem retorna suas ligações, em um relacionamento que virou uma “bosta” após um aborto espontâneo em um acidente de carro; que revela ter medo de escorpião e de altura em seus passos iniciais na nova função; que visita rapidamente um pai que parece distante, solitário e arredio; que tem um breve encontro afetivo-sexual com um rapaz que conhece numa festa, entre outros acontecimentos ligados ao seu dia-a-dia na nova cidade.

Juliana, interpretada por Grace Passô, no filme Temporada. Foto: Divulgação.

O que me chama atenção, no entanto, são os suspiros, pausas, silêncios, gestos, olhares e as falas aparentemente lacunares e evasivas de Juliana ao longo do filme, com muitos “sei lá”, “não sei”. Sem flashbacks de sua vida pregressa, sem reviravoltas, sem informações sobre seus pais, sem longos discursos sobre sua condição de trabalho, sem uma cena marcada por um conflito dramático explícito contra algo ou alguém, sem detalhes sobre seu casamento em crise, a sensação de monotonia que o filme pode despertar revela, na verdade, uma dramaticidade que se encontra na própria existência de Juliana, em seus próprios termos e sentidos, em seus silêncios e fragmentos de discurso. Em vez de escavar sentimentos e experiências íntimas da personagem, uma mulher negra, oferecendo-as ao espectador por meio de diálogos em que ela falaria abertamente sobre o que a afeta, há um gesto de recuo e de preservação de um espaço íntimo e subjetivo no caso de Juliana, um espaço historicamente recusado às mulheres negras. Seja por não conseguir ou não estar habituada a falar, pois, como desabafa com outro colega de trabalho, “É que eu nunca fui de ter amigo”, seja por não querer falar de questões particulares que, como ela diz nessa mesma conversa, ainda está “processando”, Juliana reserva a si mesma o direito de falar e de não falar de sua vida.

Um exemplo disso é uma conversa sua com Russão, colega de trabalho, em que ele a interroga sobre como ela está dizendo “Tu não fala muito de ocê, suas coisas…”, ao que ela responde “Ah… Eu sou assim mesmo”. Em seguida, ele pergunta se o marido dela chegou, obtendo como resposta, diante de um visível desconforto de Juliana: “Não sei do meu marido, não”. Diante da insistência de Russão, que reage com um “Como assim?”, Juliana muda de assunto e pergunta sobre o ônibus que estão esperando. Juliana decide o que permite que o outro saiba sobre ela na medida em que respeita sua própria necessidade de tempo e espaço para processar as mudanças na sua vida, incluindo o abandono do marido. É assim que isso se reflete, por exemplo, em mudanças físicas, como a retirada do alisamento químico e a afirmação do seu cabelo crespo, que se refletem também em mudanças no comportamento, passando a falar mais e, especialmente, a encontrar - ou buscar - sentidos na estrada, na travessia, ao dirigir um carro que não é dela sozinha e rindo como quem procura também assumir as rédeas da própria vida, mesmo sem saber o seu destino.

Quem assume as rédeas, no entanto, quando essa mulher negra é assassinada? Quem preserva seu direito à intimidade, à privacidade, ao silêncio? Feliz por ter comprado um carro novo em janeiro de 2020, um objeto que ela amava, Breonna Taylor, uma mulher negra de 26 anos, profissional da saúde, foi assassinada pela polícia em Louisville, no estado de Kentucky, nos Estados Unidos, no dia 14 de março, em seu próprio apartamento, quando assistia, minutos antes da chegada dos policiais, um filme com seu namorado, Kenneth Walker. Pouco tempo teve Breonna para desfrutar e dirigir o carro, como buscava cada vez mais conduzir a própria vida, após ter rompido um relacionamento conturbado com Jamarcus Glover, acusado e preso por tráfico várias vezes, a quem ela ajudou pagando a fiança em algumas ocasiões.

Breonna Taylor, em uma foto pessoal não datada. Fonte: Justice for Breonna.

A compra do carro, o relacionamento com Jamarcus Glover, seus planos e objetivos anotados em post-its no seu quarto, suas reflexões escritas em seu álbum de formatura, fotos pessoais, tuítes antigos, lembranças e informações de amigos e familiares sobre quem ela era, o que ela gostava, o que ela fazia, todos esses elementos de sua intimidade foram revelados e colocados sob escrutínio público nas páginas de jornais, revistas e reportagens de TV, seja para marcar a sua inocência e, portanto, a indignidade de sua morte, seja para atestar, aos olhos da polícia e da mídia conservadora, sua responsabilidade e agência sobre o que não está no controle dela nem de ninguém, sobretudo de pessoas negras: a morte. 

O jornal The New York Times, em uma longa reportagem sobre o caso, apresenta a seguinte afirmação: “Embora a Sra. Taylor não tivesse ficha criminal e nunca tenha sido alvo de um inquérito, os frequentes desentendimentos do Sr. Glover com a polícia a enredaram”. Detalhando sua ajuda ao ex-namorado, a matéria apresenta uma narrativa em que o único sentido possível para as ações de mulheres negras, como Breonna Taylor, é o crime ou a cumplicidade com o crime. Mesmo trazendo a público uma ligação telefônica realizada no início do ano - mais uma violação de sua intimidade - entre Jamarcus e Breonna, em que ela, cansada, desabafa “Quando você está por perto, eu me estresso mais. Porque eu fico preocupada com você, com a polícia” e, ao final, diz que o ama, o que lemos logo em seguida é a informação de que ele abriu uma conta em um banco, listou o endereço dela e fez transferências bancárias para ela. Sua intimidade é, assim, violada para incriminá-la e condená-la. Não importam os seus sentimentos: suas ações e falas só podem ser indícios de um crime, não de amor, muito menos de alguém que poderia estar presa a uma relação com caráter abusivo. Como seria possível considerar o amor - ou o abuso - quando há ilegibilidade da própria violência que a atingiu, afinal, como consta no relato policial sobre o dia do homicídio, não houve feridos?

Retomando as palavras de Juliana que abrem esse ensaio - “Mas e se não era a hora dela e por causa de um vacilo a hora dela já foi?” -, a hora das mulheres negras já foi e continua indo, em que se tenta, implícita ou explicitamente, transformar um crime em um “vacilo” de quem foi assassinada. E, quando essa “hora vai”, a sensação é de que os meios de comunicação podem se apropriar do nosso tempo, da nossa intimidade, dos nossos sentidos, das nossas dores, dos nossos sentimentos, dos nossos silêncios, das nossas fotos, seja por meio uma idealização e estetização póstumas, em que nos tornamos a capa deslumbrante de uma revista de moda, como Breonna Taylor na revista Vanity Fair, pois a comoção e o reconhecimento da vida parecem depender de não sermos uma Juliana, isto é, uma mulher negra comum, de uma vida e aparência ordinárias; seja por meio de uma tentativa de criminalização póstuma que rouba de Breonna, como escreve Ana Paula Alves Ribeiro sobre a personagem Juliana, seu cotidiano recomeço e “o encantamento ordinário da vida de pessoas comuns”.

Não à toa, uma declaração de amor pode ser a prova do seu envolvimento com o crime. Um amor não superado, a frustração, o estresse, o medo - somos roubadas das dimensões humanas e ordinárias da vida, transformadas em indícios de um crime, as mesmas dimensões que Juliana tenta preservar e, a partir delas, construir um sentido para si mesma. Breonna teve sua temporada interrompida. “A hora dela já foi” e, agora e como sempre, como toda morte matada de uma pessoa negra, a hora dela parece ser nossa, que precisamos dizer seu nome e lutar por justiça. Mas os silêncios de Breonna continuam sendo dela.

Breonna Taylor na capa da revista Vanity Fair de setembro de 2020. Fonte: Vanity Fair.

Referências

 

RIBEIRO, Ana Paula Alves. A beleza ordinária da vida (resenha). E-metropolis, v. 10, n. 38, set. 2009. Disponível em: http://emetropolis.net/system/artigos/arquivo_pdfs/000/000/300/original/emetropolis38_resenha.pdf?1573345605

 

THE HILL. Louisville police release Breonna Taylor incident report listing injuries as 'none'. Washington, 10 jul 2020. Disponível em: <https://thehill.com/homenews/state-watch/502131-louisville-police-release-breonna-taylor-incident-report-her-injuries>

 

THE NEW YORK TIMES. Breonna Taylor’s Life was Changing. Then the Police Came to Her Door. New York, 30 ago. 2020. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2020/08/30/us/breonna-taylor-police-killing.html?action=click&auth=login-google&module=Top%20Stories&pgtype=Homepage>

 

TEMPORADA. Direção de André Novais. Ficção, 113’. Brasil: Vitrine Filmes, 2018. Trailer disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=LGMZrH53UHo>.

Fernanda Sousa

Bacharela e Licenciada em Letras (USP) e doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP). É bolsista FAPESP, com o projeto de doutorado "'Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz': as ambivalências do negro drama nos diários de Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus", no qual desenvolve um trabalho comparativo entre Diário do Hospício e Diário Íntimo, de Lima Barreto, e Quarto de despejo e Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de Jesus, em diálogo com a canção "Negro drama", dos Racionais MCs, investigando relações possíveis entre literatura e música, diário e rap, narrativa e experiência, escravidão e liberdade.

Lo que está por venir: ¿cómo deshacer el racismo anti-negro en las comunidades latinas migrantes en Estados Unidos?

 

Por Lina Martínez Hernández

Estamos a 23 días de las elecciones presidenciales en Estados Unidos. Han pasado 212 días desde el asesinato de Breonna Taylor y 139 días desde el asesinato de George Floyd. Aquí en Filadelfia, donde vivo hace 11 años, el verano inició con el estallido de una rabia compartida que pudo más que el miedo al contagio por COVID. Miles de personas salieron a las calles en protesta por la violencia policial, por el racismo de Estado, por la impunidad que ya se sospechaba llegaría nuevamente para duplicar el dolor y el atropello sufrido por las familias que perdieron a sus seres queridos. Miles de personas, cubiertas con sus tapabocas y repartiendo jabón antibacterial por las calles, caminaron por el centro de la ciudad del “amor fraterno”, cargando con su propio dolor, con el impacto económico, político y social de la pandemia, con el aislamiento de meses y con la incapacidad de poder poner en palabras o contener en sus cuerpos el estado de un mundo que cada vez parece más una distopía apocalíptica.

Entre esas miles de personas también marcharon muchos que hacemos parte de las diferentes comunidades latinas en Filadelfia. En conversaciones posteriores con amistades que, como yo, migraron hace varios años desde Latinoamérica, surgió el tema del racismo anti-negro entre nuestras propias comunidades. Durante las diferentes protestas ocurridas en la ciudad y vistas en todo el país a través de medios de comunicación y redes sociales, veíamos aparecer comentarios que representan posturas familiares alrededor de las relaciones entre comunidades latinas y comunidades afroamericanas, pero también entre nuestras propias comunidades y personas afro-latinoamericanas. No era extraño encontrar comentarios en redes donde algunas personas expresaban su solidaridad por la comunidad afroamericana y compartían con ella el dolor de verse perseguidos por un cuerpo policial racista y por un sistema estructuralmente diseñado para oprimir a quien no encaje con el paradigma de la supremacía blanca. Tampoco era raro encontrar comentarios en el otro extremo del debate, donde la compasión resulta imposible para personas latinas no negras que habían experimentado violencia directamente de personas negras estadounidenses, algo que ocurre frecuentemente pero que no termina en las primeras páginas de los periódicos.

¿Cómo educar a nuestras comunidades para reconocer y deshacer el racismo anti-negro? Esta fue la pregunta con la que quedamos varios de nosotros de mi propio grupo de amigos luego del estallido de las manifestaciones. Para nosotros esta pregunta es vital porque muchos estamos dedicados al trabajo de organización política y movimientos comunitarios. Yo, por ejemplo, soy profesora de español y de estudios latinoamericanos en una universidad privada, mayoritariamente blanca y de mucho dinero, donde desarrollo programas de educación con comunidades latinas. Pero también trabajo como intérprete en la promoción de la justicia del lenguaje en múltiples espacios mixtos, interraciales y con comunidades latinas de la región. Mis amistades, por su parte, lideran organizaciones dedicadas a la lucha por los derechos de los migrantes latinos, abogan por las personas indocumentadas y trabajan en la redistribución de recursos a poblaciones históricamente oprimidas. Los comentarios que encontramos durante las marchas no eran nuevos; el racismo anti-negro en nuestras comunidades es algo que acompaña el trabajo diario de educación y movilización.

 

Si bien muchos de los reclamos vociferados durante las protestas apelan a la abolición total de un sistema de gobierno y económico inherentemente racista, considero que ese trabajo en la superestructura debe ir acompañado, y depende de, un trabajo en lo cotidiano, con nuestras relaciones cercanas, entre nuestras familias, con nuestras comunidades. ¿Cómo imaginar lo que viene después de la abolición si hemos crecido con el lenguaje, los discursos, las violencias que han dado forma a la distopía de nuestro presente? En lo que concierne al racismo anti-negro en las comunidades latinas migrantes en ciudades como Filadelfia, nuestro reto es doble: para poder desarmar prácticas racistas en estos contextos donde existimos como “extranjeros”, debemos también reconocer las prácticas racistas que traemos de nuestros países de origen.

Es común escucharle a personas latinas comentarios en contra de afro-latinoamericanos sin reconocer que se trata de formas de violencia racista; muchas veces se intentan invisibilizar discursos racistas disfrazándolos de humor o compitiendo por el lugar de la víctima. En el contexto estadounidense, estas prácticas se agudizan debido al afán de muchas personas latinas por asimilarse a las expectativas dictaminadas por la supremacía blanca. Viviendo como migrantes, poco a poco las comunidades latinas van aprendiendo que en Estados Unidos entre más cerca se esté de lo blanco, más aceptado será; en contraste, entre más cerca esté de lo negro, más violencia y rechazo experimentará. En ese afán por asimilarse, las prácticas discriminatorias con las que ya se venía empeoran. Otro fenómeno que responde directamente a las políticas identitarias y raciales de Estados Unidos es la manera en la que se administra el trabajo social y la movilización política alrededor de las comunidades de color y negras: si bien puede haber conciencia entre comunidades afro-americanas y latinas de las opresiones que ambos grupos sociales experimentan, debido al modelo económico que establece el sistema de organizaciones no gubernamentales y la dotación de “grants” o becas para el desarrollo de su trabajo, muchas veces vemos a estos dos grupos sociales compitiendo por recibir estos recursos. Este fenómeno revela que, aunque se creen espacios destinados para las comunidades de color históricamente oprimidas en este país, quien controla el dinero y los espacios de enunciación sigue siendo el mismo poder de la supremacía blanca.

De manera que enfrentamos el reto de desarmar no solo nuestros discursos racistas anti-negros en nuestras comunidades latinas, sino también el reto de construir nuestra autonomía por fuera de las expectativas y el control del poder blanco. Esa autonomía será posible por medio de la construcción de una solidaridad genuina entre los pueblos que han sido históricamente oprimidos. De allí que en el trabajo cotidiano se encuentre la clave para acercar a las comunidades latinas, afrolatinas y afroamericanas: reconociendo nuestra propia complicidad y responsabilidad en la perpetuación de prácticas racistas anti-negras y encontrándonos en lo que compartimos tanto en lo sufrido, como en el poder de nuestro trabajo colectivo para construir lo que está por venir.

Lina Martinez Hernández es profesora en el Departamento de Español de Haverford College. Reparte su tiempo entre la investigación académica sobre estudios queer y de raza en América Latina y el desarrollo de pedagogías comunitarias con las comunidades Latinx de Filadelfia en Pensilvania, Estados Unidos. También hace parte del Colectivo por la Justicia del Lenguaje en Philadelphia en donde trabaja como intérprete comunitaria. 

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