O importante é estar de máscara.

Por Luis Vieira

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- Meu Deus! Você está bem? Você viu o que aconteceu?

- Eu... não sei. Ele estava normal, esperando ali... e agora, O SANGUE DELE TÁ TODO EM CIMA DE MIM!

- Porra, cadê os funcionários da estação? A moça está surtando aqui!

- Caralho! A gente ouve falar disso o tempo todo... mas eu nunca tinha visto.

Enquanto isso, uma máscara descartável ensanguentada dançava no ar sob o arbítrio do vento cuspido pelo túnel. Mas ninguém deu atenção.

 Corta!

 

- Pedro?

- Isso. Boa noite.

- Boa noite. Rua Ernesto Nazaré?

- Aham. Fica perto da Pedroso de Moraes.

- Posso seguir o aplicativo?

- Tranquilo.

- Mas é Vila Madalena, né?

- Sim.

- Vi alguma coisa na internet que aconteceu uma baita confusão não lembro em qual estação da linha verde, ontem. Mas li por cima.

- Verdade? Não fiquei sabendo de nada.

(silêncio incômodo que acentua o abismo entre o tempo de lazer de um e a jornada de trabalho infindável do outro)

- Então, complicado essa pandemia, né?

- Pois é...

- Será que tem muito motorista ficando doente?

- Ah, tem uns que a gente ouve falar, né? Mas eu não peguei nada, tomo todo cuidado aqui.

- Imagino. Mas deve ser muita gente entrando e saindo do carro por dia.

- Isso é. Começo umas sete da manhã e vou até umas nove da noite. De fim de semana um pouco mais (são quase dez já, né?). Aí já viu, sempre acabo perdendo as contas de quantos passageiros eu pego. 

- Difícil é saber se todo esse povo tá se cuidando.

- Olha, graças a Deus nunca peguei ninguém sem máscara. A gente lê e ouve sobre esse pessoal que não quer usar, que fica bravo, sai brigando, querendo bater...

- Vixe, tá louco. O cara não contente em se colocar em risco ainda quer bancar o machão.

- Num é? É só colocar a máscara. Não vai arrancar pedaço, não.

- Pois é, o importante é tá de máscara. Pronto, só isso. Opa, é naquele bar da esquina ali, com aquela mesa grande e cheia do lado de fora, viu?

Corta!

“No que você está pensando?”       

 

“Opinião - Governo rediscute tirar de pobres, saúde e educação para dar a paupérrimos”

 

“The four COVID personality types

Believe in sciences

Doesn´t understand sciences

Denies sciences

Believe in magic”

 

“Pessoas que talvez você conheça”

 

“Animal morreu por não poder se alimentar, segundo a autópsia.

Pinguim é achado morto com máscara no estômago no litoral de São Paulo”

 

“PB: Delegado é preso após negar usar máscara e sacar arma para fazer ameaças”

 

“10 coisas que você não sabia sobre Ryan Reinolds”

 

“Que saco. Trem circulando com velocidade reduzida e com mais tempo de parada de novo. #metrôsp #linhaverde”.

 

“Logo mais tem vídeo novo no canal, galera!”

Corta!

- Não amassa o beque, porra! Mão de morsa do caralho.

- Foi mal, foi mal. Desculpa, Chico.

-Tu deve ter sido um perigo com essa mão na idade do banho demorado. Hahahahahahahaha.

- Cala a boca, Beto. Já pedi desculpa, ow!

- Eita, preula! Tá estressadão, mano?

- Tô! Tô sim! Cês num tem noção da merda que eu vi hoje de manhã indo pro trampo. Só esse beque pra dar uma aliviada nas ideia.

- O que que cê viu, Binho? Vai dizer que foi de novo um nóia cagando na mão.

- Se pá, o nóia jogou a merda na cara do Binho, que nem macaco, tá ligado? Por isso que ele tá com essa cara de cu, Hahahahahahahaha.

- Fica quieto, Beto. Puta merda, chato pra caramba.

- Esquece esse trouxa. Fala logo aí da parada que cê viu.

- Véi, fui pegar o metrô. Mesma hora de sempre, umas cinco e meia, antes da muvuca.

- Tava de máscara, Binho?

- Cê é louco? Lógico que tava. Sabe o Zé, que vai sempre tomar umas lá no Joça, no fim da tarde? Que trampava na portaria daquele predião perto do shopping? Ele pegou Corona. Ficou fodido, um mês na cama, com febre, cagando mole e respirando como se tivesse no bico do urubu. E agora, quando vai no Joça fica puto reclamando que o goró tem gosto de xarope de criança. Isso sem falar que ele foi mandado embora e num arranja trampo nenhum. Nem zoa de ficar sem máscara e pegar essa merda.

- Pelo gosto de mijo de mula que tem a breja do Joça, o Zé tá é no lucro.

- Pode crer, Beto. Mas Binho, o Zé num trampava de máscara e tudo mais?

- Acho que sim. Mas vai saber, né.

- Tá, tá. Mas e aí, e o metrô?

- Ah, sim. Então, fiz a baldeação na Klabin e tava indo pegar o trem pra Sumaré. Tava lá tranquilão esperando, tá ligado? Tinha eu e mais uns maluco numa ponta e lá na outra tava só uma mina e um doido sentado nos bancos. O trem foi chegando e, de repente, o cara do canto de lá levanta do banco, passa álcool em gel na mão, arruma a máscara e pula na porra da frente do trem! Te juro, quando a bagaça acertou ele, bem na cabeça, o coco do malucão explodiu que nem... sei lá, que nem uma melancia.

- Caceta, mano... serião?

- Tô falando, oxi! E espirrou um monte de sangue e teco de carne na mina. Ela surtou. Primeiro ficou paradona e depois começou a gritar.

- Mano de céu... que fita, véi!

- Mas pera aí, Binho. Orra, Chico você ouviu essa? O cara se matou de máscara! Puta que me pariu! O cuzão limpou a mão e pulou no trilho de máscara! Vai te fudê. hahahahahahahahahahahahaha.

- Tá rindo do quê, retardado? Queria ver se fosse na tua frente, se a cabeça do cara explodisse em você. Idiota!

- Pelo menos num pegou Corona. Hahahahahahaha. O importante é tá de máscara, tá ligado? Hahahahahahahahaha.

Corta!

 

- Querida, a Neide limpou o quarto dos fundos hoje?

- Falei para ela limpar. Mas ainda não fui lá olhar. Passei na galeria hoje à tarde. O quadro ainda não chegou, mas fiquei lá conversando com a Sandra. Chegou agora?

- Acabei de chegar. O quarto tem que estar pronto. O voo do João Carlos pousa amanhã às sete. Ele disse que ia fazer uma reserva no Maksoud, mas eu insisti para ele ficar aqui, né?

- Claro. Poxa, ele vai ficar só três dias aqui e só voltaria para o hotel para dormir. Não tem sentido mesmo. É aquele negócio da escritura do sítio de Itaipava que vocês vão resolver?

- Isso. Vamos deixar tudo pronto para vender para os franceses.

- Ah, que ótimo. Pergunta para eles como tá a situação da quarentena lá na França. As crianças estão doidas para passar o fim de ano em Paris.

- Acredito que já esteja mais organizado por lá. Acho que vamos conseguir ir sim. Não dá para parar a vida, né?

- Sim. A Neide estava falando comigo hoje mesmo. Coitada, se ela for ficar em casa com trezentos reais ela não fecha nem as contas do mês.

- No escritório (eu falei para você, né?), eu e o Paulo juntamos todo mundo em maio e dissemos: gente, é o seguinte, se for todo mundo ficar em casa não vai dar. Tem coisa que dá para resolver com home office, mas tem coisa que não dá, infelizmente. Vamos tomar todos os cuidados, não vai faltar álcool gel, vamos comprar as máscaras também e, se for o caso, podemos até tentar fechar transporte fretado se quem usa metrô e ônibus estiver muito inseguro. O que não dá é achar que o escritório vai ficar em stand by o resto do ano tendo dinheiro para pagar o salário de todo mundo mês após mês. Se for assim, teremos que dispensar vocês.

- Nossa, por falar em metrô, ouvi no rádio, indo para a galeria, que uma pessoa se jogou na frente do trem hoje, acredita?

- Deus do céu. Que horrível.

- Um horror. Parece que tinha perdido o emprego e ia ser despejado. Com a mãe com Covid internada, ainda por cima.

- Na certa o lugar em que ele trabalhava precisou dispensar. É um crime o que esse pessoal da quarentena quer fazer.

- Paiêêê!!!

- Aqui na sala filha.

- PAIÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!

- Que coisa desagradável ficar gritando assim. AQUI BEATRIZ.

- Pai, vou levar a Zira para passear um pouco na praça, tudo bem?

- Mas tem que ser rápido. Em meia hora a Neide vai servir o jantar.

- Tá bom, mãe. Vem Zira, vamo passear!

- Filha não esquece de levar o álcool gel, e quando voltar direto para o banho e coloque a roupa no cesto para a Neide colocar para lavar. E a máscara, hein? O mais importante é a máscara.

- Calma, querido. Ela é esperta, sabe o que fazer.

- Tem razão. Mas temos que ficar sempre atentos. Outro dia uma equipe de TV foi gravar uma entrevista comigo no escritório, sobre termos continuado trabalhando. Lá pelo meio da conversa minha máscara caiu. Acredita? É sempre um constrangimento e um problema quando cai a máscara assim em público.

Corta!

 

- Rapaz, mas o que foi que aconteceu com esse daqui?

- Parece que pulou na frente do trem.

- Minha nossa. Caixão aberto nem pensar, hein?

- Na verdade tanto faz. Ouvi dizer que o pobre coitado só tem uma mãe internada. E o ministério ainda não recomenda velórios. Então, caixão aberto ou fechado, não faz diferença.

- Vamos deixar o bonitão aqui para o cara novo dar uma olhada quando chegar? Para já acostumar com o tranco?

- Nem fala nesse daí.

- O que aconteceu?

- O sujeito me aparece aqui ontem, entra na sala pronto para começar a trabalhar e eu paro na frente dele e começo a encarar. Ele fica com aquela cara de paisagem e eu pergunto: não tá esquecendo de nada, não?

- Lá vem...

- A máscara. O imbecil simplesmente esqueceu de colocar a máscara.

- Não brinca.

- Dá para acreditar? O animal faz um curso, estuda, passa no concurso, toma posse e na primeira semana como auxiliar de necrópsia esquece de colocar a máscara. No IML e sem máscara. Isso sem falar que estamos no meio duma pandemia, e a besta me esquece do mais importante, da máscara.

- É de foder, né?

- De tirar do sério. Mas enfim... Já começou a cortar o infeliz aí?

- Cortei.

​Não, se amados

 

Por R. Novak

Rafaela Muro Cinza

Me sinto inibida pelo tempo.
Guardo em um lugar exótico e próximo, paisagens rascunhadas que só se realizam se nos desinibirmos.


Desinibir ocupa todo o processo que compartilhamos,
inclusive o gozo.
Gozo das palavras ditas e meio ditas, da desordem e suas tristezas melódicas.

Por compartilharmos futuros êxtases,
viajo nas metáforas e hipérboles frescas.
E não há medo do que possa emergir delas, já sabemos:
Trata-se da mais bela das fatalidades.

Rafaela Novak

Rafaela Novak

Estudante e cooperada da CooperNexus

Instagram @_dazarte

 

GUIA

Por Bruno Andreoli

Chuva

Vestido vermelho e saltos, sós, colorindo o cinza, equilibrados na guia. O resto era sombra.

"Não quero nunca mais te ver."

"O quê?"

"Não quero, não quero isso de não te ver nunca mais."

Aguardávamos Ubers; celulares nas mãos. Ar blasé:

"Também não. Mas a gente combina."

Chega o carro e entro como um protagonista de film noir. Acelera o chofer cortando às duas e meia da manhã.

"Não é que te amo, errado dizer isso. Só porque é errado. Mais um tempo, e eu diria." (Agora por mensagem).

"Entendi."

Fico enjoado de olhar para a tela naquele sacolejo e vai e vem de três pontinhos. Vão dois, três, quatro quarteirões e mais a ponte.

"Você, rapaz, não é nenhum mistério."