afetações musicais

por Danilo de Souza

Não sei como nunca me meti a fundo nessa história de ir atrás das tradições da nossa música. Só sei que agora não consigo mais largar de Pixinguinha, Elizeth, Joyce, Chico, ou de Zé Kéti.Conhecer um pouco dessas raízes exige de nós mais do que admirar algo a que somos estranhos. Isso passa por poder entender movimentos dos sons, dos versos, da expressão da história.

Claro, não se trata de dizer que música só faz sentido assim, como exercício intelectual. Ela também é uma lembrança ou indicação de alguém querido, uma trilha de festa feita a vários ouvidos, uma fossa para superar pelo gosto compartilhado. É descoberta que emerge das rádios em horário de pico, daquilo a que assistimos nas diversas telas, dos algoritmos das plataformas de streaming, dos shows de abertura, da voz e do violão entre comida e conversas. A experiência musical se insinua por toda a vida e não pede licença. Não nos deixam esquecer desse fato os vizinhos que cantam no chuveiro, estudam um instrumento ou criam clima para faxina e reuniões– geralmente em horários e de maneiras inconvenientes.

A descoberta intelectual da música é uma dessas experiências que podemos ter. Para mim, a disposição para esse exercício veio do ímpeto de conciliar interesses diversos: conhecer a canção popular brasileira e me tornar um ouvinte mais atento; aprender sobre a vida cultural brasileira do século XX; e ampliar meu repertório para o estudo de texto com alunos da educação básica em aulas de português. Busca por deslumbramento no trabalho, esforço neurótico para forjar coerência entre as atividades de que me ocupo, chame como quiser. De todo modo, não se trata de uma tarefa tão cerebral quanto alguns podem supor. Conhecer canções levando em conta as condições em que foram produzidas escancara a importância de se gostar daquilo que aprendemos – filosofia, no sentido mais primitivo da palavra. Sem se permitir essa relação afetiva, não dá para encarar uma tarefa a princípio tão despropositada.

Aliás, o estalo para me entregara essa tarefa veio de um cruzamento de vivências bastante improvável. Assistindo ao filme Gonzaga: de pai para filho(2012), numa tarde preguiçosa de domingo, “Asa Branca” revelou aos ouvidos do linguista coisas que o menino que aprendia a melodia icônica na flauta doce 20 anos antes não pôde perceber: o homem que levou ritmos do sertão para as rádios da capital do país – que, na década de 1940, era o Rio de Janeiro – eternizou em um verso desse hinoa síntese de algumas tensões importantes. O verso é “entonce eu disse ‘adeus, Rosinha […]”. A letra fria da canção não deixa notar a pronúncia empenhada por Luiz Gonzaga. Se, por um lado, a escolha lexical aponta para o falar sertanejo, o som vibrante da inicial da mulher amada, por outro lado, aponta para um português que não é nem nordestino nem carioca: é o português “bem-falado” das rádios de então (ou de entonce). O tributo de Caetano a essa canção, em 1971, traz o timbre que faltava ao “r” de Rosinha. Outros tributos ainda preferiram cantar a história do amor interrompido pela seca com outros sotaques, até mesmo passando a régua da norma padrão sobre a letra, como fez a dupla – pasme! – sertaneja Chitãozinho e Xororó.

Veja só a encruzilhada a que chegamos. Um simples verso explode e percorre quase 80 anos de música brasileira, mas cada eco é uma memória refratada dessa explosão. Nove sílabas poéticas que ensinam sobre falares desse país continental, atravessados pela cultura, pela sociedade e suas instituições. E não estamos diante de um fenômeno isolado: ouça Cartola, os vários intérpretes de Noel Rosa, Tião Carreiro – todos tramando as raízes do português que falam com a imagem que se faz de um português europeu, de referência para as rádios onde tentavam emplacar suas canções.

Muito me agrada a posição de entusiasta no assunto. Descubro um pouco a cada dia desses mundos tão distantes da minha experiência musical, ela própria muitas vezes distante de casa. São incursões por um território que, conforme frequento, vai ganhando feições familiares. Compartilho com amigos e alunos minhas descobertas, consigo apreender melhor os eventos que carregam esse legado cultural. Inclusive, descubro novos desejos, como entoar no banho os refrões que mais fixei e estar em rodas de samba. Mais uma espera para depois da pandemia. Enquanto isso, brindo os vizinhos com a cantoria; em tempo regulamentar, pelo bem da convivência.

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Danilo de Souza

Entusiasta errante. Admirador de dois Joaquins: Machado de Assis e Mattoso Câmara Jr. Cultivando mais projetos e fantasias do que o recomendado pela OMS. Professor.

 

pompeia bar

por Bruno Andreoli

Jazz Saxophone Player

Mariana: linda, passos de gata. Pediu meu cartão num evento, entre duas séries de músicas que toquei com um violão emprestado.

Foi no tempo em que eu comecei a tocar no Pompeia, região da Faria Lima. Conseguira estudar meia dúzia de standards e tocava-os intercalando outras coisas que enganavam bem.

Quem me arranjou o trabalho foi Giovanni. Bacana mas meio louco, meu amigo desde o fundamental. 

Foi na fila para a diretoria. Seu delito deixou o meu no chinelo. Depois de fumar um beque no banheiro da escola, aproveitou que estava com a faca e o queijo na mão e ateou fogo a tudo. 

Giovanni, após arranjar um emprego de caixa no bar, tendo deixado a faculdade, chamou-me quando soube que eu havia feito o mesmo. O dono era um cara de rolex e camisa com uma flor-de-lis:

"Caras, vocês precisam de ambição. Sempre falo isso ao Giovanni. Conselho do meu coach."

Meu amigo não ligava, não tinha ambição, e nem eu. Foi só Mariana que tentou mudar minha cabeça.

"Vem, tem algo para você na firma do meu pai. Você não vai querer ficar nessa para sempre."

O velho Pércio, homem do sax soprano e do chapéu de Nat King Cole, foi quem me aconselhou.

"Cuidado, rapaz. Não deixe este trabalho aqui. É nosso trampo, e até que bom, apesar do dono filho da puta."

 

A partir de então eu tinha dois trampos. O da firma, eu não sabia muito como desenvolver, mas parecia que eu estava começando a acertar os números nos buracos certos do sistema. 

Mariana de novo:

"Vamos morar juntos? Você podia alugar um apartamento."

"Como assim? Por que não você?"

"Você tem que prover."

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Lá estava eu num apartamento grande demais para minhas coisas e pequeno demais para minha noiva. Mas que seja. Foi ótimo porque foi lá que conheci Ju, a irmã.

"E aí, cara?"

"Quem é você?"

"A irmã. A filha pródiga."

"Certo"

A família terminando de almoçar e os dois fumantes num canto afastado.

"Você já deve saber qual é a minha. Não tenho paciência com essa classe média alta. Fugi para um buraco no Rio Pequeno."

"Fantástico."

Ela me olhava por debaixo do rímel e do alto de tênis Converse. Eu já estava apaixonado. 

Foi bem pouco depois que encontrei Giovanni no chão, no final da tarde, após ter brigado no bar.

"Que é isso, meu?"

"Esse filho da puta fica encrencando comigo só por alguns atrasos."

"Você brigou com o dono?"

"É."

"Legal."

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Era o começo de uma semana memorável. Na sexta, meu sogro, irreconhecível, estava prestes a me atacar por cima da mesa.

"Você só pode estar brincando. Não sabe que valor é esse?"

"Não."

"Não foi você que digitou?"

"Sim."

"Então como não sabe?"

"Não sei."

Eu havia trocado algo numa tabela e parecia que aquilo ia levar certamente a um prejuízo, talvez à bancarrota e certamente à minha demissão.

"Porque não levantou da merda da sua cadeira e perguntou, já que não sabia?"

"Não lembro de ter tido dúvida nenhuma."

Eu não tinha carro ainda, então tomei o ônibus e fui direto ao Pompeia. Surpresa boa, lá estava Ju.

"Minha irmã me contou que você trabalhava aqui."

"E não havia nenhum lugar melhor do que essa espelunca?"

"Até que tinha. Não sei."

"Veio só para me ver de novo?"

"Cara, você não sabe flertar."

Foi lindo.  

"Rapazinho, é a irmã errada.", lembrou Pércio assim que ela saiu.

"Como sabe?". 

"Ela explicou quando perguntou por você, ao chegar."

"Escute, e cadê o Giovanni, que não está no caixa?"

"Chegou doidão, levou um esporro e foi para casa. Quase brigaram de novo."

"Vixe."

Quando voltei para casa, Mariana não estava.

 

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No dia seguinte, minha noiva me cutucou.

"Ei, você vai chegar atrasado" disse, entre bocejos.

"É sábado."

"Você trabalha aos sábados. Esqueceu?"

"É o meu trabalho, não seu. Dane-se. Vou dormir."

"Vai dar uma de rebelde?"

Virei para o lado e puxei as cobertas para ficar mais confortável.

"Isso."

Mariana levantou-se e saiu para algum dos milhares de compromissos, mesmo sem ter emprego. Enrolei até meio-dia e liguei para Ju.

"Escute, vou deixar sua irmã."

"Faz sentido."

"Porque não me encontra no Pompeia de novo?"

"Você é um sem-noção. Mas beleza."

No bar, nada de Giovanni de novo. "Cadê", perguntei ao garçom amigo.

"Só foi ao banheiro."

Cinco, dez minutos. Fui atrás do cara. Já próximo do banheiro, encontrei com Giovanni saindo com ar vitorioso. Por trás dele, labaredas altas queimavam todas as portas dos reservados e os acabamentos brega de madeira que nada tinham a ver com jazz.