Sofia

Bruno Andreoli

Acordei levemente estranho, um pouco resfriado, mas até que bem. Um pingado quente resolve e, às 7h30, não sinto mais nada, sei como é que é. Naquele dia, ia ver a Sofia, de qualquer forma, e preferia acreditar que estava bem. Ia ser só no almoço, tinha marcado um dia antes. Tinha de pegar uma condução e talvez voltar levemente atrasado ao trabalho.
_Fica comigo?
_Então...
_Então o quê?
_É complicado...
Ela tinha olhos de gatinho que pediam alguma coisa a você, o tempo todo, sempre pedindo. Companhia, respostas, sei lá, talvez um pires com leite.
_Conheceu outro?
_Não, não é bem isso...
_Ahn.
_Sei lá, é complicado...

Arrisquei: acariciei seus cabelos. E ela:
_Ah, melhor não, deixa quieto. Nos falamos depois. Beijinho no rosto.Tomei o ônibus de volta e comecei a me sentir mal de novo. Cheguei ao trabalho e vomitei.
_Vá ao pronto socorro, meu velho.
O médico passou um remédio para a virose/gripe/falta de sorte. Não tinha grana nem para o remédio, nem para uma canja e quase nem mesmo para voltar para casa. "Você me mostrou um lado da vida que agora preciso digerir", ela dissera. Que raio de frase é
essa?
Pai do céu, preciso da minha cama. Estou zoado.
Recebi o salário naquela semana, mas entre aluguel e cartão, não sobrou nada. O pouco que sobrou, tinha de pagar o Joca. Dá para aguentar sem o remédio mais um pouco. Só sobrou chegar em casa e abrir o Instagram. Aquela linda criatura andando de bike no Villa-Lobos. Puta que o pariu.
Passaram-se mais três dias. Sofia manda mensagem:
"Queria te ver."
"Legal."
Viro para meu colega:
_Empresta o carro de novo, Joca?

_Não rola. Também vou sair.
_Que seja um programa a quatro!
Programa grana zero, coisa gratuita de Sesc. Mal estar. Seguimos para o boteco e exagerei no rabo de galo. Sofia comenta:
_Há um novo vírus por aí.
_Não sabia. (Já tinha o meu próprio dentro de mim).
_Minha nossa, como você consegue tomar isso?
_ Cynar com Velho Barreiro é arte, baby. É coisa para homens sensíveis e iluminados.
_Sei.
_E aí, vamos lá para casa agora?
_Não sei.
_Vamos lá, vai valer a pena.
_Ah... É complicado...
Ela mexia nos cabelos encaracolados e eu queria morrer. Levantei e tomei o ônibus. E há uma semana com a receita no bolso. Já não precisava do remédio.

A beleza de Maria

Livia Cucatto

A beleza de Maria

é a beleza de todo o dia

cabelo sujo

batom vencido

brinco escurecido

mãos ásperas

cheirando a creme barato

ela lava prato

estende a colcha

guarda o sapato

restam cinco minutos de seu dia

e ela os reserva

para ficar bonita

João se irrita

com a comida sem sal

Maria não ouve

se concentra no espelho

sua filha grita:

derrubei o suco

e Maria não ouve

chega na cozinha

chega bonita

o marido, o cachorro, a filha

a comida, o suco, o pano de pia

e a beleza de Maria...

só o espelho aprecia

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