Dicas culturais COONECTAR

Seleção de Rita Barbosa

A Coonectar valoriza toda iniciativa que busca democratizar o acesso à arte, especialmente nestes tempos incertos. Listamos, abaixo, três opções para quem gosta de música e cinema e busca, neste momento, ressignificação e alento.

“Ô de Casas”

 

Mônica Salmaso é um dos esteios da música brasileira e, desse modo, torna-se uma das grandes contribuidoras da música tupiniquim. Garantindo vídeos quase que diários, de qualidade e com cantores e instrumentistas maravilhosos, Mônica nos presenteia, nesse período de confinamento, com o que há de mais sensível na arte da música.

A série começou em 22 de março. Não são lives – tão comuns nesse período –, mas apresentações pré-gravadas transmitidas em suas redes sociais. Ela comenta que, originalmente, pensou no projeto ao vivo, mas devido a falhas técnicas que podem ocorrer, como atrasos na transmissão, optou por pedir vídeos com as músicas selecionadas aos músicos que a acompanham desde o início de sua carreira. Na sequência, ela entra com sua voz cativante e, em alguns casos, instrumentos de percussão, fazendo a junção das gravações e disponibilizando ao público um trabalho tocante.

Nomes como André Mehmari, Rolando Boldrin, Dori Caymmi, entre tantos outros, colorem nossos dias com letras lindas, muitas do querido Paulo César Pinheiro, parceiro de longa data da intérprete.

O conteúdo é tão leve que tem até vídeo dela explicando que aquele dia não tem vídeo porque deu erro na edição. Essa é a Mônica, com sua voz maravilhosa, sua caixinha de fósforos e sua suavidade vibrante.

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Fonte: Instagram oficial monicasalmasooficial. Mônica Salmaso e André Mehmari cantando Senhorinha, de Guinga e Paulo César Pinheiro

 

Sala São Paulo – OSESP

A Sala São Paulo, caracteristicamente ativa, não ficou parada mesmo tendo que manter as portas fechadas. As atividades presenciais estão suspensas até que haja segurança para receber a orquestra e todo o público. Mas a preocupação em levar boa música e acolher pessoas por meio da arte permanece. Sendo assim, a Osesp preparou algumas modalidades de apresentações para aproveitar de casa, das quais destacamos três:

 

1) Acervo Osesp: no canal do Youtube da Sala São Paulo são disponibilizadas gravações de concertos marcantes (http://salasaopaulo.art.br/paginadinamica.aspx?pagina=acervo-osesp). No mês de julho, por exemplo, você pode acompanhar o especial “Schumann/Mahler, com a regência da querida Marin Alsop.

 

2) Concerto Digital Osesp Personnalité: todos os domingos, às 19h, transmissões de temporadas passadas no canal do Youtube da Osesp.

(http://www.salasaopaulo.art.b/paginadinamica.aspx?pagina=digital-transmissoes).

 

3) #fiquememcasa com os músicos da Osesp: nas mídias sociais da Osesp (Instagram, Facebook, Twitter), ocasionalmente, os membros do coro e da orquestra compartilham performances diretamente de suas casas. São pílulas de boa música que alegram o dia.

Festival Varilux de Cinema Francês em Casa

 

Patrocinado pela embaixada da França no Brasil e pela Essilor/Varilux e realizado pela Bonfilm, essa opção permite o acesso a 50 grandes filmes das últimas edições do Festival. De maneira gratuita, os interessados poderão acessar o catálogo até 27/08/20, por meio de cadastro no aplicativo Looke. 

 

A seleção de filmes apresenta grande diversidade de gênero – comédias, dramas, animações, filmes históricos. Por quatro meses, você poderá encontrar, do conforto e segurança de casa, grandes atores e ver ou rever sucessos das edições passadas do Festival, que já acontece há mais de 10 anos. Um bom filme tem o potencial de transformar ideias e sentimentos!

Cultura crítica

Renato (Tião)

 
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Todo tipo de manifestação cultural e artística pode ou não ser engajada. É sempre uma opção do artista usar sua voz e alcance para se posicionar, instigar e conscientizar quem aprecia a sua arte. Em tempos de ascensão das camadas fascistas da sociedade e com a pandemia coroando a desgraça, nada mais importante no meio artístico do que assumir publicamente o lado que se defende.

   

Este espaço foi pensado como um meio de divulgação da arte engajada na luta da classe trabalhadora, na luta pelo bem-estar e igualdade social, e na defesa dos diversos grupos oprimidos ou excluídos, de alguma forma, pelas políticas públicas vigentes.

   

Nesta primeira edição, gostaria de falar sobre a música de protesto, que tive contato na infância, vendo meus pais eufóricos com a transmissão de uma apresentação do Chico Buarque na televisão. Lembro-me de ter aprendido a letra de Roda Viva mesmo sem entender seu significado: o mais marcante foi saber que aquele artista tão brilhante precisou sair do país por ter composto canções consideradas inapropriadas pelo governo da época.

    

A redemocratização permitiu ao público conhecer muitos compositores que usavam suas canções como forma de contestação à ordem vigente, o que para os estúdios garantia um bom retorno comercial. Não se ouvia músicas com esses temas e as pessoas começaram a comprar os discos. A Legião Urbana de Renato Russo é um grande exemplo disso, faixas como “Que país é este?” e “Índios” renderam bastante e provavelmente seriam censuradas na época da ditadura.

   

Outros artistas apropriaram-se do engajamento apenas para obter sucesso e retorno financeiro, produzindo canções com mensagens vazias e sentido político vago, bem na linha “contra isso que taí”, mas isso exatamente o quê? Não há nessas canções a materialização consciente da luta nem do que se é contra. Não há relato explícito ou irônico apontando acontecimentos contraditórios da conjuntura política, nem propostas de mudança, mesmo que utópicas. Versos como “a gente somos inútil” ou “cheiro de gasolina e óleo diesel” são alguns exemplos disso.

   

É fato que fora do grande aparato dos estudos fonográficos sempre houve música boa sendo feita, mas juntando a ausência dos espaços de apresentação proporcionados por órgãos públicos, à falta do dinheiro para divulgação em rádios ou em outras mídias, muitas dessas bandas desistiram do trabalho, romperam e seus integrantes seguiram com a vida.

 

Lembro de uma banda do inicio dos anos 90 chamada Aversão Brasileira, que logo após a eleição do Collor emplacou: O Rap do Fernandinho  [https://www.youtube.com/watch?v=xs74YW8aS4c], mas não chegou a gravar um segundo disco. Alguns dos músicos envolvidos naquele projeto integram hoje a banda Farufyno, que, embora tenha outra pegada, mais voltada para o samba e ritmos latinos, manteve a criatividade nas experiências sonoras e um pouco da critica social, como mostra a regravação da canção do compositor Oswaldo Nunes: Deixa meu cabelo em paz [https://www.youtube.com/watch?v=wkVmPesI-Uw], que abre o disco de 2001.

Em relação ao cenário atual, sugiro ouvir os trabalhos de duas bandas novas, bastante ativas na luta diária contra a política autoritária que chegou ao poder no Brasil.

 

Banda: Francisco El Hombre

Formada por músicos brasileiros e mexicanos, essa banda traz na bagagem a sonoridade de toda a América Latina, adquirida nas viagens de seus integrantes e em suas turnês, tocando em praças, ruas e, algumas vezes, em hostels em troca de hospedagem. O nome incomum é uma homenagem à Francisco Moscote Guerra, figura mítica do imaginário popular colombiano que, segundo a lenda, venceu o próprio diabo em um duelo musical. No romance Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez o descreve como um ancião de quase 200 anos de idade em franca atividade musical.

 

O primeiro disco da banda surpreende pela sonoridade inusitada da mescla entre instrumentos acústicos e elétricos, as intervenções da guitarra ácida de Andrei Kozyerff sugerem influências musicais que vão de Elza Soares a Capitain Beefheart.

Trazendo a participação da cantora Liniker e da banda Apanhador Só, o resultado sonoro também traz influências de outras bandas como Nação Zumbi. Alguns dos temas abordados nas letras do disco, em português e espanhol, mostram clara influência da banda Manu Negra.

A faixa “Bolso Nada” [https://www.youtube.com/watch?v=ncchVgkOO_A] pode ser considerada a primeira música de enfrentamento do atual presidente da república, já que foi composta em 2016, quando ele ainda era apenas deputado. Dá gosto cantar o refrão: “esse cara é escroto / muito escroto”.

 

Destaque também à faixa “Tá com dólar, Tá com Deus”, que satiriza a cultura de valorização da moeda em detrimento do ser humano, e à faixa “Triste Louca ou Má”, indicada ao Grammy Latino, escancara as consequências da submissão feminina em relação ao homem nos padrões da sociedade brasileira. 

 

O segundo e mais recente disco da banda incorpora uma sonoridade bem mais punk com timbres eletrônicos e elementos do rap na métrica das letras. Conta com a participação do músico Capilé e do DJ DBL. O disco foi descrito pela revista RollingStone como incendiário e combativo. O resultado sonoro desse álbum é novamente sensacional e surpreende de maneiras diferentes do anterior, seja pela instrumentação ou pela ousadia das vocalizações.

 

Curiosamente, todas as faixas do disco têm nome e codinome, com destaque para a faixa “Chama Adrenalina / Gasolina”, que abre o disco desfilando a versatilidade da obra em uma única peça. As faixas “Se hoje tá assim / Imagina o amanhã” e “Parafuso Solto / Ponto morto” também se destacam com críticas ao cotidiano opressor da modernidade. Além disso, a bela canção “O tempo é sua morada / Celebrar“ se destaca pelo lirismo melódico e por trazer um momento de alívio à agressividade dos arranjos musicais do restante da obra.

 

Integrantes:

Juliana Strassacapa (Voz e percussão)

Mateo Piracès-Ugarte (Voz e violão)

Sebastian Piracès-Ugarte (Voz, violão e percussão)

Rafael Gomes (Baixo e voz)

Andrei Martinez Kozyreff (Guitarra)

 

Discos:

Soltasbruxa (2016) https://www.youtube.com/watch?v=i5NLmtmLmag&t=1387s

Rasgacabeza (2019) https://www.youtube.com/watch?v=EJgGkfJw1wM

Faixas em destaque:

Bolso Nada (Participação Liniker) https://www.youtube.com/watch?v=Al_rFTTLe0M 

Tá com Dolar, Tá com Deus https://www.youtube.com/watch?v=Y6Bc2rZpwrU  

Triste Louca ou Má https://www.youtube.com/watch?v=lKmYTHgBNoE

Se hoje tá assim (Imagina amanhã) https://www.youtube.com/watch?v=SsJ--FIXuW0

O tempo é sua morada (Celebrar) https://www.youtube.com/watch?v=783qJgyQnno

Banda: Cabaré Dolores

Misto de banda e coletivo de expressão artística, todos os integrantes do grupo são também professores de ensino fundamental, médio e pré-vestibular da Grande São Paulo.

Ouvindo o disco disponível, no Spotfy, pode-se perceber que a mistura de rock e MPB tem influências que vão de Mutantes a Tim Maia, passando por Beatles, Pink Floyd, Secos e Molhados, Gilberto Gil e Premê.

Letras engajadas, incisivas e, algumas vezes sarcásticas, fazem do disco um excelente instrumento de luta. Sonoramente, a alternância de ritmos garante uma apreciação agradável e surpreendente do trabalho do grupo como um todo. A polirritmia da faixa título do disco (com clipe no Youtube) é um bom exemplo disso.

Destaque à faixa Manifestação que satiriza a lógica dos protestos com a camisa da CBF, para proteger o país do comunismo, e à faixa Sou Frida Blues, rechaçando a cultura machista que recobrou forças nos discursos de ambos os presidentes do Brasil pós-golpe de 2016.

 

Integrantes:

Cris Bastos (Voz e literatura)           

Lê Carvalhaes (Guitarra, voz, filosofia e sociologia)

Sarah Ross (Bateria e inglês)

André Renato (Flauta e língua portuguesa)

Hélio Moreti (Baixo e história)

Guilherme Gomes (Teclados e filosofia)

 

Disco:

Ninguém vai respirar (2018) https://open.spotify.com/album/6aw2jaSfCnoiE8iWj8aVwy

 

Faixas em destaque:

Manifestação https://www.youtube.com/watch?v=Xlm-BRKmd9s

Sem clima ninguém vai respirar https://www.youtube.com/watch?v=cF7WSK_wV24

 

O Rap do Fernandinho (Aversão brasileira) - Confira aqui a letra

 

Bolso Nada (Francisco El-Hombre) - Confira aqui a letra

Manifestação (Cabaré Dolores) - Confira aqui a letra