Entrevista de bruno de conti

Professor do Instituto de Economia da Unicamp

Por Marcelo Adolfi

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Entrevista realizada em 23/10/2020, por vídeo conferência

[Revista Coonectar] Olá espectadores do Canal Coonectar, meu nome é Marcelo Adolfi e hoje teremos a honra de conversar com o professor do Instituto de Economia da Unicamp, Bruno De Conti. Professor, em primeiro lugar, agradeço imensamente sua presença aqui no canal e, para que eu não cometa nenhum impropriedade e também para que eu não tome o tempo dos espectadores com apresentações entediantes, a gente pede que o senhor mesmo se apresente àqueles que nos assistem. Conte-nos um pouco da sua trajetória intelectual e acadêmica, linha de pesquisa e área de atuação.

 

[Bruno De Conti] Boa tarde, Marcelo, é um prazer estar aqui com vocês. Agradeço muito o convite e toda equipe da Revista Coonectar. Sou professor do Instituto de Economia, onde me formei e passei grande parte da minha vida. Fiz graduação, mestrado e doutorado lá. O doutorado tive a oportunidade de fazer co-tutela, fiz metade na Unicamp e outra metade na Universidade de Paris 13. Depois disso trabalhei um tempo no BNDES, por 2 anos, até defender minha tese e conseguir voltar na condição de professor. No BNDES tive uma experiência de pesquisa, respeitaram meu perfil e me colocaram numa área de pesquisa que foi um experiência bem distinta, com o PRONAF, programa de agricultura familiar. Aprendi muito com isso, tive que estudar, aprender. Tirando esse período, minha área principal de estudos é a economia internacional no geral. Desde a graduação eu estudo essa área, mas no mestrado e doutorado coloquei meu foco no sistema monetário internacional, a partir de um arcabouço que a gente no Instituto de Economia chama da hierarquia monetária. É estudado em outros lugares do mundo também, não necessariamente com o mesmo nome, mas que tenta olhar para as implicações do fato de termos um sistema monetário completamente hierarquizado. Podemos falar mais sobre isso durante a entrevista. Esse já é há algum tempo minha linha central de pesquisa. Mas claro, nesse meio do caminho fui agregando outros elementos à economia internacional, mais particularmente sobre o BRICS e mais particularmente ainda sobre a China. Na verdade, pra China é pouco, estudo há uns 3 anos, o que é muito pouco, mas eu considero como necessário se quisermos entender o cenário atual, o Brasil atual inclusive. Estou tentando aprender inclusive com colegas que estudam China há mais tempo do que eu. Esse é um pouco meu percurso.

 

[Revista Coonectar] O senhor é diretor também do Instituto Confúcio na Unicamp, certo?

 

[Bruno De Conti] Exatamente. O Instituto Confúcio é um Instituto que existe em diversos países do mundo, não sei o número exato, mas que tem como objetivo divulgar a língua chinesa, em primeiro lugar, e também divulgar a cultura chinesa. No Brasil são em torno de 15 institutos, um deles na Unicamp já há 5 anos e eu estou 4 anos a frente. Estudei mandarim por 2 anos e depois tive um filho, não consegui continuar. Mas, enfim, o Instituto continua oferecendo cursos de diversos níveis da língua chinesa e com atividades culturais. Esse ano, com a pandemia, elas foram prejudicadas, mas fazemos algumas atividades virtualmente. Pra além disso, que é o objetivo central do Instituto, existe também o propósito de estimular a colaboração acadêmica no sentido mais amplo, entre universidades chinesas e brasileiras. Então a gente faz um esforço pra colocar professores e grupos de pesquisa da Unicamp em contato com grupos análogos lá na China. Ontem mesmo organizamos um webinar com uma universidade chinesa na área de engenharia mecânica e elétrica. Não tem nada haver com meu campo, mas o estímulo junto com nosso departamento de relações internacionais é fomentar essa tentativa de descobrir sobre a China, afinal de contas é um mundo desconhecido pra nós, para maioria, pelo menos, de nós. As pessoas ainda falam muita besteira sobre a China, vocês todos sabem, inclusive nos mais altos escalões da nossa república, principalmente, aliás. Então conhecer a China é importante pra quebrar essa ignorância e pelos motivos econômicos que estava mencionando antes. Em paralelo ao Instituto Confúcio, eu coordeno na Unicamp o eixo de economia da rede de universidade do BRICS. A gente tem feito um conjunto de atividades bem interessantes, com o mesmo propósito em atividades conjuntas com os 5 países do BRICS. Participo também do grupo de estudos Brasil-China, que é ligado à diretoria de relações internacionais e voltado às pesquisas sobre a China e com parceiros chineses.

 

[Revista Coonectar] Vamos encaminhar nossa prosa nesse rumo, vamos tentar entender mais da China. Professor, é comum estabelecer a morte de Mao Tse Tung, em 1976, como um marco para o advento de uma nova China, embora isso não seja bem verdade, uma vez que foi o próprio Mao que desatou o processo de abertura diplomática da República Popular. Nesse sentido, quais seriam as balizas básicas e as etapas desse processo de reinserção da China no mundo, de crescimento e desenvolvimento que o senhor enxerga? Dos anos 70 pra cá, a gente pode identificar marcos, balizas, etapas? Conte um pouco pra gente. 

 

[Bruno De Conti] Pergunta excelente e você tem toda razão. As pessoas costumam estudar a China e o chamado milagre Chinês, esse boom chinês, a partir de 1978 e 1979, depois da morte do Mao com a ascensão de Deng Xiaoping e com o início mais real dessas reformas econômicas. O que é algo, no mínimo, superficial. Particularmente os economistas liberais do mundo tentam mostrar que foi a partir do momento que a China começou a se tornar uma economia de mercado que veio o milagre, o crescimento. E isso não é em absoluto verdade. Então é muito importante que a gente resgate, como você está sugerindo, o período do Mao. E tem uma discussão grande na literatura, vou aqui trazer apenas alguns dos elementos que a gente tem que entender de conquistas do período maoísta que depois são parte da compreensão do que é a China hoje. Um deles diz respeito às próprias condições de vida da população em termos materiais, digamos assim, mas também educacionais. Para dizer de forma muito simples, saúde e educação. Os liberais também gostam de usar o termo capital humano, eu não gosto muito desse termo, por isso prefiro me referir de outra maneira. Mas se a gente olhar só pra saúde e educação, a expectativa de vida no final da década de 40 era algo como 37, menos de 40 anos. Depois, na década de 70, já tinha subido para em torno de 70 anos. Apesar disso, foram anos de muita crise, inúmeros problemas que não preciso aqui destacar, já que são conhecidos do período maoísta. O resultado geral foi de um aumento das condições gerais de saúde da população, e a expectativa de vida é um indicador que revela isso. Do ponto de vista educacional, a própria UNICEF, que não pode ser julgada como uma instituição enviesada, que não teria nenhum motivo pra elogiar a China, reconhece que o processo de educação em massa, alfabetização em massa, foi a maior da história da humanidade. Quando comparamos o fim dos anos 40 e o fim dos 70, a taxa de analfabetismo na China cai tremendamente. Isso deixa bases. Para além disso, tem as questões relacionadas à indústria. Se perguntarmos pra qualquer um, até para um leigo, o que explica o fenômeno chinês é a indústria. E ele não começa, longe disso, em 78/79; ao contrário, começa no período maoísta também, uma indústria de base que depois teve que ser aprimorada. Tem um conjunto de elementos que vem do período maoísta. Você citou a reaproximação com os EUA dentro de um contexto geopolítico também da guerra fria, de uma tentativa americana de reforçar a fissura entre URSS e China. A abertura com o Xiaoping em 78/79 se baseia, é claro, nisso tudo. E, ainda, para concluir, um Estado forte. Instituições fortes, termo usado no mainstream. A gente pode claramente falar num estado forte que dá continuidade nos processos. Vejam a diferença em outros lugares do globo, inclusive no Brasil. As rupturas institucionais complicam nosso processo de tentativa de desenvolvimento e lá o Estado foi se readequando, isso é completamente verdadeiro. Houve um processo, a partir de 78/79, de um aumento do grau de importância dos mercados pra economia chinesa, dos incentivos de mercado, preços livres, mas tudo isso foi feito de forma muito gradual, muito diferente do processo da URSS. É interessante a gente fazer essa comparação. A URSS no fim dos 80 e início dos 90 fez o Big Bang, uma mudança súbita de regime, o que resultou numa hiperinflação, um processo de privatização catastrófico, uma crise generalizada, desemprego massivo e emigração massiva dos russos pra diversas partes do mundo. E o processo chinês começa antes e está ainda em curso. É algo muito gradual, mas sem perder - e esse é meu ponto aqui - essa função do Estado como coordenador dos rumos da economia, digamos assim, em aliança com a iniciativa privada, como organizador e balizador dos planos quinquenais que continuam acontecendo. As empresas públicas continuam sendo importantes, o sistema financeiro continua sendo controlado. Enfim, o processo começa em 49 e em 78/79 tem uma mudança qualitativa importante que não estou negando, mas não pode ser entendida sem compreender o período anterior.

 

[Revista Coonectar] Mesmo a partir de 78 até os dias de hoje, a gente também pode identificar algumas etapas. Porque, a China, durante muito tempo e para muitas pessoas, ainda é vista como uma exportadora de quinquilharias. Mas não é assim que a industrialização e o desenvolvimento da China vêm se encaminhando nos últimos anos. Ela tem despontando em alguns ramos da alta tecnologia. Mesmo de 78 pra cá podemos identificar nuances. Quais seriam elas? A gente pode marcar? Tem algumas balizas?

 

[Bruno De Conti] Na verdade, no momento do fim da própria URSS e do bloco dito socialista europeu, houve muita discussão dentro da própria China sobre como lidar com esse processo e sobre a pertinência ou não de uma abertura mais rápida ou menos rápida. Os anos 80 foram marcados por esse debate. Um marco relevante é 2001, pela entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio). É um marco ultra relevante e que a partir disso diversos países do globo tem o seu comércio com a China enormemente amplificado e um novo marco - temporalmente não dá pra definir um ano, porque é um processo - mas é esse que você está dizendo, de um catching up tecnológico raramente visto na história. De fato, a China, foi exportadora de produtos industriais de baixo valor agregado, brinquedos, enfim - teve um momento que os brinquedos do mundo inteiro eram chineses, continuam sendo, mas não só. Hoje exportam celulares de alta tecnologia, gerando inclusive conflitos geopolíticos maiores com os EUA. Trens de alta velocidade também, em concorrência à Alemanha. Hoje a China já tem condições de competir com os alemães que tem uma tecnologia muito avançada. Quando a gente olha a pauta de exportação chinesa é muito nítido como isso vai avançando em direção a produtos de mais alto valor agregado e de mais alta tecnologia. Eles foram aprendendo, e isso não foi por acaso. Isso também é baseado em determinadas políticas. Só pra mencionar uma, os investimentos diretos estrangeiros, que foram para a China, vieram também para o Brasil e para muitos outros lugares do globo, mas com muito menos critérios e condicionalidades. Na China, eles colocaram tanto critérios quanto condicionalidades. Filtraram os investimentos que seriam interessantes e colocaram condicionalidades. Por exemplo, a Honda pode ir pra China, mas não vai simplesmente importar as peças do Japão, vai produzir na China. Estou reduzindo aqui, mas a ideia é essa, é atrair os investimentos - que eles tem condições de atrair com a mão de obra barata e mercado em crescimento - mas eles puderam colocar essas condicionalidades que no fim facilitaram o processo de aprendizado e, em paralelo, muito dinheiro para universidades, pesquisa e desenvolvimento até hoje. Eles estão num processo extremamente acelerado, não só do ponto de vista dos grandes números econômicos - em seus valores anuais do PIB - mas também nessa mudança qualitativa em direção a bens de mais alta tecnologia. Eles estão agora num processo interessante de externalizar em algumas cadeias os processos de menor tecnologia, mais baixo valor agregado. Hoje a China não é mais o lugar mais barato do mundo, os salários urbanos na China já são bastante elevados. Então tem uma parte da produção que está se deslocalizando para a Ásia, Sri Lanka, Bangladesh, criando uma cadeia regional asiática que tem muita gente estudando.

 

[Revista Coonectar] De 78 pra cá, nesse processo das quatro modernizações como ficou inicialmente denominado, esse desenvolvimento ficou marcado por uma simbiose econômica da China com os EUA. A despeito das tensões que esses dois países enfrentam hoje, essa simbiose ainda existe. O senhor pode explicar melhor qual é a natureza dessa relação e como que seria essa "divisão do trabalho" entre EUA e China de 78 pra cá, e como que a economia desses dois países se entranham e se interdependem?

 

[Bruno De Conti] Pergunta de novo muito boa. É evidente que a aproximação dos EUA à China, lá no início dos anos 70, tem relação com os próprios interesses estadunidenses, dentro do tabuleiro geopolítico da época. O grande rival dos EUA era a URSS, que tinha suas diferenças com relação a China e os EUA tentam justamente explorar essas diferenças e mostrar ao mundo ocidental que são eles que continuam fazendo o diálogo com o restante do mundo, com o oriente. E com isso concedem alguns benefícios e privilégios para a China. Isso é importante pra gente entender que esse milagre chinês depois de 78 também é baseado nesse processo de aproximação dos EUA. Não é que tudo se explique por isso, longe disso, e aí é importante eu fazer essa nota de rodapé. Porque tem outros países como Japão ou Coréia cujos processos de desenvolvimento são muito interessantes, mas muito mais dependentes dos EUA. É o que a gente chama na literatura de “desenvolvimento a convite”. Não é o caso da China, mas ela se beneficiou dessa relação com os EUA, a principal potência do globo. E essa sinergia só aumentou, constituindo aquilo que torna difícil a gente hoje poder falar de uma nova guerra fria. Pode-se usar quem quer usar, não tenho nada contra, mas é preciso matizar esse conceito pra que não seja tomado como aquele usado entre URSS e EUA. E o principal ponto é justamente essa simbiose que você mencionou. Hoje EUA e China são extremamente dependentes um do outro, não só porque são as duas principais potências do globo, mas porque são absolutamente interconectados do ponto de vista comercial e financeiro. Não é por acaso que não é fácil para os EUA comprarem uma briga mais profunda com a China e vice-versa. Existe a guerra comercial, tem todo um jogo de retórica por trás disso. Tem medidas efetivas também, não estou dizendo que é só retórica, mas, pra dizer de forma simples, os EUA não podem desejar uma crise na China e a China não pode desejar uma crise nos EUA. Porque as empresas americanas se beneficiam de uma produção massiva feita na China, espalhados por todo o país, produzindo de forma barata. Ainda que não seja barata hoje por causa dos salários, mas por causa de uma cadeia produtiva super bem organizada, uma taxa de câmbio desvalorizada e, enfim, diversos outros motivos, como crédito barato, etc. Mas as empresas americanas se beneficiam disso. Por isso que não é fácil para o Trump trazer as empresas de volta para os EUA. Por outro lado, a China tem nos EUA - não só a China, mas o mundo - o consumidor de última instância. Os EUA são a grande economia do mundo e os grandes consumidores do globo. A simbiose começa por aí, por uma produção feita em larga escala na China e consumida nos EUA. Além disso, parte da produção chinesa depende de elementos ou de produtos americanos, chegando às outras etapas da cadeia de valor, que são os softwares. Por isso que a guerra comercial traz prejuízos para os dois lados. Aí começa a simbiose, mas não termina. Outro lado é o lado financeiro. A China hoje tem algo como 3 trilhões de reservas internacionais. É verdade que não está tudo em dólar, isso é até difícil de saber os percentuais exatos. Tem havido uma redução das reservas chinesas em dólar sim, mas o montante ainda é muito expressivo. Não é propriamente dólar, mas títulos públicos estadunidenses. E aí novamente há uma simbiose: os EUA tendo na China como grande demandante dos títulos públicos e a China tendo nesses títulos lugar onde ancora a sua riqueza financeira. E isso é necessário, inclusive, para a forma como eles geram a taxa de câmbio deles, para eles fazerem intervenções no mercado cambial, etc. De fato, são rivais nessa disputa geopolítica, mas essa disputa tem que ser feita com luvas de pelica, de uma forma que não vire um tiro no próprio pé. E os dois governos sabem disso.

 

[Revista Coonectar] A “Iniciativa Cinturão e Rota” (ou as “Novas Rotas da Seda”) é considerada por muitos a maior realização comercial e geopolítica dos últimos séculos, a ponto de se equiparar a empreendimentos como a viagem de Vasco da Gama ou a abertura do Canal de Suez. Quais as características fundamentais desse empreendimento?

 

[Bruno De Conti] Você tem toda razão, Marcelo, nas comparações que você fez e na dimensão e na importância desse projeto. É, de fato, um projeto monstruoso, não só no volume dos recursos envolvidos, mas também nos seus objetivos, no número de países envolvidos e nos seus impactos econômicos e geopolíticos. Então, é realmente um tema quente e necessário de se estudar hoje em dia. O que é a Nova Rota da Seda – para quem não a conhece? Ela faz alusão à Rota da Seda original que ligava a China atual à Turquia, na boca da Europa. Não era uma única rota, mas um conjunto de rotas nas quais mercadorias e invenções (como a pólvora) eram comercializadas e também a forma como algumas religiões ocidentais foram parar no Oriente. Em 2013, o presidente da China Shi Jin Ping anuncia no Cazaquistão essa “Nova Rota da Seda”, tendo como intuito de recriar uma conexão na Eurásia. De forma simples: por meio da estrutura de rodovias e ferrovias, ligar, em especial, as cidades do leste chinês, passando pela Rússia e pelo Oriente Médio, até cidades como Amsterdã; mas também por rotas marítimas, integrar a o norte da África e até mesmo a América Latina – com o mesmo intuito de conectar o globo. A América do Norte fica um pouco de fora desse projeto. É um projeto de interconexão global, particularmente, da Eurásia. Interconexão de transportes, marítimos e ferroviários, mas também das tecnologias de comunicação, informação e energia (de petróleo e gasodutos). É um projeto ultra arrojado, iniciado em 2013. Há um conjunto grande de países que já assinaram memorandos de entendimento com a China para participar desse projeto, que envolve um conjunto grande de propósitos pelo lado chinês. Na esfera comercial, tem como objetivo facilitar e baratear o transporte do comércio internacional, tendo a China como a grande provedora dos produtos manufaturados do globo, podendo levar seus produtos para outras partes da Europa e, ao mesmo tempo, comprar insumos de forma mais barata, particularmente da própria Ásia. A China sofreu muito com a crise de 2008, ao contrário do que se imagina. Ela realizou uma política “anti-cíclica”, como os economistas chamam, para lidar com a queda na demanda (comercial) global, através de créditos para investimento e investimentos públicos. Isso segurou a economia chinesa à época e criou uma nova capacidade produtiva, que ainda hoje não está completamente ocupada, mesmo dez anos depois. A China hoje tem uma capacidade produtiva ociosa muito grande, particularmente em alguns setores, e essas rotas facilitarão uma mobilização comercial futura. Mais do que isso, a China pode ser a provedora de créditos para esses investimentos ligados à Belt and Road Iniciative (denominação em inglês da Nova Rota da Seda). E esse é outro propósito da China: ela quer se tornar uma grande credora internacional. Não só comprando títulos públicos, mas também como fomentadora dos investimentos. Isso passa pela internacionalização do sistema bancário chinês e da moeda chinesa. Esse é outro elemento que acho importante destacar: uma disputa geopolítica passa também pela disputa sobre a moeda. É uma das disputas mais duras de serem feitas. Nesse ponto, eu chego no tema da minha área de pesquisa. Moeda é poder e a China sabe disso, os Estados Unidos também sabem disso. Prover crédito em moeda chinesa na Belt and Road Iniciative, ao menos em parte, é também disputar poder geopolítico. Outro objetivo da Nova Rota da Seda é promover a integração da China. Como sabemos, a China é maior do que o Brasil e é muito desigual do ponto de vista regional. Apesar de uma série de políticas promovidas, o Leste segue sendo mais desenvolvido do que o Centro e o Oeste (até por questões climáticas, mas não só). A Nova Rota da Seda também pretende desenvolver essas regiões. Nesse momento da corona-crise, esse projeto pode ganhar força no sentido da necessidade de investimentos em crédito e infraestrutura para recuperação dos países em crise. Relançar a economia mundial passa por outros aspectos também, como a questão da renda básica discutida em alguns lugares, mas passa também por investimentos. Enquanto outros países terão que inventar projetos para sair dessa crise, a China já conta com projetos prontos e os investimentos chineses poderão ser um vetor importante na recuperação da crise pelos países mais diretamente relacionados.

 

[Revista Coonectar] A China nos parece, em comparação sobretudo com os países da América Latina, muito mais soberana do ponto vista financeiro. Como funciona, basicamente, a arquitetura das instituições financeiras chinesas? Qual a sua excepcionalidade?

 

[Bruno De Conti] Esse um dos pilares da resiliência econômica chinesa. Há sempre uma expectativa ocidental de uma crise econômica da China – e ela não acontece, apesar de poder acontecer. O sistema financeiro chinês tem uma estrutura muito mais sólida que o restante do globo. Em minha opinião, isso se deve a dois aspectos. O primeiro é o caráter público: o sistema bancário chinês ainda é predominantemente público, o que facilita a política econômica de gestão das crises, na concessão de crédito em meio a elas (coisa que o setor privado não faz). O segundo são as regulações da economia. A China não entrou na onda internacional da desregulamentação financeira, embora isso esteja sendo feito de forma gradual, até para promover a internacionalização do Renminbi (moeda chinesa) e evitar fuga de capitais. Mas ainda há uma seleção desses investimentos na contramão do que orientam as instituições multilaterais ocidentais e a China se beneficia disso.

 

[Revista Coonectar] Quais as estratégias usadas pela China para aumentar a importância do Renminbi, a moeda chinesa?

 

[Bruno De Conti] Há uma variedade grande de estratégias que foram acentuadas nesse contexto de crise internacional de 2008, originada nos Estados Unidos. Menciono as mais importantes. Um dos vetores foi a criação de centros offshore de transação do Renminbi em outras praças do globo. O primeiro foi criado por volta de 2003 em Hong Kong, depois Macau e, após a crise, mais outros 20 pelo globo em centros regionais na América Latina, África, America do Norte, Europas Oriental e Ocidental. Esses centros, em sua imensa maioria  formada por bancos estatais chineses em contato direto com o People’s Bank of China (Banco Central Chinês), são vetores da utilização controlada do Renminbi. Outro vetor é emprestar dinheiro em Renminbi para que os países credores tenham que adquirir e pagar suas dívidas nessa moeda chinesa. Esse é um processo (de assumir dívidas na moeda nacional do credor) que foi feito também pelos Estados Unidos e países da Europa Ocidental, na época de suas ex-colônias. A China hoje tem condições de fazer isso, mas não é fácil mudar a moeda chave do globo. Outra iniciativa é a publicidade. Em aeroportos pelo mundo é possível ver “Invista em Renminbi, a moeda do futuro!”. Entre 2008 e 2015 o Renminbi aumentou sua influência, mas chegou a um patamar que a China sabe que demorará a ultrapassar.

 

[Revista Coonectar] Se a China se tornou credora de países periféricos e vem estendendo outras formas de investimento direto em diversas regiões do globo, essas práticas de “exportação de capitais” se enquadrariam na definição leninista de imperialismo? Seria a China um país imperialista? 

 

[Bruno De Conti] Eu acho um equívoco falarmos de um imperialismo chinês. O que penso haver é uma tendência endógena do próprio capitalismo gerar uma extroversão de elementos como a busca por mão de obra mais barata, a busca por matérias primas mais baratas, a busca por uma rentabilidade maior em outras áreas e nesse processo ele extrapola as fronteiras nacionais – e é isso está acontecendo na China. A busca por rentabilidade financeira, como todos os outros apontados, são elementos inerentes do capitalismo que é um sistema por definição explorador, e se quisermos ir mais fundo, de trabalho. Há quem diga que o “imperialismo chinês”, por exemplo na África, seja pior do que aquele dos países europeus ou dos Estados Unidos e outros, mas há uma confusão quanto a isso. A questão não é ser a exploração chinesa ou americana, mas que o sistema funciona assim.

 

[Revista Coonectar] Muitos analistas afirmam que o século XXI será o século da Ásia e tendo a China como grande pivô econômico. Ora, se o capitalismo do século XIX teve a Inglaterra vitoriana como modelo e o capitalismo do século XX foi marcado pela civilização fordista estadunidense, haverá no século XXI um modelo capitalista chinês e até mesmo um “Chinese way of life”? E se houver, podemos deduzir algumas de suas balizas?

 

[Bruno De Conti] O modelo chinês é muito difícil (para não dizer impossível) de ser copiado na sua plenitude – ele é fruto de uma Revolução [comunista] e de conjunturas não facilmente replicáveis. Mas há elementos do sucesso chinês que tendem a ser replicados em outras partes do mundo. E um deles é o papel do Estado. Mesmo nos Estados Unidos, que até recentemente eram tido como o bastião maior do liberalismo, percebeu-se a necessidade do Estado voltar à tona e, com Trump, da forma mais atrapalhada e condenável, isso foi retomado. Isso nunca deixou de fato de acontecer: o Estado sempre esteve presente [no capitalismo], mas a China mostra outro nível de coordenação estatal a ser assumido. Nesse sentido, há aspectos que podem seguir de exemplo. Do ponto de vista cultural, a China sofre mais as influências culturais dos Estados Unidos do que o contrário. O basquete está se tornando um esporte comum na China, os jovens estão tomando mais Coca-Cola, o consumo de açúcar está aumentando. Embora menos do que a América Latina e outras regiões, a China copia o american way of life. Agora, não sabemos o que acontecerá em cem anos. Um exemplo revelador dessa separação entre o econômico e o cultural do caso chinês é o Brasil. A China é o principal parceiro econômico do país e você pode passar uma semana ouvindo rádio, mudando de estação para estação e não ouvirá nenhuma música chinesa. No momento, não há dúvida de que o formatador cultural mundial continua a ser os Estados Unidos.

Marcelo Adolfi, tem 38 anos, é professor de história, bacharel e licenciado em História pela USP.

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