UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

Resenha por Lhamas Club

"UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA"
MIA COUTO (CIA DAS LETRAS, 1993)


Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra narra a saga de Marianinho, estudante que retorna à ilha de Luar-do-Chão depois de anos ausente para comandar as cerimônias fúnebres de seu avô Dito Mariano. Neto favorito do patriarca, Marianinho chega à ilha e sua volta traz à tona lembranças, conflitos e segredos envolvendo sua família.


O romance discute os meandros transpostos pela sociedade moçambicana ao buscar sua afirmação cultural e identitária em um país marcado pelos contrastes de e entre sua colonização e independência.


E são estes contrates que definem a construção dos personagens: Marianinho, que tenta, através das estórias narradas por sua avó, alinhavar os fragmentos de sua vida; Dito  Mariano,  o  avô “morto”  que clama  pelo retorno do neto à sua terra natal; Último, o tio que lutou bravamente pela libertação de Moçambique e que se entrega ao desamparo ao não reconhecer-se pertencente à sua pátria agora liberta; e, por fim, Maravilhosa,  mãe do protagonista, cuja vida se tinha infernizado desde que lhe sucedera não mais ter filhos, sendo então considerada como portadora de má sorte.

Há ainda elementos que trazem os aspectos híbridos de formação das identidades moldadas pós-independência, tais como o padre Nunes que, após triste naufrágio causador da morte de inúmeros inocentes, pede a um feiticeiro que jogue búzios em sua derradeira tentativa de compreender os motivos de tamanha tragédia. 
As identidades difusas escancaram, sob certa ótica, os insucessos da colonização, já que a tentativa de homogeneização das crenças e costumes por parte do colonizador dá lugar à uma construção híbrida do sujeito pós-colonial.


Lançando mão de elementos fantásticos, Mia Couto nos entrega uma obra doce, poética e cativante, e nos faz mergulhar no “rio que nasce dentro de nós, corre por dentro da casa e deságua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida”. Em tempos de pandemia, Mia Couto nos traz uma esperança, ainda que tímida, de juntar nossos destroços e seguir adiante.