Regurgitate

Por Luis Vieira

Na caminhada de domingo, durante o começo da tarde, contorno a cerca da parte de trás do parque. No lado de dentro, sentados em um banco de concreto, rodeados pela indiferença de gramas, árvores e flores, um casal se abraça bem apertado. “Ainda vou te abraçar tão forte que iremos nos tornar uma criatura fantástica de duas cabeças, quatro braços e quatro pernas”, eu disse rindo um dia a alguém a quem abraçava desse jeito. Instantaneamente, me lembro da natureza do mal, ou melhor, me lembro do debate milenar sobre natureza do mal. Do lado de fora da cerca, lonas azuis surradas, sustentadas por vacilantes e esquálidos pedaços de madeira improvisam barracas. Uma família mora ali, ao menos um homem, duas mulheres, uma criança e um filhote de cachorro. O abraço apaixonado da miséria parece mais forte e apertado que o do casal protegido e guardado pelos braços segregadores da cerca. Instantaneamente, me lembro da natureza do mal, ou melhor, me lembro do debate milenar sobre a natureza do mal.


Algumas centenas de metros mais a frente, uma esnobe passarela ocupada por uma pequena multidão aproveitando o domingo se eleva sobre a rua. Ao menos duas ou três pessoas capturam e congelam o momento em fotos tiradas com o celular. Essa alegria de ratos nascidos em labirintos, esse contentamento programado, flutuando acima da minha cabeça, com sua petulância ignorante e infantil, como moscas afrontando as nuvens negras que anunciam chuva; ela me irrita tanto quanto a cobiço. Queria, algumas vezes, sorrir e me contentar assim aos domingos. 


No nível do solo, passando por baixo da passarela, encontro mais dois moradores de rua se abrigando sob a indiferença dos celulares e do contentamento dominical. Instantaneamente, eu me lembro da natureza do mal, ou melhor, me lembro do debate milenar sobre natureza do mal.


Santo Agostinho afirmou que o mal é ausência do bem, a ausência de deus. Essa parece a interpretação favorita das pessoas. Talvez pela engenhosidade retórica da definição pela negatividade. O mal não tem substância própria, portanto, não precisa ser melhor explicado como algo em si, ao mesmo tempo em que deus é resguardado de associação com o mal.

 
Eu realmente não me contento com esse argumento. A ausência, o espaço abandonado sempre tende a ser ocupado por alguma coisa. Como o jogo de azar de adivinhar debaixo de qual copo está a bolinha. A atenção toda voltada em procurar a presença, o prêmio  a recompensa prometida. Mas o fundamental são os copos “vazios”, eles definem o jogo. Soa-me absurdo tomá-los como simples ausências, algo definitivamente primordial ocupa aqueles espaços. Como conchas abertas, aqueles copos contêm algo que precisa ser entendido em seus próprios termos. Tarde demais, estou imaginando Agostinho rapelando os bolsos de apostadores incautos e pródigos na Praça da República.


Sou mais inclinado às hipóteses que veem no princípio da divisão, do apartamento, da separação a natureza e a substância do mal, em oposição a tendência à unidade como a natureza inerte de deus. E deus não deve ser preservado. Fora de sua inércia divina, o mal também está em deus, em Geburah, o aspecto da justiça e da severidade. A inexorável espada da justiça e do racionalismo corta, divide, fraciona e separa; destrói unidades e certezas. Geburah é a origem do mal quando sua lâmina corta incessantemente sem nenhum contrapeso, quando separada dos outros aspectos divinos.  O mal se materializa nas espadas flamejantes dos anjos. Sendo assim, arrisco que o mal é necessário. A divisão, alguma alteridade asseguram a existência. Sem mal não há método científico, os objetos e os sistemas precisam ser divididos e analisados em partes. A união total é entropia, e talvez o mundo seja o bilhete suicida de deus.


O abraço e as cercas. O mundo e o submundo divididos por uma passarela. União e segregação. A miséria do lado de fora espelha a felicidade horrenda do lado de dentro, e em alguma medida ambas são grotescas. deus é uma deformação e Geburah isolada é      deus ainda mais deformado. deus freak, deus aberração furiosa, apresentada cinco noites por semana em um circo de anomalias pela bagatela de dez reais o show. deus sem braços e pernas, deus com hidrocefalia. 


“Senhoras e senhores, preparem-se para testemunhar o alfa e o ômega. Antes dele não havia nada e quando ele percebeu a própria presença, a existência teve início. Vocês, eu e todos os outros só estamos aqui porque essa monstruosidade desmemoriada queria saber quem era... e, imaginem só, ela não gostou nada do que viu. Imploro para não encararem a fera diretamente, sob o risco de serem fulminados pela própria futilidade. Vindo de todos os lugares e de lugar nenhum – as cortinas se abrem -: deus!”.
 

A miséria encara a felicidade com olhos vermelhos envoltos por escuridão. E a felicidade encara a miséria com medo e ressentimento. Dos dois lados da cerca, da arquibancada e do palco do show de aberrações, olhares se cruzam. Minha mente se afoga em associações: entre as milhares de coisas que eu poderia ser e não sou, uma aberração talvez seja a que mais teria potencial. Todavia, há limitações. Fisicamente sou feio, mas de forma ordinária e sem graça. Se meu corpo fosse tão acidentado e disforme quanto minha alma, eu seria a atração principal.  deus faria a abertura para o meu número. Eu seria “a incrível coisa que não deveria ter nascido, mas que não pode morrer”. Recomendada apenas para os olhos dos corajosos e não impressionáveis.
 

Mais 30 minutos de caminhada e eu chego em casa.