León Ferrari e a militância da arte

Por Edy Carlos Leite

 

Ao circular pelo espaço da Pinacoteca do Estado de São Paulo (“Pina” para os íntimos), é possível se deparar com uma obra para lá de perturbadora: um espaço retangular (como o de uma tela tradicional), que contém anúncios jornalísticos divulgando os vários cadáveres “achados” ao longo da ditadura argentina, mas que é também emoldurado por imagens sacras da igreja católica. E finalmente, centralizada na composição, uma cruz formada com as imagens de generais argentinos.

Vamos combinar que não é uma imagem que passa despercebida!

 

Basta imaginar a mesma obra “contemporaneizada” (perdoem o risco do neologismo, mas para falar dessa obra e desse artista, é preciso atrevimento). Imagine nossas atuais lideranças governamentais centralizadas no formato da cruz sobre recortes de jornais denunciando os escancarados escândalos relacionados à pandemia da COVID-19. É possível imaginar a retaliação moral e social a quem ousasse produzir algo do gênero por esses dias.

E foi exatamente isso que aconteceu com o argentino León Ferrari.

 

Nascido em 1920 em Buenos Aires, o artista viveu principalmente sob o lema da militância política contra a Igreja e o Estado. As obras pertencentes a esse gênero são repletas de ironias e ambiguidades, que distorcem imagens sacras originais da iconografia tradicional da História da Arte, e geram um conteúdo sórdido, chamativo e corrosivo à tradição hipocritamente implícita. Entenda-se, aqui, a tradição tanto da Arte quanto da moral cristã ao longo da nossa existência[1].

Não à toa as obras desse artista sofreram ataques verbais e físicos ao longo das várias exposições na Argentina. Os ataques contrários também geraram manifestações favoráveis, proporcionando acalorados debates sobre a importância da democracia político-religiosa. Em tempos sombrios, reflexões sobre conteúdos tão sensíveis são mais do que necessárias, são o norte para a construção de uma sociedade livre de equivocados pressupostos.

 

Nosotros no sabíamos. Obra pertencente ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Ainda durante a ditadura, Ferrari exilou-se no Brasil, instalando-se na capital paulista, onde nos deixou um enorme repertório de obras em museus, como a Pina, o MAC e o MASP. Um de seus filhos, Ariel, permaneceu na Argentina e, infelizmente, foi morto pela ditadura militar, o que tornou o discurso do artista ainda mais enfático em denunciar o conluio entre Estado e Igreja. É preciso lembrar que a igreja católica argentina, ao longo dos anos de chumbo, foi conivente com ações violentas do Estado. Aliás, nada muito diferente da maioria religiosa radical frente ao conservadorismo social.

No Brasil, apadrinhado por Julio Plaza e Regina Silveira, artistas e intelectuais conceitualistas residentes de São Paulo, Ferrari passou a experimentar novas formas de arte a partir de possibilidades neovanguardistas na Pinacoteca, como a fotocópia. A Xerox, à época, havia disponibilizado uma máquina no museu para que artistas pudessem experienciar novas possibilidades artísticas a partir desse novo aparato. “Xerocar”, então, passou a ser uma ferramenta artístico-política nas mãos de Ferrari e de tantos outros do período.

Mais raras de exposição pelo seu teor, a série de fotomontagens políticas[2] “Parahereges II”, também da Pina, costuma aparecer vez ou outra para causar mal estar aos visitantes desinformados. Cenas da tradição cristã, como a expulsão de Adão e Eva do Paraíso ou a Santa Ceia, recebem sobreposições eróticas com detalhamentos sexuais, principiando um rebuliço textual para quem pouco suporta uma ácida associação entre cristianismo e erotismo.

Sem título, da série Parahereges II, 1988 fotocópia sobre papel, 43 x 29,5 cm assinada "leon ferrari 88" (grafite) Doação do artista, 1991

Entender o discurso do artista é a principal ferramenta para fruir pelas obras. Quando estiver circulando por um espaço museológico e se deparar com um Ferrari, esteja atento aos significados conjuntos propostos pelo artista. É fundamental levar em consideração sua história durante a ditadura, sua militância contra o Estado e a Igreja. É preciso perceber que Ferrari busca esclarecer a clara relação entre as violências que constantemente sofremos sob a justificativa do cristianismo.

O artista retornou à Argentina em 1991, dando lugar a novas experiências artísticas, como inserir santos em frigideiras, liquidificadores e gaiolas. Suas séries com imagens sobrepostas continuaram a ser produzidas até o fim de sua vida,  em 25 de julho de 2013.

O engajamento da arte contemporânea em León Ferrari está mais do que na moda, está urgente. A provocação é a arma da arte e é com ela que respiramos melhor em dias tão lúgubres.

Por fim, nada melhor do que encerrar esse breve texto de apresentação sobre um dos grandes artistas contra ditaduras com as palavras do próprio:

 

“Ignoro o valor formal dessas peças. A única coisa que peço à arte é para que me ajude a dizer o que penso com a maior clareza possível, a inventar os signos plásticos e críticos que me permitam, com a maior eficiência, condenar a barbárie do Ocidente; é possível que alguém me demonstre que isto não é arte: não teria nenhum problema, não mudaria de caminho, me limitaria a mudar de nome: excluiria arte e as chamaria política, crítica corrosiva, qualquer coisa”. (FERRARI, 1965)

[1] É fato que a Arte tradicional, pautada pela essência renascentista, é apreciada entre os que preferem o conforto à transgressão, já que a sensação de equilíbrio e simetria da base greco-romana, bem como o do devoto discurso do período, não implica desconforto moral e político.

[2] Walter Benjamin, importante filósofo da Escola de Frankfurt, designou a nomenclatura Fotomontagem Política ao conjunto sobreposto de imagens opostas, que resultam em uma terceira imagem crítica e política. Sua reflexão sobre a fotomontagem se deveu aos conteúdos politizados das capas da Revista AIZ, ao longo do período nazista, criadas por John Heartfield.

[3] GIUNTA, Andrea (org.). Léon Ferrari: Retrospectiva – Obras 1954-2006. São Paulo: Cosac&Naify/Imprensa Oficial, 2006.

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Professor de História da Arte e de Língua Portuguesa no Ensino Médio, é mestre em História da Arte pela UNIFESP e bacharel e licenciado em Letras-Português pela USP. Tem um admirável companheiro e dois lindos cães. Almeja viver em um país que valorize a educação e a arte.