Os reis taumaturgos, fé e política no Brasil em tempos de pandemia

Kadine Teixeira Lucas

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Um importante historiador do século XX, March Bloch, inaugurou uma nova forma de compreender a História ao escrever sobre a crença que existiu entre a Idade Média e o século XVIII, de que o toque dos reis era capaz de curar uma doença de pele chamada escrófula. Tal crença, obviamente, servia para fortalecer o poder real e dar sustentação ao absolutismo monárquico, ao colocar na esfera do sagrado o que deveria ficar restrito à política. A capacidade de fazer milagres alçava os reis a um lugar inalcançável e inquestionável, sustentado exclusivamente pela fé – e esta era inabalável. Há registros de que muitos dos doentes retornavam mais de uma vez para serem novamente tocados pelos reis e submetidos ao ritual do qual o toque fazia parte, o que explicita que sabiam que o primeiro “tratamento” havia fracassado. No entanto, isso não abalava a sua fé, pois ela era alimentada não pela realização/ efetivação da cura – que nunca viria -, mas da suposição e da crença de que ela aconteceria. 

Ao tentar compreender o fenômeno político pelo qual passa o Brasil desde 2018, agravado pela atual crise pandêmica, essa imagem dos reis taumaturgos me veio à mente e, de repente, tudo pareceu fazer sentido. Trata-se de um momento em que a fé substituiu a razão e o campo político foi invadido por crenças infundadas e implausíveis que só se sustentam por suposições e falácias – crenças em afirmações absurdas e em soluções mágicas. Quero dizer que o comportamento político de massa que vivemos hoje talvez esteja mais próximo ao absolutismo do que ao fascismo – ou seja, mesmo uma atualização do poder autoritário que se constitui como uma mescla dos dois (?!).

Não é à toa que o atual chefe de Governo e de Estado do maior país da América Latina ganhou a alcunha de “mito” pelos seus devotos. O dicionário Aurélio online traz significados muito esclarecedores para o vocábulo: “personagem, fato ou particularidade que, não tendo sido real, simboliza não obstante uma generalidade que devemos admitir; coisa ou pessoa que não existe, mas que se supõe real; coisa só possível por hipótese; quimera”. Em qualquer desses significados, a dimensão de realidade está mesmo distante, nos conduzindo a uma compreensão do fenômeno psico-histórico-social que alçou ao poder executivo uma figura caricata e desprovida das habilidades políticas que até então seriam invocadas por qualquer eleitor em sã consciência – inclusive aqueles que depois o elegeram. Por isso, não havia argumento possível para confrontar seus eleitores, alimentados pelas fake news que fomentavam seu mundo mítico; por isso, os que tentaram analisar propostas, debater ideias, avaliar as atuações políticas dos candidatos estavam sempre a falar sozinhos, recebendo respostas aleatórias e muitas vezes absurdas e fantasiosas, chegando sempre em um ponto intransponível pela impossibilidade de debate – o que, aliás, se concretiza na recusa do candidato eleito de participar de debates públicos. 

Isso porque sua campanha não se deu na esfera da razão, mas na esfera mítica, da fé. E, aliás, um mito não é passível de crítica simplesmente porque está numa dimensão distinta. E assim foi sua ascensão eleitoral, pautada em acusações que beiravam o absurdo, mas que não precisavam ser verossímeis; na crença de que um único partido e tudo aquilo que fosse associado a ele (sem que necessariamente tivesse realmente relação com o tal ou que fosse efetivamente real) havia sido o “grande mal” que precisava ser combatido; na impossibilidade de se confrontar acusações ou afirmações com dados e fatos objetivos da realidade, os quais eram rechaçados com a reprodução da “verdade” de que o “dito partido e tudo aquilo que a ele foi relacionado” havia acabado com o país, que só conseguiria se reerguer com a expurgação “disso tudo” e com a eleição de um ‘mito’, que faria um milagre do reerguimento, para o qual não era necessário plano, nem projeto. Afinal de contas, para se realizar milagres só é preciso um poder sobre-humano e, portanto, também acima do bem e do mal, o que o permite dizer o que quiser, propondo inclusive a eliminação daquilo que afirma ser a causa do “mal” (vale salientar que nesse bojo são incluídos os professores, os artistas, as minorias, as políticas públicas).

Estivemos diante de uma anti-campanha, estamos diante de um anti-governo. A recusa de propor, de analisar, de refletir, de debater; a recusa da realidade, a recusa da História, a recusa da ciência, a recusa da política. Não foram necessárias proposições, pois o que estava em jogo era a destruição “de tudo o que está aí”, a nossa escrófula a ser combatida e curada. E assim tem sido! Todavia, agora, temos nossa própria e real escrófula, travestida em pandemia. E o problema torna-se ainda maior! O “achismo”, o jejum, a fé, tomam o lugar da ciência numa teimosia desvairada que coloca em risco a integridade física de milhares de brasileiros, a sanidade mental de outros tantos e a estabilidade política do país. E esse cenário distópico só se assevera ao se revelar a permanência do apoio de uma massa que segue crente. A crença no “mito”, que teria o poder de reconstruir antes a economia, agora, além desta, também a saúde coletiva, milagrosamente como lhe é esperado, alcançando o país feliz, seguro, economicamente desenvolvido e livre da Covid-19! E essa irracionalidade, que mantém no poder uma figura irresponsável, inescrupulosa, destemperada e genocida, vai custar caro ao país. A muleta religiosa escancara o abandono da História e, à medida que se torna soberana, nos conduz abruptamente para uma retração não apenas socioeconômica, mas civilizacional.

Nessa breve tentativa de compreender o que vivemos desde as últimas eleições, invoco a História e a tradição histórica como uma anti-negação; a contribuição do imprescindível Marc Bloch para, além de afirmar a importância da tradição do conhecimento e da ciência, corroborar a nossa compreensão da realidade – eu diria que vivemos a versão tupiniquim do que ele chama de “ilusão coletiva”. Sua lucidez ilumina o atual cenário brasileiro, onde a fé de 57 milhões de cidadãos que acreditaram na capacidade do ‘mito’ de fazer milagres, cegos a qualquer argumentação racional ou qualquer evidência da realidade, o alçou à chefe do Executivo e tem sustentado um “absolutismo republicano” sem precedentes. Temos nosso rei taumaturgo. Resta saber quantas vezes as pessoas precisarão ser “tocadas” sem ter as feridas curadas para perceber que não há milagre possível. 

 

P.S.: aos colegas historiadores peço perdão pela simplificação do livro de Bloch, mas a intenção não era a de uma resenha crítica nem mesmo de qualquer produção acadêmica. Trata-se mesmo de um artigo de opinião (ensaio? Crônica talvez...) que pega emprestado alguns conceitos do historiador dos Annales e, ao contrário da “ilusão coletiva”, foi motivado pela angústia coletiva que uma parte de nós está vivendo.


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Sou muitos eus. Dentre eles, professora e historiadora, também com experiências diversas: docência na Educação Básica (regular e EJA), coordenação de projetos de educação popular, formação de professores, tutoria intercultural, atuação em movimentos sociais... Mestra em “Educação: História, Política, Sociedade” pela PUC-SP, atualmente desenvolvo pesquisa de doutorado em História da Educação na Universidade de Lisboa, analisando a circulação cultural entre Portugal e Brasil no séc. XIX e sua relação com os projetos de educação popular.

deus acima de todos

 

Sarita dos Santos Carvalho

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O slogan de governo do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, é composto de duas afirmações. Sobre a primeira, “Brasil acima de tudo”, discorremos em artigo de opinião em edição anterior desta mesma revista (https://www.revistacoonectar.com/cópia-edição-5-ágora-agora), sob o título Quem ou o quê “acima de tudo?”. Sobre a segunda parte, “Deus acima de todos”, pretendemos aqui traçar uma linha de raciocínio.

Primeiramente, lembramos que o slogan “Brasil acima de tudo” foi assumido como brado dos militares paraquedistas, depois do grupo Centelha Nativista tê-lo convencionado. O referido grupo era formado de oficiais da Brigada de Infantaria Paraquedista brasileira, de meados de 1968, com o intuito de estudar a realidade da época (em plena Ditadura Militar), resgatar o nacionalismo e evitar a disseminação de pensamentos marxistas prejudiciais à sociedade. O Centelha também se dispunha a conter “grupos terroristas”, como aqueles presentes no “movimento estudantil” (CASALI, s.d.). Entre os paraquedistas, também havia cristãos fundamentalistas que, preocupados com a ideia tradicional de que nada pode estar acima de Deus, complementaram o brado com “Deus acima de todos”. Assim, o Brasil poderia estar acima de tudo para os militares, mas Deus ainda estaria acima da nação.

A história do povo judaico carrega a marca de um governo teocrático no qual o desenvolvimento social e econômico estava atrelado à obediência e à sujeição da nação ao governante primeiro, ou seja, o próprio Deus. Juízes, reis e sacerdotes, quaisquer desses que praticassem algum tipo de governança sobre o povo deveriam ser, primeiramente, sujeitos ao próprio Deus. Caso contrário, haveria sofrimento, servidão a outros povos, tristeza, morte e decadência.

Com o advento do cristianismo, uma nova concepção de pertencimento e autoridade divina se instaurou: agora, a governança de Deus não estaria mais sobre o âmbito político e governamental, enquanto nação, mas no âmbito pessoal e particular. Ou seja, Deus pode estar acima de tudo para o indivíduo que segue e professa o cristianismo. Dessa forma, portanto, a extensão do domínio divino expande-se, pois não se limita a uma nação apenas, mas a qualquer indivíduo, de qualquer nacionalidade que pratique os preceitos cristãos. Por outro lado, a governança divina apenas sobre o indivíduo permitiu o exercício da laicidade e da separação entre crença (religião) e Estado, de forma a democratizar as nações e países, permitindo que a pluralidade de ideologias e crenças fizessem parte de um todo - diversidade e respeito. Vale lembrar que uma das características da religião cristã é defender também o livre-arbítrio do homem, ou seja, o ser humano tem liberdade de escolha: seguir ou não. Assim, se Deus deu liberdade ao homem em lhe dizer não, que tipo de governo teria o poder de imprimir em seu povo a exigência de que ele seja submisso a determinados preceitos religiosos, sobre tudo e sobre todos? Onde estaria a prática da laicidade? Estamos sofrendo a judaização de um governo laico?

Segundo Hélerson Silva (2018), a partir dos anos 1980, os novos movimentos religiosos protestantes cresceram grandemente, permitindo a organização de um grupo religioso elitista, que alcançou a possibilidade de interagir na esfera política. Essa representatividade religiosa protestante passou a defender:

as reivindicações de transformação que portavam a partir de uma ação coletiva baseada na moral religiosa de grupo, a esfera privada. Assim, o protestantismo foi conquistando o campo político-partidário e se constituiu como uma nova elite política na América Latina, atuando em âmbito nacional, regional e local tanto na esfera do poder executivo quanto na do legislativo e mesmo conquistando adeptos na esfera do judiciário. [...] A fim de levar adiante esse projeto, a nova elite política evangélica tem se constituído em partidos políticos confessionais e obtido representação nos Parlamentos latino-americanos. (SILVA, 2018, p. 244)

O que encontramos, então, no conjunto dos atuantes na política brasileira é a já conhecida Bancada Evangélica, que se une a outras bancadas elitistas em busca da possibilidade de defesa e inserção de suas próprias políticas, em favor de seus grupos. O grande prêmio das instituições religiosas protestantes tem sido o alcance dos cargos governamentais de evidência, ministérios, secretarias e a tão sonhada cadeira no Superior Tribunal Federal (STF). E os prêmios estão leiloados, sendo pagos pela moeda da fidelidade ao sistema. Enfim, o mito da moralidade permeia a ordem e o progresso. Será?

É lamentável que a religiosidade pura, da caridade, da busca da justiça, seja confundida com a moral e os bons costumes dos “cidadãos de bem”. Nem tudo o que parece fazer bem é bom. Jesus, certa vez, perguntou: “Bom? Por que me chamas bom?” (Mc 10.17,18), fazendo uma pergunta retórica a um homem que lhe perguntava o que fazer para herdar a vida eterna. Ou seja, pensando na possibilidade de sentidos discursivos, o homem achava que Jesus poderia lhe dar o ingresso dos céus, já que era homem religioso, cumpridor dos seus deveres judaicos. Jesus, ao dizer que deveria vender o que tinha e desse aos pobres, passou a ser “não tão bom” àquele homem, alguém que só se preocupava consigo mesmo.

A Bancada Evangélica é a “cara” do religioso político, aquele que acredita já ser portador do ingresso. Com essa prerrogativa, usa das facilidades administrativas e legislativas em favor da sua crença, para que o céu já comece aqui. Como detentor de algum poder, democraticamente eleito, é uma espécie de sacerdote entre o seu povo e Deus - retomando a possibilidade de uma Teocracia às avessas (isto porque, nos moldes atuais, o homem impõe a Deus seus desejos, e ele os obedece). Para seus eleitores, esses legisladores religiosos são representantes diretos de Deus, detêm a verdade que os libertará a todo tempo, em nome da tradição dos homens de bem (nem tudo o que parece, é), pois deus não está acima de tudo?

Temos vivido com a infeliz coincidência da palavra Messias. Para os judeus, redentor prometido por Deus para redimir o povo e a sociedade, estabelecendo uma nova ordem social de paz, de justiça e de liberdade, o Rei aguardado para restaurar o poder da Dinastia de Davi sobre outros povos. Messias, para os cristãos: a pessoa de Cristo, aquele que sofreu por uma causa, em favor de muitos.

Quem é o Messias para os brasileiros, um deus acima de tudo? 

Nossa “salvação” vem da preservação do Estado laico e Democrático de Direito, a única forma de demonstrar a quem se deve obediência. O direito à democracia acima de tudo.

Referências

CASALI, Cel. Cláudio Tavares (Pqdt 46.363-88/1). Brasil, acima de tudo. Centelha Nativista, s. l., n. 3, s.d. Disponível em: http://www.cipqdt.eb.mil.br/download/trabalhos_cientificos/o_brado_brasil_acima_de_tudo.pdf?fbclid=IwAR20NrLzI_TJr8hWUhTrJ-Kbo1cN3PyB0UTDFt_jPVLcwsGurn1mUDzoIOM. Acesso em: 17 maio. 2021.

SILVA, H. Os novos atores “evangélicos” e a conquista do espaço público na América Latina. Reflexão, v. 43, n. 2, p. 243-263, 2018. http://dx.doi.org/10.24220/2447-6803v43n2a4377

Sarita dos Santos Carvalho é Mestra em Ciências da Religião, pela Puc Campinas, com pesquisa na área de Análise do Discurso Religioso. Linguista, pela Unicamp, com formação em pesquisa em Análise do Discurso. Publicitária, pela Puc Campinas, com experiência no mercado editorial. Revisora textual e orientadora em trabalhos acadêmicos.

 

Jesus e o presidencialismo de coalizão

Rodrigo Toniol

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Foto de Roberto Stuckert Filho_PR

–       Senador, o senhor acredita em Deus?

A pergunta dessa história tão repetida entre os paulistanos foi feita por Boris Casoy ao senador Fernando Henrique Cardoso na abertura do último bloco de debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo em 1985. A resposta de FHC, que já não tinha idade para ingenuidade, custou-lhe a eleição, que parecia ganha, e deixou uma lição para os candidatos dos pleitos seguintes a esse, que foi o primeiro da abertura democrática.

 

FHC: Essa pergunta o senhor me disse que não faria.

Boris Casoy:  Eu não disse nada.

FHC:  Perdão, foi num almoço, sobre esse mesmo debate.

Boris Casoy: Mas eu não disse se faria ou não faria.

FHC: É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de quem quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao senhor Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

 Boris Casoy: A pergunta não foi respondida. Não se trata de armadilha, nem de convicção pessoal.

Na outra tribuna, estava Jânio Quadros, aquele que bebia porque é líquido, e que conhecia bem o povo ao qual FHC se referia. Jânio esperou até a última pergunta do debate, sobre o sistema de transporte da cidade, para dar o golpe de misericórdia:

– Antes de terminar Boris, quero fazer um pedido ao povo de São Paulo: não votem em um ateu.

Desde então, nenhum outro candidato foi ateu neste país. O próprio FHC, quando disputou as eleições para a presidência em 1994, chamou a imprensa em toda ocasião que comungou em alguma igreja. Uma vez, fez um grande estardalhaço ao ir para Bahia no dia da lavagem das escadarias do Nosso Senhor do Bonfim. Apareceu ao lado de mães de santo, amarrou fitinhas na grade, comungou, comeu acarajé e saiu em procissão. Durante o mandato, também beijou a mão do papa umas quantas vezes. Gostou tanto da coisa que, doze anos depois, em 2006, declarou numa entrevista para a Playboy que assiste a missas pela TV e que tem um rosário na cabeceira de sua cama. Se for bom cristão, aposto que coloca nas intenções das quintas-feiras, dias dos mistérios luminosos, a alma de Jânio, seu conversor.

Lula nunca foi acusado de ser ateu. Tinha a seu favor a proximidade com a Teologia da Libertação e com as experiências das Comunidades Eclesiais de Base. Mas, na campanha para a presidência de 1989, pesou contra ele a desconfiança de setores neopentecostais que temiam que, caso eleito, sofreriam perseguição religiosa, haveria privilégio à Igreja Católica e à transformação de templos pentecostais em supermercados.

Nos anos 2000, o cenário já era outro. O peso do voto dos evangélicos nas eleições majoritárias tornou-se evidente. No legislativo, a crescente bancada evangélica deixava de ocupar a marginalidade dos debates e tornava-se instância de articulação de pautas centrais da política nacional. Pouco a pouco, tornou-se claro aos que se candidatavam a subir a rampa do Palácio do Planalto que, neste país, não há governabilidade sem Jesus. 

Nesse caso, ao menos enquanto perdurou o tal presidencialismo de coalizão, poderíamos colocar na conta das alianças que viabilizaram os governos no Brasil: o Sarney, o Renan Calheiros e Jesus – nessa ordem mesmo, embora agora pareça que estejamos diante de uma inversão dela. Não foi à toa que o vice de Lula, José Alencar, que Deus e Jânio o tenham, mudou de partido entre as eleições de 2002 e 2006, indo do Partido Liberal (PL) para o Partido Republicano Brasileiro (PRB), criado pelos dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em 2010, Serra e Dilma protagonizaram um pleito em que o traço religioso escalou para outro tom. O alerta dos fiéis estava aceso, porque Lula havia sancionado o Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) em seu último ano de mandato. A pressão política dos evangélicos exigia garantias de que o Plano não fosse executado pelo próximo presidente. Os termos da campanha foram dados ainda em 2009, quando uma diocese de São Paulo distribuiu na missa do galo um folheto que comparava Lula a Herodes. Dizia o folheto: Herodes mandou matar algumas dezenas de recém-nascidos (Mt 2, 17). Com esse decreto [referindo-se ao PNDH], Lula permitirá o massacre de centenas de milhares ou até de milhões de crianças no seio da mãe. 

Dilma fez sua aliança com o povo cristão lançando a Carta Aberta ao Povo de Deus, garantindo que o Plano Nacional era apenas uma recomendação e que temas como aborto seriam questões do legislativo em seu possível mandato.

Serra não ficou atrás, no primeiro turno demonizou o PNDH e distribuiu por todo o país um santinho bastante sugestivo: com seu rosto em marca d’água, lia-se em letras garrafais “Jesus é a verdade e a justiça”.

O desfecho da disputa foi do tipo pastelão. Serra, que ia aos cultos e às missas para pregar contra o aborto, passou a ter que lidar com a acusação de ser um fariseu. Isso porque, durante o segundo turno, veio à tona a história de um aborto feito por Mônica Serra, sua companheira. O voto evangélico foi imperdoável e Serra perdeu a eleição.

Na disputa presidencial de 2014, o pleito ganhou novos personagens, mas a centralidade da religião permaneceu. No primeiro turno, pela primeira vez, um pastor disputou as eleições majoritárias: Pastor Everaldo. Além da presença igualmente destacada de Marina Silva, fiel da Assembleia de Deus, que assumiu uma postura secular demais para obter os votos religiosos e religiosa demais para o voto secular. 

 

No segundo turno, Dilma acompanhou a construção e a inauguração do Templo de Salomão em São Paulo. A seu favor, tinha o peso das igrejas evangélicas e de atores centrais, como o bispo da Igreja Universal Marcelo Crivella, que ocupara o cargo de ministro da pesca em seu primeiro governo.  

 

Do outro lado, Aécio Neves, que tentava se afirmar como alguém próximo da sacristia, já durante o segundo turno, aproveitou o nascimento de seus filhos gêmeos para, de uma só vez, aproximar-se do eleitorado católico e afirmar-se como afim dos ideais da família tradicional. Em um artigo de sua autoria publicado no Jornal Folha de São Paulo, anunciou assim a chegada dos rebentos: “Observando os nossos dois bebês, impossível não me emocionar com o precioso sentido do valor da família, resumido na imagem de minha mãe pedindo à Nossa Senhora – como um dia pediu pelos seus filhos – que receba e envolva os netos em seu manto protetor. Ou lembrar, com saudade, da voz do meu pai, contando casos e histórias, que pretendo um dia contar a eles ao redor da nossa mesa. Porque família é quem veio antes, quem está conosco e quem vem depois. Me tornei o homem que sou pelo exemplo que tive dos meus avós e de meus pais.”.

 

Para quem tinha dúvidas, o recado estava dado: Nossa Senhora, o valor da família e o espírito de Tancredo eram apresentados como os esteios morais do candidato.  

Quatro anos e um impeachment depois, a religião havia entrado de vez nas campanhas presidenciais em 2018. Em preparação para o pleito, Jair Bolsonaro viajou para Israel e se batizou nas águas do Rio Jordão, tal como Cristo. No caso do político brasileiro, no entanto, o agente do sagrado não foi João Batista, mas sim o Pastor Everaldo, aquele mesmo da disputa de 2014. Mais do que isso, desde aquele pleito, nos habituamos com um novo hit da política brasileira João, capítulo 8, versículo 32 "E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.

O ato final se deu no dia da eleição, quando seu primeiro discurso como eleito foi precedido por uma oração ao estilo pentecostal, puxada pelo ex-senador e pastor Magno Malta. O mesmo que, em 2010, colocou-se como apoiador de primeira hora da então candidata Dilma Rousseff.

Qualquer crônica da política brasileira em seu período democrático mais recente passa pela força crescente que a religião está ocupando no debate público e pela relevância dos atores religiosos no país. Os vínculos entre religião e política nesta parte do mundo não são um traço passageiro restrito aos dramas nos tempos de campanha. Pelo contrário, religião é um dado de realidade da política brasileira. Invariavelmente, os religiosos estarão ao lado dos vencedores e é a partir daí que começa qualquer debate sobre os desafios das garantias de um Estado laico no Brasil. 

Assim, começa o século XXI para este país, carregando tantas ambiguidades quanto as contidas no voto de Eduardo Cunha em favor do impeachment de Dilma Rousseff: “Que Deus tenha misericórdia desta nação”. 

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Rodrigo Toniol é professor do departamento de antropologia cultural da UFRJ e presidente da Associação dos cientistas sociais da religião do Mercosul.