Saindo do Caixão: 

vampiros, literatura e sexualidades masculinas

Por Fausto de Oliveira Gomes

No alto de uma colina, não muito longe do centro de uma Londres vitoriana, um casarão reformado se encontra subitamente habitado por uma figura pavorosa e fascinante. “Sem dúvida um aristocrata, mas não só isso” era o que se ouvia no mercado a respeito do novo morador da região. Seduzidas pela novidade e pelo seu charme, elegância e sensualidade, as jovens donzelas da região trocavam imaginações sobre o tal sujeito. Portador de uma educação diferenciada e um sotaque carregado de regionalismos desconhecidos, esse homem era, antes de tudo, um estrangeiro.

Quem olhasse atentamente notaria que a mansão na colina talvez ainda estivesse desabitada. Poucas pessoas afirmavam ter visto o tal aristocrata estrangeiro. “Ele não pode sair à luz do Sol, vive pelos becos escuros e só sai durante a noite”, diziam no mercado. Vive sozinho, não tem ninguém. Seduz os jovens e se alimenta de sua juventude, é um perigo para a família e para a sociedade. O moralismo vitoriano de uma Londres iludida pelo capitalismo mercantil e pela espiritualidade anglicana estava ameaçado por uma figura que se temia mesmo sem ter certeza se existia ou não. Esse estrangeiro passou a incorporar os elementos vampirescos de uma lenda rural eslava. Esse homem era, agora, um vampiro. Um vampiro repaginado, confesso. Mas ainda um vampiro.

Sem sobrenome, sem história. Com certeza veio de alguma família rica, ele tem modos e etiqueta. Com certeza há um perigo fora da cidade, um vampiro, dizem. Será que esse estrangeiro é o vampiro? Não pode ser, ele não faria isso. Dizem que os ataques cessaram quando um estrangeiro, muito semelhante a esse, saiu de outra cidade nas redondezas. Não temos como saber. Melhor prevenir, melhor evitar o contato com todos os estrangeiros, melhor evitar contato com quem não tem sobrenome nem história conhecida. Melhor não dar chance ao azar e evitar cair nas garras assustadoramente eróticas desse tal vampiro.

Se por um lado a cristandade exalta os dons do Espírito Santo, por outro lado, o vampiro é a própria encarnação da maldade. Um mito que existe há, pelo menos, 200 anos segue fascinando a mente de muitas pessoas e movimentando cifras nos bolsos de outras tantas. Além do fascínio inerente ao próprio tema, o que me motivou a escrever um texto sobre vampiros foi o novo ponto de vista que um artigo em inglês intitulado “saindo do caixão” apresentou para mim.

 

Nesse artigo, a autora defende a tese de que Bram Stoker era um gay enrustido e que os traços dessa sexualidade estavam expressos no Drácula. Não concordo com essa visão, não acho certo carimbar personalidades históricas ou, simplesmente, que não estejam presentes, com rótulos que deveriam ser somente assumidos, reconhecidos em si mesmo e nunca, nunca deveriam ser dados por outros ou a outros. Mas confesso que imprimir no vampiro traços homossexuais me animou. Primeiro porque eu teria que revisitar algumas obras clássicas com um novo olhar e, segundo eu teria que recuperar uma análise do mito do vampiro que li há muitos anos e que me empolgou bastante na época.

 

Nessa análise é possível perceber que o mito do vampiro contém em si características típicas de tudo aquilo que ameaça as bases da sociedade londrina, mercantil-capitalista, da época. O medo do desconhecido, o medo daqueles que são ricos, mas não são nobres, daqueles que surgem aparentemente do dia para a noite e ninguém os conhece, sem falar que possuem comportamentos diferentes também. Essas figuras tornaram-se assustadoras e não era seguro deixar os jovens sozinhos com o risco de serem seduzidos por eles, por mais educados e ricos que fossem - eram vampiros.

 

Tendo a sexualidade como lente para as histórias de vampiros, um novo mundo se abriu na minha frente. A princípio me detive nas metáforas óbvias das trocas de fluído entre os corpos da vítima e de seu predador, a energia renovadora do sexo, o falecimento aparente que surge logo após um ótimo orgasmo, o próprio sangue algumas vezes presente no ato, mas aos poucos eu fui percebendo que não era só isso, havia mais sob a capa do vampiro. Era hora de sair do caixão!

 

Comecei a relacionar livremente o que eu pudesse com qualquer questão associada à sexualidade e, inclusive, à homossexualidade. Às vezes, confesso, forcei um pouco a barra relacionando a palidez típica das histórias de vampiro com a maquiagem carregada das travestis e das drags. Mas muitas outras vezes percebi, uma pesquisa rápida me mostrou, que a relação era tão evidente, eu não era o único a percebê-la.

 

Se mantivermos em evidência a análise que projeta no vampiro os comportamentos ditos ruins e que abalariam a segurança familiar e a estrutura vitoriana de uma Londres anglicana do século XIX, como tentei ilustrar nos primeiros parágrafos desse texto, não é difícil compreender as motivações que levaram à existência de características homossexuais e comportamentos depravados em diversas histórias de vampiros.

 

Visto como um desvio de caráter, um ato pecaminoso ou a própria maldição do Maligno, a prática homossexual, se ocorresse, deveria acontecer às escondidas, na segurança proporcionada pelo anonimato da escuridão dos becos, à noite, longe das luzes dos lampiões, tochas e, principalmente, do Sol. Para não serem reconhecidos, homossexuais deveriam andar cobertos e, provavelmente, não permaneceriam na sua cidade natal por muito tempo - talvez não permanecessem em nenhuma cidade ou vila por muito tempo. Daí, talvez, a partir de descrições provavelmente vagas desses viajantes e retratos falados carregados de preconceitos tornando-os todos muito parecidos, venha a noção de eternidade dos corpos vampíricos.

 

Mas sobre a imortalidade dos vampiros eu prefiro a metáfora de que, por serem a própria encarnação do mal, também carregam em si os vícios da humanidade. Dentre esses vícios estaria o vício do desejo, especificamente, do desejo carnal. O ímpeto sexual nunca diminuiria como acontece nos demais humanos, existiria sempre em seu ápice. E como esse desejo não desaparece, o corpo que o sustenta também deveria manter-se sexualmente ativo e desejável para sempre. Esse desejo insaciável pelo sexo tanto pode servir como alusão à homossexualidade, que tem a depravação e o sexo libidinoso como estigmas falaciosos que ainda hoje persistem, quanto para justificar uma outra característica tão presente nos contos de vampiros: a sedução.

 

Apesar de deixar muito claro que você só entra na casa de um vampiro por sua livre, consciente e espontânea vontade, a culpa por ter se entregado ao desejo nunca será sua (ainda mais se for um residente local, filho ou filha de uma família conhecida e que zela pela sua honra), a culpa será sempre do vampiro. Sempre ele que seduz, que manipula e que controla. Nos dias atuais não é difícil encontrar quem impute culpa ao amigo homossexual pelo desvio do filho, por levar para o mal caminho, encher a cabeça dele de ideias erradas etc. Até na hora de levar a culpa por satisfazer desejos dos outros - mesmo tendo que se esconder e mentir para isso - os vampiros e homossexuais são parecidos.

 

Neste ano, o conto “O Vampiro” comemora dois séculos de aniversário. Muitos vão apontar esse conto como uma espécie de certidão de nascimento do vampiro moderno. Dizemos que é “moderno” para diferenciá-lo do mito rural eslavo do vampiro que atacava as pessoas do vilarejo que andavam sozinhas à noite. A partir desse conto, o vampiro passou a ter a elegância e a educação que nos vêm à cabeça, quando pensamos em um vampiro genérico. John Polidori conseguiu criar a imagem do vampiro que será eternizada em Drácula, de Bram Stocker, e em tantas outras histórias de vampiros que surpreendem até hoje.

 

Ao conhecer esses dois autores e suas histórias de vida, pelo menos no recorte temporal no qual a produção dos seus vampiros se deu, podemos concluir que as homossexualidades no vampiro não são tão absurdas assim. E mais, podem ter relação com as tensões sexuais que seus autores carregavam. Como a relação entre o Polidori e o Lord Byron. Homens que os fascinavam e que despertavam tensões que poderiam ser interpretadas como sexuais estavam presentes na produção das duas obras. Mas era preciso, na Londres do início do século XIX, fingir uma virilidade reprodutiva que era tida como sinônimo da masculinidade e de tudo o que significava ser homem naquela época e, pesa dizer, possui ecos até hoje.

 

Ao pensar nesses homens que precisavam viver sua sexualidade às escondidas, que saíam para encontrar os corpos de outros homens à noite, nos becos da cidade, cobertos para não serem reconhecidos, entregando-se às paixões efêmeras eternamente, não consigo deixar de pensar na imagem dos vampiros. Ainda mais quando me lembro que uma das características dos vampiros é a inexistência de seu reflexo no espelho. Além de ter que se esconder para viver sua sexualidade, quando estão entre as pessoas, nas relações sociais e salões de festa, ao olharem para o espelho, a imagem refletida não é a dele, ele não se reconhece naquele homem hétero que o espelho reflete - não existe imagem no espelho que reflita sua existência. O vampiro é a capa da masculinidade imposta àqueles que não existem na ilusão vitoriana de uma Londres anglicana. 

 

Que mundo! É mais fácil acreditar em homens eternos que vivem do sangue de jovens puros do que em homens que amam outros homens. Tá na hora do homem bom se envergonhar do que está sendo refletido nos espelhos e dos vampiros despirem a capa e saírem dos becos. Tá na hora de deixar o Sol brilhar, e não matar, a todos.

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Composição da imagem: Syaibatul Hamdi