Sala dos professores
 

Um espaço para a troca de ideias, para reflexões, para contar causos e entrar naquelas discussões que só tomam lugar e forma em uma sala dos professores. Textos sobre educação, cultura escolar, relatos de experiência, reflexões filosóficas e debates.

Notas sobre o educar em tempos pandêmicos
 
Por Larissa Yuri Oyadomari

 
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Atualmente sou estagiária/auxiliar de classe em uma escola particular de São Paulo, acompanhando uma turma dos anos iniciais do Ensino Fundamental I. Acho importante contextualizar minha atuação profissional pois minhas reflexões partem deste lugar que ocupo na escola e na turma que acompanho, a partir das vivências do ensino remoto e do retorno presencial*. Para escrever este texto, me inspirei em um artigo da Maria Carmen Silveira Barbosa, em que ela propõe uma reflexão sobre tempo e cotidiano, e os tempos para viver a infância, publicado em 2013 e posteriormente na obra de Maurice Tardif e Claude Lessard sobre a docência como profissão de interações humanas, em 2014.

Tempos remotos

 
Por quase um ano e meio, a relação pedagógica, assim como a relação com as famílias dos estudantes, mudou por conta da pandemia de Covid-19. Em muitas escolas, públicas e particulares, o trabalho pedagógico que acontecia em células protegidas em um ambiente específico (a escola, como analisaram Tardif e Lessard) teve suas paredes derrubadas. No caso de crianças pequenas, professoras** tiveram de encontrar maneiras de alcançá-las através de propostas enviadas para as famílias. Alguns relatos de professoras da rede pública, aos quais tive acesso, indicaram dificuldades de contato com as famílias, que passaram tanto por falta de familiaridade no uso de tecnologias adotadas para a comunicação, até barreiras financeiras ocasionadas pela pandemia, resultando inclusive na falta de acesso à internet e a equipamentos adequados para realização das atividades.


Professoras de educação infantil e anos iniciais do Fundamental I, na rede pública e privada, relataram uma necessidade de se repensar a escrita das propostas, agora mediadas por outras pessoas adultas que não estavam acostumadas com esse papel. Mensagens de áudio e vídeo enviadas pelas professoras e gravadas de suas casas, às vezes recebiam outras em resposta, às vezes a plataforma utilizada ficava com convites pendentes durante semanas para a ativação dos e-mails dos estudantes, houve, ainda, respostas que nunca chegaram e que estão em algum lugar esperando condições de serem encontradas e enviadas. Há alguns relatos de professoras da rede pública de que a troca de mensagens, por meio de aplicativo, propiciou uma interação entre escola e família e entre famílias que não acontecia normalmente. Contudo, o trabalho docente, que tem essa característica de ser celular passou a ser pelo celular, inclusive não só por número oficial da conta comercial da escola, mas também por meio do número pessoal dos docentes. Dessa forma, neste retorno do modo presencial, estamos tendo que restabelecer os canais prévios de comunicação, que demandam não só um aprendizado de como fazer uso da agenda para as crianças e famílias, mas também a reconstrução de contornos para essa relação.


Durante o período de trabalho remoto emergencial, para que os estudantes pudessem se sentir olhados e reconhecidos por nós, precisávamos, do lado “de cá”, olhar para a câmera e não para seus rostos, construindo ficções transitórias para que pudéssemos tecer vínculos mesmo nesta modalidade. Nos encontros online, por mais que se optasse por um ou outro software e recursos diferentes tenham surgido (os quais, vale lembrar, tiveram de ser aprendidos em curto período de tempo pelas professoras), a interação entre estudantes era menor, especialmente se considerarmos estudantes que não podiam participar do espaço de trocas de mensagens pelo chat da plataforma de encontro. Enfim, voltamos à escola, e, apesar do tempo ser esta variável fundamental para o trabalho pedagógico, isso parecer nos escapar; ele se faz presente, tecelão das muitas dimensões da vida cotidiana escolar.

 

Tempo para brincar e criar laços de amizade 


Uma das cenas mais marcantes que pude observar no retorno presencial foi o encontro de duas crianças, ambas novas na escola, que haviam participado dos encontros online coletivos por quatro meses antes deste momento presencial. Durante uma brincadeira proposta por uma educadora, uma chegou perto da outra e se cumprimentaram, perguntando os nomes, e se queriam ser amigas. Estavam, afinal, se encontrando pela primeira vez na escola, este lugar privilegiado para o encontro, como apontaram Dahlberg, Moss e Pence (2007), que lembram que a instituição de educação infantil é um fórum na sociedade civil, onde crianças e adultos se encontram e podem participar juntos em projetos, de uma forma que não se dá em outros espaços, daí seu significado cultural e simbólico. 

 

Tempo para pertencer 


Muitas crianças estão vivendo pela primeira vez a experiência de estar na escola. Este corpo na escola, que desconhece ou está se acostumando aos (novos) ritmos e rituais da vida escolar, escutando seus sons, sentindo a textura da areia do parque, buscando seu lugar no espaço de lanche e se expandindo em brincadeiras na hora do recreio. Após algumas semanas, fui percebendo como as crianças (que, por questões de protocolos sanitários, ficaram no primeiro semestre trabalhando em subgrupos) estavam se percebendo como parte de um só grupo. Concomitantemente a esta “construção grupal”, processo pensado por Fátima Freire tendo o professor como coordenador da classe, vista como um grupo que se quer operativo,, é necessário que seus integrantes possam se colocar e perceber que contribuem para o coletivo, em um movimento constante, do individual para o coletivo, da criança para o estudante que se forma nela. Assim, as referências do grupo vão sendo construídas a partir de experiências compartilhadas, em um repertório desta vida coletiva que se dá no cotidiano escolar. Mas precisamos também ir chamando a atenção dos estudantes para o fato de que o grupo não está sozinho na escola, num movimento pendular de saber que se tem um lugar no grupo, se reconhecer enquanto uma classe, ao mesmo tempo em que se faz parte de um coletivo maior, o do segmento, parte de um todo mais abrangente, a escola.

 

Tempo para histórias e escuta


Durante os encontros online, falei da arquitetura de ficções, e estas retornam às vezes em nossas narrativas. Tem sido importante ter tempo para histórias. Elas podem, por exemplo, aparecer em momentos de brechas, durante o deslocamento de um espaço a outro, no acolhimento que marca o início do dia, ao pendurar da mochila. Este tempo para histórias exige uma abertura para a escuta, de corpo inteiro, tanto das professoras quanto dos estudantes. Às vezes são histórias do que aconteceu no final de semana, ou um partilhar de ficções que lhes são caras, ou ainda a história de seu nome, de como os pais se conheceram. O aprendizado da escuta também está na escuta de um livro capitulado, que se torna uma referência partilhada pelo grupo, lido pela professora e que envolve os estudantes para descobrir como ele vai se desenrolar.


Tempo para estar junto e construir 


Estar na escola como este lugar do encontro com seus pares, com outros adultos que não os de seu convívio imediato, com o conhecimento em forma de currículo traz muitas e novas situações sociais (pois antes, se estava protegido naquele círculo restrito de pessoas conhecidas). O tempo de estar junto passa por interagir, entender como o que falamos afeta aqueles com quem nos relacionamos, perceber como as pessoas podem dar sinais de que não estão gostando do que fazemos. Aprendemos também a nos expressarmos não só através da escrita, mas também através da fala, a nos posicionarmos de forma respeitosa, a aprender que se pode participar e como podemos fazê-lo.
Construir uma trajetória junto com os estudantes, respeitando suas individualidades e com abertura para a participação e a escuta exige e demanda tempo, algo que parece nos faltar. Os meses para o fim do ano letivo são poucos e a cobrança para que este período de frequência presencial "recupere" os meses em casa aparece, assim como a “produtividade” que nos é cobrada. Temos a sensação de que o tempo passou depressa demais durante os primeiros meses do ano, e, agora que estamos finalmente pisando no chão da escola, este chão que nos dá base e sustenta o trabalho pedagógico, nos falta.


Como escreveu Barbosa, “o tempo é um articulador da vida, é ele que corta, amarra ou tece a vida”. Mas como nos relacionarmos dessa forma, como “viver o presente” quando ele parece insuficiente? Como tecer com o tempo nossas experiências e relações, construir uma trajetória em conjunto, sentidos compartilhados e investigar interesses? Se nos permitirmos por alguns instantes brincar de fazer pedidos ao tempo, como diz a canção,  talvez o principal desejo seja o de ter tempo para vivermos a relação pedagógica.

 
Parece-me que tal como as crianças na busca de “tempos para viver a infância” na escola (Barbosa, 2013) em que esse viver se dá através do brincar, da narrativa, da vida cotidiana, nós educadoras gostaríamos de mais tempo para viver o ensinar, este “trabalhar com seres humanos, sobre seres humanos, para seres humanos” (Tardif e Lessard, 2014) com todas as sutilezas e complexidades que isso envolve, ainda mais em tempos como esses.            Pedimos tempo para que as crianças possam nos conhecer, tempo ao longo do qual construímos nossas referências enquanto grupo, inclusive com nossas brincadeiras e charadas internas. É preciso tempo para ensinar e aprender a ler a expressão dos olhos, franzidos de testas e de sobrancelhas. Tempo para retomar nossos referenciais e valores, voltar aos textos que inspiram nossas práticas, que possibilite pausas para repensar o currículo, revisitar experiências ocorridas durante o ensino remoto e ver o que reverbera, momentos para refletir sobre o que vivemos, deixar assentar no corpo; para viver a docência. Para podermos enxergar potência de vida no cotidiano escolar mesmo em tempos de (pós?) pandemia.

 

 

*Aproveito para agradecer a todas as pessoas com quem trabalho/ei, e às crianças com quem convivo/i neste período, sem as quais este texto não seria possível. 

**Neste texto, usarei o coletivo no feminino como forma de valorizar a profissão das pedagogas, constituída em sua maioria de mulheres. O uso dos termos professoras e educadoras será feito de forma intercambiável, não caracterizando hierarquização entre eles.
 

Pedagoga em formação na Faculdade de Educação da USP, possui graduação em História e experiência em educação em espaços museais. Atualmente é auxiliar de classe no Ensino Fundamental I. Acredita na escuta de corpo inteiro, no acolher no cotidiano. Deseja trabalhar com Educação Infantil e sonha com um mundo com educação de qualidade para todas as crianças