Úrsula

Por Maria Clara Assis

Úrsula, uma bela mocinha virginal, simples, casta, encantadora, símbolo de tudo que há de mais lindo e puro no mundo; Tancredo, o nobre bacharel e verdadeiro cavaleiro aos modos medievais; Comendador P., o tio de Úrsula, um vilão sem escrúpulos e síntese de toda a maldade. Os três personagens principais envolvidos em um triângulo amoroso que funciona como enredo típico de um romance do período romântico, mas que acabaram perdendo o destaque para personagens secundários na medida em que esses, sim, oferecem aquilo que faz com que a narrativa revele-se importante para a historiografia literária brasileira, ainda que a obra tenha sido, por muito, esquecida ou deixada de lado.

Para entender o fenômeno de um livro que faz com que o segundo plano brilhe mais em importância do que o disposto nos holofotes, precisamos contextualizar com a história de uma autora brilhante que ficou nas sombras da nossa história literária, que tem o costume de olvidar mulheres, mas que, feliz e recentemente, foi resgatada. Negra, baixa e de cabelos crespos, Maria Firmina dos Reis é considerada a primeira romancista brasileira. Maranhense dedicada e estudiosa, publicou livros, contribuiu com a imprensa local, foi musicista, professora, contista, compositora e poeta. Muito atrelada à luta abolicionista e antirracista, suas obras refletem denúncias contra as desigualdades sociais.

Uma pesquisa feita por um grupo de pesquisadores vinculado à Universidade de Brasília aponta que, entre 1965 e 2014, mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras foram escritos por homens e 90% por brancos: não é difícil imaginar a dificuldade do cenário de mais de um século antes para uma mulher preta atingir reconhecimento na literatura. Maria Firmina tinha plena consciência do quanto seria árdua a tarefa de ser aceita e mostra isso logo em seu primeiro romance “Úrsula”, de 1859, que já se inicia com um prólogo em que a autora o descreve como mesquinho e humilde, que passaria pela indiferença de uns e riso gozador de outros, completando com os dizeres: “Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados [...]”. Ainda assim, o publica e diz que o faz pelo amor materno incondicional e ilimitado, de quem ignora os defeitos do filho e o mostra ao mundo para ser apreciado.

 

Até os anos 1960, o nome de Maria Firmina dos Reis tinha sido praticamente esquecido, quando uma série de homenagens póstumas na sua terra natal São Luís promoveu o resgate da autora. Assim, seu nome passou a ser pincelado à la Cecília Meireles e Júlia Lopes de Almeida no meio de tantos destaques masculinos, como Machado de Assis, José de Alencar, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu e por aí vai. Nos últimos dez anos, a inclusão de “Úrsula” na lista de obras de grandes vestibulares, como o da UFRGS e do Programa de Avaliação Seriada da UnB, tem contribuído para que o seu trabalho seja incluído no currículo escolar de algumas regiões. Todavia, ainda falta muito para que seu nome e de tantas outras escritoras sejam devidamente reconhecidos ao lado de seus contemporâneos homens. Por isso, é importante a iniciativa Edições Câmera em disponibilizar o e-book “Úrsula e outras obras”, que além do romance conta com o conto abolicionista “A escrava”, o indianista “Gupeva” e sua antologia de poesias “Cantos à beira-mar”, que pode ser baixado gratuitamente pela Amazon. Assim, torna-se acessível ao público suas histórias para que sua voz não seja calada.

 

Por falar no silenciamento de vozes, voltemos ao ponto crucial que faz de “Úrsula” uma leitura essencial: a voz dos personagens negros secundários, que colocam o sistema escravagista como plano de fundo muito importante para a narrativa e faz com que a obra se consagrasse como o único romance abolicionista de autoria feminina da história da literatura lusófono do seu período. Não são as juras de amor eterno de Tancredo a Úrsula, altamente idealizadas e melosas que farão o leitor se emocionar, mas sim o relato único e condizente com a diáspora africana que parte da personagem Mãe Susana. Ela delata o sequestro cruel e o tráfico de negros em condições desumanas, assim como as crueldades da escravidão. Por trás de todo o drama familiar da pobre e branca órfã envolvendo casos de família e seu tio, o que nos instiga a virar as páginas é o desenvolvimento de Túlio, que mesmo com a brutalidade que envolve a escravidão e sua insatisfação e revolta perante sua condição, permanece sensível, nobre e é retratado como um homem virtuoso, de maneira quase heroica. 

 

Desse modo, são as vivências, suas relações e o impacto da escravidão nas vidas de Susana, Túlio e Antero, outro personagem secundário negro com apenas uma aparição, que acabam se sobrepondo aos principais brancos, por mostrar uma nova versão dos fatos, com a memória do passado africano e colocando os negros para reivindicarem em seus próprios conceitos o que é a escravidão no Brasil. O enredo romântico é comum aos romances do século XIX, amor, dor, incesto, morte, drama, idealização, tudo isso já era abordado. Maria Firmina chama atenção por usar o segundo plano como uma forma de denunciar a crueldade do sistema escravocrata.

 

Assim, apesar da linguagem ultrarromântica ser, por vezes, excessivamente descritiva, com emoções exageradas e inverossímeis dos personagens, abusar das exclamações e um desenvolvimento do romance beirando ao inacreditável de tão idealizado, a leitura não só vale a pena como merece um destaque nos estudos dentro da academia e o reconhecimento público fora dela, mesmo para aqueles que, como eu, não sejam grandes fãs da estética romântica. Acho importante nos aventurarmos mesmo por entre estilos que não nos cativam e reconhecermos algumas pérolas que podemos encontrar no caminho. Os contos da autora também merecem atenção, sobretudo o “A Escrava”, publicado poucos meses antes da promulgação da lei Áurea em que Maria Firmina mostra seu brilhantismo e qualidade literária, bem mais madura intelectualmente. Além disso, seu trabalho como poeta em “Cantos à beira-mar” não deixa a desejar com sensíveis versos, cheios de paixão e elegância. Para todos os efeitos, é uma escritora de obras a serem lembradas e passadas para frente.

Captura de Tela 2021-08-01 às 13.58.20.png

Maria Clara de Assis é brasiliense, estudante e escreve desde que se entende por poeta. Escreveu a coletânea poética “Serei a Poetisa” no Wattpad, retirada para futura publicação no formato físico. Participa do Curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose, tem mais livros do que amigos e pode ser encontrada no Instagram @madeassis tagarelando sobre eles ou flertando com a tristeza no chão do quarto enquanto chora mais poemas que consegue contar. Para ela, vida é poesia e reconhece na inutilidade dos seus dias aquilo que há de mais belo.