a matrialidade e o poder da palavra entre as civilizações meridionais

Por Ekedji Erenay Martins

Palavra é feminina, é poder, é manifestação. É preta porque se reconhece primordialmente africana, o princípio da ancestralidade rege as sociedades meridionais. Veremos como a palavra é um registro ancestral entre estes povos e como esta tradição falada, escrita, cantada, é força divina e um dos valores civilizatórios que unifica os povos ao sul global.

As culturas precursoras do Egito dinástico seguiam a tradição da matrilinearidade, como em Kush e Núbia, ou Ta-Seti. Neste reino, o povo se reconhecia como Anu-Seti, o povo preto. A palavra anu no Egito permaneceu significando preto.


Duas cidades importantes do Egito, Hermonthis no sul e Heliópolis no norte, chamavam-se Anu. A palavra anu também significava o lar das almas renascidas das pessoas fisicamente mortas. A marca da civilização egípcia fica registrada, em regiões muito remotas da Ásia e da Europa, através da organização social de caráter matrilinear e através dessa palavra anu, que iremos encontrar no mundo antigo desde o Japão até a Irlanda. (…) Se cada geração corresponde a aproximadamente cinquenta anos, o reino de Ta-Set teria surgido mais ou menos em 4600 a.C., ou seja, dois mil e quinhentos anos antes da data convencionalmente estabelecida para o estado nubiano. O povo desse reino chamava-se Anu-Seti, o que significa “povo negro” do reino Seti (Nascimento, 1994).

Como vemos, para Nascimento, “o vocábulo anu adquire uma importância central no processo das civilizações africanas no mundo antigo, e não é coincidência o anu ser um pássaro preto”. (NASCIMENTO, 1994)

 

Ao sul global, se desenvolveram as sociedades matriais, estas expandiram-se como reinos e ocuparam as regiões tropicais, onde fundaram ciências arquitetônicas, astronômicas, medicinais, agrônomas e gastronômicas: inúmeras foram as ciências desenvolvidas por estes povos. Inclusive, existem enormes semelhanças entre seus sistemas sociológicos, filosóficos e religiosos. Não foi à toa que ao se (re)encontrarem em condição de escravizados pelos colonialistas europeus em terras ameríndias, as civilizações africanas e ameríndias criaram diversas dissidências religiosas a partir de seus cultos aos ancestrais e estas convivências desde o período colonial. Aliás, ameríndios e africanos muitas vezes coabitaram territórios autônomos de re(ex)sistência, como os quilombos, ou periféricos, como as favelas. Inúmeras são as evidências de que as primeiras civilizações humanas são africanas, desenvolvendo seus alicerces já por volta de 17.500 a 18.000 anos atrás. 

 

Durante muito tempo, as culturas que herdaram o legado das civilizações euro-ocidentais fizeram questão de omitir suas origens africanas. Desde a Grécia antiga, quando pensadores foram estudar nas escolas africanas, em cidades que beiravam o Mar Mediterrâneo, como Cartago, Cairo e Alexandria, nenhum deles mostrou interesse em publicizar de onde vinham estes conhecimentos adquiridos. Pelo contrário, criaram teorias mirabolantes tal qual a tese dos “escravos por natureza” de Aristóteles (Moore, 2007).

Entretanto, quando decifraram a pedra Rosetta [1] no século XVIII, ficou comprovada a origem egípcia de praticamente todo o conhecimento científico, religioso e filosófico da Grécia antiga. Como exemplo, Elisa Larkin traz um depoimento de um conde membro da Academia Francesa (1787), Constantino Volney que afirma

 

Os egípcios antigos eram verdadeiros negros do mesmo tipo que todos os nativos africanos... Pensem só, que esta raça de negros, hoje nossos escravos e objeto de nosso desprezo, é a própria raça a quem devemos nossas artes, ciências e até mesmo o uso da palavra! (VOLNEY, 1787 apud NASCIMENTO, 1994)

A tentativa de eliminar a África dos anais da história não dependeu apenas do preconceito acadêmico contra as fontes orais e a alegação da não-existência de sistemas de escrita em África. Baseou-se na própria definição de civilização. Para o eurocentrismo, as civilizações humanas se dividem em duas categorias: a ocidental e a oriental. Como eliminar a África como referência nesse quadro, se várias entre as primeiras civilizações do mundo (a egípcia, a Núbia, a de Kush) originaram-se exatamente lá? (NASCIMENTO, 1994: 29)

 

Em relação à escrita, já foi comprovado que as escritas meroíticas e hieróglifas originaram-se na região do Sudão. Assim como as formas de escrita do oeste africano, dos sistemas de povos Akan e Manding, surgiram nas proximidades da bacia do rio Niger, onde o império do Mali alcançou extensões territoriais maiores do que o romano nos séculos XIII e XIV, sucedendo os impérios de Songhai e Gana, que tiveram seu apogeu no século XI (NASCIMENTO, 1994). Apesar de as culturas tradicionais enfatizarem o caráter da oralidade como crucial para manter viva sua tradição, isso não quer dizer que não desenvolveram suas formas de escrita, que inclusive influenciaram o desenvolvimento da escrita de todo restante da humanidade.

 

Mas ao contrário da “sociedade do esquecimento”, como chamou Darcy Ribeiro, a cultura dos juruá (homem “de barba”, como é chamado o branco colonizador pelos tupi-guarani), a palavra, nas culturas originárias africanas e ameríndias, ao ser dita, vale muito mais do que a palavra escrita. Entretanto, suas formas de registro vão muito além da linguagem alfabética. A estética para os povos tradicionais afro-ameríndios constitui a pedra fundamental de sua arte e envolve toda sua expressão no mundo. 

Por mais que a ocidentalidade procure negar, o continente africano possui uma Unidade Cultural, já demonstrada por Cheikh Anta Diop (1959, 1978). Uma das características mais marcantes nesta Unidade Cultural é o culto à ancestralidade e a matrialidade. Eliza Larkin Nascimento ressalta que os estudos de Cheikh Anta Diop enfatizaram como a primeira e fundamental influência africana no mundo antigo a organização social matrilinear e o matriarcado. O autor enfatiza  que não existe hierarquização entre o matriarcado e o patriarcado, como julgaram as teorias eurocentristas, que supunham as sociedades patriarcais um estágio “superior” da humanidade.

 

Larkin Nascimento explica que alguns desses povos, devido, frequentemente, ao contato com o colonizador europeu, começaram a adotar práticas características do patriarcado. Mas que, por outro lado, nas civilizações meridionais, estáveis e agrárias, a mulher desempenhava uma função central. Ela representava, socialmente, o valor máximo da vida agrícola: a estabilidade. O papel da mulher no desenvolvimento da técnica agrícola constitui o tema de muitos mitos e lendas. Suas atividades no campo garantiam o sustento da coletividade, enquanto os esposos desempenhavam funções arriscadas, incertas como a pesca e a caça ou até as prejudiciais à comunidade, como a guerra. A mulher nessas sociedades é agente da vida econômica, sendo elas as negociadoras e organizadoras, o sistema social reflete esse fato. Larkin Nascimento também lembra como Sonia Sanchez (1985) afirmou que, nestas sociedades, homens e mulheres eram considerados/as seres divinos/as, complementares e possuidores dos mesmos direitos sociais (NASCIMENTO, 1994).

 

A literatura religiosa egípcia registra as viagens de Osíris pelo mundo em sua missão civilizatória a outras terras. Rei e Deus do Egito, Osíris era o mestre da filosofia de Ma'at (teoria da verdade, da justiça e do direito). Coube a ele levar e ensinar aos e os outros povos do mundo as ciências da agricultura e metalurgia, bem como a arte da civilização, além de pregar a mensagem religiosa e os princípios da moral e ética de Ma'at. Nesta tradição, enquanto Osíris partiu em sua missão civilizatória, sua esposa Ísis reinou com sabedoria, dignidade e verdade. A mitologia kemética inaugurou filosofias que influenciam importantes culturas, simbologias, ciências, tecnologias, sócio-espacialidades e muitos outros aspectos das sociedades modernas. O exemplo mais emblemático é a tríade familiar, Ísis, Osíris e o filho Hórus, a origem da santíssima trindade em Kemet (Egito Antigo), e do tridente de Esù (yoruba), Poseidon (grego) ou Netuno (romano).

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Representação da família sagrada kemética [2].

 Nesta gravura vemos a associação do símbolo tradicional kemético (Egito Antigo), a chave Ankh, à integração dos órgãos reprodutivos masculino e feminino, juntamente com a vida sendo gerada dentro do útero [3].

O símbolo Ankh, a chave da vida, representa o sopro da vida que Ísis segurava ao reviver Osíris, que por ela foi resgatado e em quem foi realizado o primeiro processo de mumificação da história desses povos. Ísis então engravida do rei recém-renascido, dando à luz a Hórus, símbolo do renascimento, da imortalidade e da vida, que honra a Mãe, o ventre, o Pai, o falo e também a criança gerada pelo ventre. Representa também o espírito e a mente, a continuação da energia vital e o equilíbrio das energias femininas e masculinas. Os registros em hieróglifos, escrita clássica do Egito Antigo na extensão do rio Nilo, remetem ao período pré-dinástico que antecede os 3.100 a.C. 

O sopro da vida é o espírito, centelha divina que habita o corpo durante uma existência/(re)encarnação. Para povos originários da África e das Américas, a palavra é a manifestação da centelha divina de quem a profere.

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Ísis, ou Aset. foi a mulher de Osíris, filha do deus da terra, Geb ou Gueb, e da deusa do céu, Nut. Era ainda mãe de Hórus e cunhada de Set ou Seth [4].

A palavra, a voz, é a materialização do sopro da vida, que transforma pensamento em comunicação, e que foi com o tempo se transformando em símbolo, através da imagem e do imaginário, que cada grupo humano desenvolveu para registrar sua memória e sua linguagem.


Hampaté Bâ narra em Palavra Viva (2010), como em diversas etnias africanas a palavra é associada nos mitos de criação com o sopro divino que materializa a força vital dos seres. “Sendo a fala a exteriorização das vibrações das forças, toda manifestação de uma só força, seja qual for a forma que assuma, deve ser considerada como sua fala. É por isso que no universo tudo fala: tudo é fala que ganhou corpo e forma”.

Notas e Referências:

[1] Inscrita com hieroglifos egípcios e outras línguas antigas da região, pedra Rosetta foi a grande chave do conhecimento produzido pela civilização kemética.

[2] Egypt: Descriptive, Historical, and Picturesque, by Georg Ebers. Volume I. Translated from the original German by Clara Bell. New York: Cassell, Petter, Galpin & Co. Pages 207–211. Disponível em: http://www.rosenlake.net/fw/osiris.html

[3] Imagem captada em: www.facebook.com/raamen.wakanda.

[4] http://www.ocultura.org.br/index.php/%C3%8Dsis

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Ekedji Erenay Martins é geógrafa, mestra em educação, doutoranda em geografia cultural, estuda desde a graduação concepções de espaçotempo em civilizações originárias de Azânia (África) e Abya Yala/Pindorama (Américas). Capoeira, arteducadora em danças afroameríndias, paulistana de nascência e afrobaiana de criação. Professora na educação básica da rede municipal de São Paulo. Dedico estes escritos à minha vóinha, que hoje é estrela com nossos ancestrais.