Entrevista de Jorge de Almeida

Jorge de Almeida é doutor em filosofia e professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP. Coordenador do LERo (Laboratório de Estudos do Romance), é tradutor de obras de Theodor Adorno e autor de livros e artigos sobre filosofia, música e literatura. 
 
Revista Coonectar

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Entrevista concedida por e-mail, em 13.09.2021 e conduzida por Suzana Mello

[Revista Coonectar]- Você poderia contar um pouco sobre a sua trajetória acadêmica?

 

[Jorge de Almeida]- Entrei na USP para cursar Ciências Sociais, em 1984. Naquele ano, as disciplinas introdutórias resolveram todas discutir o famoso romance de Orwell. Foi uma experiência interessante, pois percebi que a boa literatura podia levar a discussões amplas em várias áreas do conhecimento. Dividido entre a sociologia, a literatura e a música, passei a assistir aulas na ECA e em outros cursos, como ouvinte. Três anos depois prestei novo vestibular e entrei na Filosofia, curso no qual me formei. O amor por línguas e literaturas, além da música, fez com que me concentrasse na área de Estética. Depois de formado, participei como bolsista do Programa de Formação de Quadros do CEBRAP, coordenado pelo saudoso Prof. Giannotti. Escrevi um projeto de pesquisa sobre a relação entre filosofia e música na obra de Theodor Adorno e, orientado pelo Prof. Paulo Arantes, defendi anos mais tarde o doutorado em filosofia. Nessa época, já dava aulas em uma universidade privada, era editor do caderno cultural de um jornal voltado para alunos do ensino médio (Boletim Mundo) e coordenava grupos de estudo sobre literatura, música e filosofia. Após algumas temporadas na Alemanha, comecei a traduzir obras de Theodor Adorno, entre elas o primeiro volume das Notas de Literatura. Foi assim que resolvi prestar o concurso para a área de Teoria Literária e Literatura Comparada, também na USP. Fui aprovado e já estou lá dando aulas há vinte anos, tendo a alegria de conviver com colegas e estudantes empenhados na leitura, discussão, ensino e crítica de obras literárias. Nos últimos anos, entre outras atividades, coordeno o LERo, Laboratório de Estudos do Romance, que realiza diversas atividades abertas ao público em geral.

 

 

[R.C]- A literatura, muitas vezes, consegue dar conta de representar a realidade. Você concorda com isso? Se sim, acha que a literatura conseguiria representar a realidade da situação atual do nosso país?

 

[J.A]- A relação entre literatura e realidade é muito complexa, porque historicamente os conceitos de literatura e realidade interagem e se modificam. Pensemos, por exemplo, nos antigos gregos: o modo como percebiam a “realidade" de sua época era impregnado pela aceitação do destino individual em um mundo visível governado pela luta invisível entre diversos deuses. Na Idade Média, a “realidade" não correspondia à concretude dos atos da natureza, mas derivava da relação com os desígnios de um Deus único ao mesmo tempo escondido e onipresente. Séculos mais tarde, até mesmo o projeto naturalista de representar, de modo objetivo e científico, os fundamentos da “realidade" social não se resumia à mera descrição dos fatos, mas à compreensão da lógica subjacente ao funcionamento da sociedade burguesa. Décadas depois, os modernistas incorporaram a interioridade do sujeito e os modos de percepção sensível, ampliando consideravelmente o que se entendia por “representação literária da realidade”. Hoje em dia, a relação entre literatura e realidade se desdobra em problemas como o sentido da ficção, a redefinição do real como narrativa, a recuperação crítica do realismo do século XIX, a mistura de gêneros discursivos, etc.

Sobre esse assunto, vale sempre ler Auerbach, que buscou reconstruir de modo brilhante a história da constante tentativa, por parte da literatura, de encontrar novos procedimentos e pressupostos para descrever, expor, imitar (verbos relacionados ao conceito grego de mimesis) a realidade em constante mutação histórica.

Você me faz uma pergunta muito difícil: se “a nossa literatura conseguiria representar a realidade da situação atual de nosso país”. Eu diria que há várias boas tentativas, que devemos acompanhar com atenção. O resultado final (e a resposta à sua pergunta) talvez só possa ser conhecido pelas gerações futuras. Lembremos que Machado de Assis era admirado por seus contemporâneos principalmente como um grande poeta. Demorou muito para seus romances serem lidos como irônicas reflexões críticas sobre a formação social brasileira, marcada pelas violentas contradições derivadas da escravidão. Como diz Hegel, a coruja de Minerva levanta voo ao entardecer. Durante o dia (o momento histórico em que nos encontramos), a literatura pode iluminar, ofuscar ou obscurecer alguns sentidos de uma realidade complexa, diante da qual somos levados a agir, mesmo sem a pretensão de compreendê-la totalmente. O autor que você estuda, Suzana, foi um dos mestres capazes de conjugar o impulso à ação política concreta com a necessidade de distanciamento crítico para a compreensão da conjuntura. Uma tarefa difícil, mas sempre e ainda necessária.

 

 

[R.C]- A literatura, hoje, ainda tem a importância que teve no passado? Por que ler hoje?

 

[J.A]- Qual passado? Qual literatura? Para responder sua pergunta, devemos nos lembrar que o conceito de literatura é amplo, abrangendo por vezes a tradição oral, os mitos, a canção, a religião, etc. Nesse sentido, é fundamental pensar não apenas a presença e importância da literatura em cada época, mas os seus efeitos e sentidos na cena social e cultural de cada sociedade.

Mas entendo o que você está sugerindo em sua pergunta. Se pensarmos, por exemplo, nos últimos dois séculos, é claro que a literatura (a leitura de obras literárias) perdeu seu papel de destaque no debate cultural, diante de novas formas de arte e entretenimento. Hoje em dia, há pouco repertório comum no âmbito literário (a não ser em nichos específicos de leitores especializados), enquanto uma conversa sobre as últimas séries televisivas rapidamente desperta a curiosidade geral. Isso pode soar trágico, mas um otimista recordaria que a difusão coletiva da literatura escrita também é historicamente algo muito recente. A taxa de analfabetismo, mesmo na Europa, era imensa até o surgimento do ensino público universal, que só se estabeleceu plenamente no século XIX. No Brasil, a história é mais complicada, pois ainda hoje enfrentamos um número muito alto de analfabetismo funcional. Daí a importância da luta pelo ensino público de boa qualidade.

Por que ler hoje? Do ponto de vista pessoal, seria arrogante oferecer uma resposta única. Minha experiência como professor me ensinou a respeitar os vários motivos, muitas vezes antagônicos, que levam as pessoas à leitura: prazer, busca de conhecimento, escapismo, interesse acadêmico, solidão, entretenimento, busca de emoções, tradição, revolta. Cada razão pode ter seu lugar, dependendo das circunstâncias.  Mas, do ponto de vista coletivo, podemos citar a importante palestra de Antonio Candido, O direito à literatura, que defende como direito humano fundamental o acesso à boa literatura: “A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório).” Além de gerar objetos artísticos autônomos, a literatura é uma forma de expressão e uma forma de conhecimento; a leitura é essencial, portanto, para a boa formação.

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[R.C]-  Qual espaço que a academia oferece à literatura contemporânea? Em se tratando dessa relação, você poderia comentar sobre o estabelecimento de cânones para estudos nas Universidades?

 

[J.A]- Ao contrário do que se pensa, a academia abre um espaço importante para o debate sobre literatura contemporânea. É claro que a formação universitária implica um conhecimento aprofundado da história da literatura, em várias línguas e tradições. Mas isso não ocorre apesar ou a despeito do interesse pela produção contemporânea. Existe uma relação dialética entre a tradição e o novo, que geralmente é levada em conta nos bons cursos de Letras: pensar os clássicos a partir de hoje, compreender o momento atual pensando nos clássicos.

O tema dos cânones é polêmico, teríamos de ter mais tempo para um bom debate. Mas adianto que não vejo a formação de cânones como um ato intencional de opressão política ou cancelamento de vozes dissonantes. Eles são frutos da história e como tal foram constantemente repensados, acompanhando as mudanças de gostos e critérios de avaliação crítica. De qualquer modo, um elemento fundamental para o estabelecimento de qualquer cânone não deve deixar de lado a hoje tão controversa “qualidade artística”, frequentemente abandonada em favor de outros atributos também presentes na obra literária (interesse documental, histórico, político, etc.).

 

 

[R.C]- Pode-se dizer que a literatura é política?

 

[J.A]-No sentido em que tudo é político, a literatura também o é, já que consiste em um fato social, afetado pela ideologia e visão de mundo de indivíduos e grupos sociais. Basta lembrar a definição horaciana da literatura épica, destinada a exaltar “os feitos dos grandes heróis e os acontecimentos das tristes guerras”. Mas a própria história da literatura apresenta contrapartidas a essa glorificação das classes dominantes, como vemos no caso das obras que denunciaram a violência da escravidão ou guardaram a memória das vítimas de guerras e massacres. A relação com a política, no caso da arte, passa não apenas pelo conteúdo, mas também pela complexidade da forma. O maniqueísmo, portanto, é sempre pouco produtivo na literatura. O impulso de configurar uma obra artística de valor impõe uma relação “mediada" com a política. Voltando a Brecht, o autor que você estuda: engajado na política, ele fazia questão de apresentar os dilemas de sua época de modo formalmente complexo, o que permite que suas obras sejam relidas e reinterpretadas até hoje.

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[R.C]-  Como a crítica literária sobrevive em um mundo massificado e fragmentado? Na década de 1990, muitos jornais impressos davam espaço para críticos como Antônio Cândido e Roberto Schwarz publicarem resenhas. Isso desapareceu com o tempo. Você acha que esses espaços para a crítica diminuíram? Se sim, onde se publica crítica fora do ambiente acadêmico?

 

[J.A]- Se pensarmos na crítica literária acadêmica, eu diria que ela enfrenta bem esses desafios quando permanece atenta ao texto literário, evitando a mera aplicação de teses teóricas e políticas externas às obras. A crítica sobrevive quando ressalta a complexidade de seus objetos, não quando os simplifica. Para isso, é preciso conhecer a história da literatura e da crítica, colocando em perspectiva maior o potencial crítico e a originalidade de novas leituras. E, principalmente, estimular o debate aberto e sem preconceitos.

No caso da crítica jornalística, também não sou tão pessimista. Novos veículos têm aberto novos espaços para o comentário e crítica de lançamentos e reedições. Muitos alunos têm escrito em jornais, revistas e blogues. Há um debate muito vivo, também, em eventos e vídeos na internet.

O importante é que o ato crítico, ou seja, a conversa séria, fundamentada e apaixonada sobre obras literárias, esteja cada vez mais presente na chamada “esfera pública”, para além de eventuais nichos de interesse. Afinal, a boa literatura pode e deve interessar a muitos.

[R.C]-  Você poderia comentar um pouco sobre a sua relação com as diversas formas de Arte e, em especial, com a Música?

 

[J.A]- Um belo assunto, que muito me fascina. A literatura (ainda oral) nasceu da música, da sonoridade domada em métrica e organizada de modo expressivo. Depois disso, a relação entre música e literatura se espalhou pelos vários gêneros. Como você sabe, no teatro a música pode estar presente tanto no texto quanto no espetáculo. E no Renascimento a busca por essa antiga união gerou uma nova forma: a ópera. Desde então, muito se debateu sobre a primazia da música sobre a palavra ou da palavra sobre a música. As obras em que os dois momentos se complementam marcam tanto a história da música quanto a da literatura. Mas não pense que a questão musical aparece apenas na lírica e no drama, também o romance moderno tematizou e se inspirou em questões musicais, como nos lembram obras de Thomas Mann, André Gide, Aldous Huxley e James Joyce, para citar apenas alguns exemplos. Tenho dado vários cursos sobre isso, sempre acompanhados com grande interesse por parte dos alunos, mesmo aqueles sem formação musical. É bonito perceber o espanto das novas gerações diante de grandes obras do passado, muitas vezes lidas ou ouvidas pela primeira vez.

[R.C]-  Por que ler os clássicos?

 

[J.A]- Repetindo uma resposta clássica, mas correta: porque são obras que ainda nos dizem algo, ainda nos dizem respeito, ainda nos surpreendem, emocionam e fazem pensar. Virginia Woolf dizia que a releitura de Hamlet, à medida que ela envelhecia, era como uma espécie de autobiografia, “pois, quanto mais sabemos da vida, mais Shakespeare faz comentários sobre o que sabemos”. Ler, ouvir, pensar e conversar sobre os clássicos faz parte do que ainda podemos chamar, sem medo e talvez contra a corrente, de “cultura”. Um ato coletivo e , portanto, essencialmente político.

[R.C]- A linguagem pode ser usada de maneira muito enviesada, sendo até deturpada. Você diria que temos vivido um crescente esvaziamento de significados de palavras e da própria linguagem?

 

[J.A]- A comunicação se torna cada vez mais visual e, com isso, a linguagem falada e escrita acaba sofrendo. Além disso, o mercado favorece a produção padronizada direcionada ao consumo rápido, que faz propaganda de si mesmo. Posso estar errado, mas acho que o empobrecimento da linguagem também corresponde a um empobrecimento dos sentidos (nos vários sentidos do termo), da capacidade do diálogo, da expressão e da compreensão de si mesmo e do mundo. Não me refiro aos desvios e novos usos de estruturas e palavras, algo que sempre aconteceu e que faz parte do desenvolvimento das línguas, mas à incapacidade de dominar a linguagem em vários níveis, buscando uma expressão coerente, clara e, se possível, criativa.

[R.C]- Há algo que não tratamos nessa entrevista e que você queira comentar?

 

[J.A]- Quero apenas agradecer a você, Suzana, que me desafiou com questões tão amplas e profundas.