Entrevista de Jorge de Almeida

Jorge de Almeida é doutor em filosofia e professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP. Coordenador do LERo (Laboratório de Estudos do Romance), é tradutor de obras de Theodor Adorno e autor de livros e artigos sobre filosofia, música e literatura. 

Revista Coonectar

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Foto: Ilana Lichtenstein

Entrevista concedida por e-mail, em 09.07.2021

[Revista Coonectar] - Você poderia comentar como é a sua relação com as letras e a poesia? Como começou a escrever poesias?

 

[Júlia de Carvalho Hansen] - Nasci numa família de intelectuais, mas só me dei conta disso bem depois de estar alfabetizada. Minha primeira infância foi entre bichos e plantas. Mas, talvez porque meu pai me contasse histórias elaboradíssimas para dormir, comecei a escrever histórias bem cedo, como um passatempo. O primeiro poema que escrevi espontaneamente foi a partir de um poema do Manuel Bandeira, apresentado em sala de aula pela minha professora de português na 6ª série da Escola de Aplicação da USP, a Eliane. Eu percebi – e perguntei se poesia não precisava ter métrica e rima. Eu tinha 12 anos, e desde os 9 escrevia e tentava inventar narrativas. Acho que foi no ano seguinte, 1997, lendo Drummond quando percebi que eu também gostaria de produzir aquele tipo de experiência com palavras.

 

[R.C]- Você acha que a poesia ainda tem lugar em um mundo cada vez mais rápido, líquido e fragmentado?

[J.C.H]- Sem dúvida. Por ser estático e ao mesmo tempo tecer deslocamentos de som, sentido, sensação, imagem e etc., um poema consegue acessar e produzir todo tipo de velocidade, consistência temporal, atravessamento de dimensões materiais e imateriais. O poema traz um efeito de estabilidade que é instável, e cada leitura de um mesmo poema já o coloca em movimento outra vez. Não acredito também que a poesia necessite da legitimação de possuir um lugar. Porque ela é um procedimento, uma prática humana e enquanto existirmos ela também existirá. E terá o seu lugar, como tudo que existe.

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[R.C.]- Você considera que há um processo de criação do poeta ou há processos, isto é, acontece para cada poeta de uma forma diferente e cada processo é diferente?

[J.C.H]- Processos, claro. Acredito na pluralidade de experiências possíveis. Ninguém faz ou vive a própria vida da mesma maneira que outra pessoa. Em termos de escrita acho que alguns poetas são mais espontâneos e precisam de prazer, outros mais castradores ou inibidos. Tem gente que escreve todo dia, tem quem passa anos sem escrever. Tem quem pegue no papel ao menor sinal de verso, e há quem recuse o gesto de escrever até ser insuportável não coincidir com ele. Todos esses (e muitos mais) podem ser poetas.

 

[R.C.]- Você acha que as palavras dão conta de expressar as imagens em seus poemas? "Lutar com palavras é a luta mais vã”, como diria Drummond?

[J.C.H]- Acho que a poesia tem a ver com uma caça e uma busca, mas não com a conquista da expressão. É um efeito, um artifício, não uma vitória. Tenho certeza de que os poemas são capazes de tudo, mas não nomearia isto como "dar conta" de algo. Porque na vida as contas nunca fecham, as experiências sempre transbordam. Já o verso do Drummond que você cita é lindo, e carrega um procedimento bastante comum nos poemas dele, que começam numa negação de impossibilidade e depois soltam o freio, se entregam. O mesmo poema continua dizendo que mal começa a manhã e já se está na luta de escrever. Esse tipo de tensão / distensão é presente na escrita drummondiana. Partir de um lugar de recusa para conseguir afirmar alguma coisa. Gosto da ideia de luta, mas não me sinto lutando quando escrevo, me sinto voando.

[R.C.]- Você acha que a poesia é política, ou as artes são políticas?

[J.C.H]- Acho que a relação entre a poesia e a política é histórica e não essencial. Quer dizer, alguns tempos históricos e contextos sociais exigem que essa ligação seja naturalizada, mas isto é um pressuposto de validação e também de demanda, como outro qualquer. No momento atual eu digo que sim, que a poesia é política. Vivemos um genocídio, até respirar é um gesto político. Mas existem muitas formas de fazer política em versos. Para mim, a grande urgência é sensibilizar as pessoas, meu engajamento é com isto.

 

[R.C.]- Como se dá o processo de composição dos seus livros?

[J.C.H]- Eu tenho cinco livros publicados e eles não tiveram o mesmo tipo de processo, cada um se escreveu de modo diferente do outro. Talvez o que seja comum é que eu aguardo até a minha sensibilidade sentir disposição para o texto acontecer, aí vou escrevendo. Chega sempre um momento que percebo que o que estou escrevendo começa a coincidir consigo mesmo, isto é, os poemas vão formando uma espécie de corpo comum. Então aos poucos vou reunindo um corpo de escritos num mesmo arquivo e conforme faço essa reunião reviso, reescrevo, seleciono, descarto. Com exceção de um livro meu que é em prosa ("O túnel e o acordeom"), passei pelo menos um ano somente revisando os poemas e fazendo a montagem dos livros antes de publicá-los. 

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[R.C.]- Você acha que a crítica contribui com as obras e/ou artista? Haveria, ainda, crítica nos dias de hoje?

[J.C.H]- Sim, ainda existe crítica, mas acho que são tantas inversões de paradigmas em curso que seria desonesto dizer que consigo explicar o papel da crítica, ou mesmo da poesia, ou da circulação editorial. Coisas do tipo: uma postagem de alguém influente em alguma pequena bolha do instagram certamente fará vender mais livros do que uma resenha num jornal de grande circulação. Talvez a crítica de poesia que mais me interessa na contemporaneidade seja a que escapa da explanação ou da validação. Acho que esses pressupostos da crítica querendo (des)legitimar a poesia sempre são precários quando se remetem ao contemporâneo. Isto em qualquer época. É aquela história: o contemporâneo é o escuro, é aquilo que não conseguimos ver. Acho que no contemporâneo a crítica que me interessa tende a ser a que mais trata os poemas como as formulações de conhecimento e interpretação que são. Temos muito o que aprender com os poemas. Mas isto falando dos vivos. Se pensar na crítica feita sobre textos de outros tempos, acho imprescindível. Porque a crítica nos ensina a ler e a historiografia crítica é um belo trabalho a se fazer pela literatura, sempre. Mas a crítica que quer validar ou deslegitimar qualquer coisa sendo escrita atualmente eu acho quase sempre risível, prepotente e datada. Mas isto não quer dizer que eu a considere inútil. É mais por ser impossível que alguém esteja conseguindo acompanhar a quantidade de coisas que são publicadas em poesia no Brasil hoje. É impossível transportar critérios de um tempo pré-digital para o que está acontecendo no mundo hoje. E acho recente demais para já ser possível compreender.

 

[R.C.]- Você acha que a poesia é retrato da realidade palpável ou ela faz parte do mundo intangível?

[J.C.H]- Acho que nem uma coisa nem outra. Não sei se essa divisão existe em si. De todo modo, acho que a poesia é uma prática do limiar.

 

[R.C.]- Você acha que há espaço para editoras independentes e artistas em um mundo com uma cultura massificada?

[J.C.H]- Sim, tanto no Brasil como em Portugal nunca publiquei um livro por uma editora que não fosse independente e estou aqui concedendo esta entrevista. E acho que o ponto é outro: as editoras e artistas independentes também já são massificadas. É muito comum escutar dos meus colegas editores independentes: mais gente os procura querendo publicar livros do que querendo comprá-los. Quem lê o tanto que se publica? Por que mais gente quer publicar do que ler? Isto também, já uma cultura de massificação.

 

[R.C.]- Você está preparando um novo livro de poesias? Pensa em escrever prosa?

 

[J.C.H]- Tenho escrito poemas, mas não sei se é exatamente um livro ou mais um procedimento de sobrevivência dentro da pandemia. Pela primeira vez em cerca de 15 anos não estou engajada com nenhum projeto de escrita. Mas talvez eu venha a publicar um pequeno volume ainda neste ano de 2021. Não sei. Quanto a escrever em prosa: sim, eu escrevo em prosa, mas não agora.