Linguagem e realidade: co-estrelando monstros

Por Luis Vieira

Inicio com uma confissão: esse título é um chamado bait, ou seja, um notório exagero em relação ao conteúdo desse texto com a intenção de chamar a atenção do ultra disputado público de leitores da internet. Amenizando os excessos, o título poderia muito bem ter se tornado “O processo de elaboração da realidade pela linguagem exemplificado com o auxílio da literatura fantástica”. Não tão bom, né? Muito longo e cansativo. Acho que podemos considerar um consenso a superioridade do bait. 

Em minha defesa, porém, afirmo que se por um lado o título oficial é evidentemente hiperbólico, não é de jeito nenhum mentiroso ou falso. Pois em síntese, o que procuro apresentar aqui é como usamos corriqueiramente a linguagem como aparato fundamental para lidar com a realidade, utilizando-a não meramente para traduzir e refletir o mundo ao redor, mas também para efetivamente construí-lo. E tentando tornar esse conteúdo mais acessível, decidi recorrer a exemplos literários oriundos de autores relacionados com gênero fantástico; daí os monstros.

 

Então, sem mais delongas, vamos começar pelo elemento base ao qual a realidade e os monstros girarão em torno: a linguagem. 

O verbo se fez carne... e realidade

O ser humano é incapaz de perceber e processar a realidade que o cerca em sua totalidade. Não conseguimos captar e aferir significado a tudo ao nosso redor. Nossos sentidos e mentes são limitados demais para isso. Além dessa impossibilidade de plena consciência, também nos é inviável lidar com o mundo de forma direta. Temos a necessidade de nomear e definir as coisas em nossos próprios termos culturais para interagir com elas; precisamos elaborá-las, humanizá-las, e, em grande parte, fazemos isso através da linguagem. Entender e lidar com o mundo pressupõe descrevê-lo e representá-lo linguisticamente.

Filósofos pré-socráticos como Anaxímenes, Xenófanes, Tales e Heráclito propunham respectivamente que ar, terra, água e fogo eram os elementos presentes em todos os momentos de todas as coisas. Mas dada a onipresença da linguagem para a existência de um mundo humano, não seria esta, esse tão procurado elemento universal? Provavelmente não, pois a linguagem não é parte integrante em si das coisas, mas uma criação humana com a qual revestimos o mundo para compreendê-lo e interagir com ele. E me servindo do outro elemento do meu título bait, os monstros, recorro ao escritor William Burroughs: “a linguagem é um vírus vindo do espaço” [1]. Vindo do espaço, pois, sendo exterior e estranho às coisas e à realidade em si, é alienígena. Vírus, pois se alastra com velocidade vertiginosa se reproduzindo e contaminando tudo quanto a vista e os nossos demais sentidos alcançam, permitindo-nos descrever, definir e elaborar, sejam objetos, conceitos, experiências, afetos, o visível, o invisível e o resto da imensidão inquantificável de coisas e fenômenos sob o firmamento. Portanto, não lidamos diretamente com mundo e nem com sua totalidade, mas com os aspectos dele já invadidos pelo vírus da linguagem.   

Mas o vírus também tem seus limites, ainda não infectou a realidade em toda a sua extensão. E assim como existem vírus e vírus, também existem linguagens e linguagens em imensa variedade. Evocando uma analogia darwiniana, cada linguagem parece estar melhor adaptada aos ambientes que ocupam. Alguns povos esquimós possuem cerca de 50 palavras para neve. Mais além, pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, reunindo um compêndio de palavras de dialetos escoceses haviam encontrado mais de 400. A partir de “snaw”, cuja tradução é neve, seguiram centenas de derivações como “skelf” (floco de neve grande), “sneesl” (momento em que começa a nevar e “snaw-ghast” (imagens formadas pela neve) [2]. Essa riqueza linguística aponta para uma grande familiaridade com o fenômeno de nevar em inúmeras matizes de experiências e elaborações que seriam estranhas, por exemplo, no Brasil, onde as palavras relacionadas a neve existem em número muito menor, já que por aqui, país de clima tropical, essas experiências e elaborações são escassas.

Definir e elaborar coisas com linguagem, em si, já é um ato de limitação e diferenciação, pois quando dizemos que algo é, automaticamente deixamos de fora tudo o que ele não é, incluindo – ou nesse caso excluindo - nuances que não percebemos ou consideramos, como, por exemplo, as diferenças de experiências em relação a neve entre escoceses e brasileiros. Diferentes linguagens, portanto, estão aptas para apontar coisas diversas. A realidade percebida através de dois sistemas de linguagem pode muito bem tornar-se duas realidades imensamente distintas. E dessa vez não precisamos mudar de continente e clima para exemplificar: o idioma pirahã, falado um povo indígena de mesmo nome no Amazonas, não possui palavras para números, isto é, não existe algarismos entre eles a ideia de algarismos. [3]

Vivemos em uma forma de organização social em que a divisão e a exatidão em medidas e mensurações recebem importância de primeira ordem. Rotineiramente, contamos e dividimos nosso tempo em segundos, dividimos o espaço em quilômetros e metros. São operações indispensáveis para nos organizarmos e tornar possível a vida à nossa maneira. Agora imagine não dispor de números? Conseguiríamos manter nossa relação com o mundo? Aliás, o mundo pareceria o mesmo sem essas possibilidades? Não, assim como uma realidade pré-disposta para ser medida, dividida e mensurada também é estranha aos pirahã, que simplesmente não a enxergam dessa maneira. Alguma dúvida de que a realidade percebida por eles é diferente da percebida por nós? E no centro dessa diferença de percepções, a variedade entre linguagens.

Os horrores que conseguimos ver são os que conseguimos expressar e criar

Mas nada como monstros para levar exemplos ao limite e torná-los mais instigantes. A obra do hoje cultuado escritor norte-americano das primeiras décadas do século XX, H. P. Lovecraft, tornou-se um marco na literatura de fantasia e horror ao apresentar em suas obras elementos e ameaças completamente estranhas à humanidade e sua experiência, incluindo um panteão de criaturas mais antigas que o próprio homem e verdadeiras donas da Terra. Nos contos lovecraftianos, a mera aproximação a esses terrores inomináveis aos homens era mais que o suficiente para destruir a mente de seus personagens, levando-os ao colapso mental, loucura e/ou suicídio. Era o resultado de encarar algo impossível, que não deveria existir, para o qual a mente não estava preparada e, por isso mesmo, inominável, e, portanto, indescritível e sem meios de elaboração pela linguagem. 

Em “O Chamado de Cthulhu”, provavelmente sua história mais famosa: “Deus do Céu! a espalhada plasticidade daquele inominável rebento sideral estava nebulosamente recompondo-se na sua execrável forma original” [4]. A descrição da criatura é vaga, não obstante sua ameaça seja bastante compreendida. A perseguição por um perigo não conhecido e entendido pelo homem é a tônica do horror de Lovecraft. E como retratar melhor essa falta de conhecimento e compreensão do que a ausência de meios de representar essas criaturas? Os pobres personagens demonstram que reconhecer e caracterizar minimamente algo passa por recriá-lo através da linguagem.  

O escritor argentino Jorge Luis Borges, ao prestar um tributo a Lovecraft escrevendo no mesmo estilo deste o conto “There are more things”, soube expor muito bem a relação entre perceber, recriar e expressar. À semelhança dos enredos do homenageado, o personagem de Borges acaba travando ao se deparar com a habitação incompreensível de uma criatura desconhecida. 

“A sala de jantar e a biblioteca de minhas lembranças eram agora, derrubada a parede divisória, um único grande cômodo desguarnecido, com um ou outro móvel. Não tentarei descrevê-las, porque não estou seguro de tê-las visto, apesar de impiedosa luz branca. Vou me explicar. Para ver uma coisa, é preciso compreendê-la. A poltrona pressupõe o corpo humano, suas articulações e partes; as tesouras, o ato de cortar. Que dizer de uma lâmpada ou veículo? O selvagem não pode perceber a Bíblia do missionário; o passageiro não vê o mesmo cordame que os homens de bordo. Se víssemos realmente o universo, talvez o entendêssemos” [5]

Para ver é preciso compreender, mas ao mesmo tempo, a compreensão pressupõe a definição e a descrição. Portanto, para ver é preciso representar e definir pela linguagem. E levando em consideração que a bíblia vista pelo missionário não é o mesmo objeto para o selvagem e o cordame da tripulação não tem a mesma definição - logo não é a mesma coisa - para o passageiro, pode-se dizer que ambos os objetos foram criados linguisticamente de modos distintos, apresentando-se por isso com elaborações diversas e percebidos de formas variadas. A linguagem, então, não se limita a traduzir um mundo de significado pronto e estático em um código compreensível. Em boa medida, ela também cria esse mundo e o significado dele com base nesse código. Por isso, ver a realidade, em algum nível, depende tanto dos sentidos quanto do poder criativo da linguagem.

Os monstros não vão me deixar mentir. Nos contos lovecraftianos, os seres humanos não veem ou percebem as terríveis criaturas e ameaças que povoam o mundo, a não ser quando finalmente são escancaradas à sua frente, levando-os ao iminente colapso justamente pela incapacidade de entendê-las e representá-las. Ou melhor, a maior parte dos seres humanos, já que “O Chamado de Cthulhu”, existe um culto secreto adorando a terrível besta.

“A estatueta, ídolo, fetiche, ou seja lá o que fosse, fora capturada alguns meses antes nos pântanos arborizados ao sul de Nova Orleans, durante uma batida a uma suposta reunião vodu, e os ritos a ela associados eram tão extraordinários e repulsivos que a polícia não pôde deixar de concluir que tinha topado com um culto demoníaco” [6].

 Mas por que alguns seres humanos suportam até mesmo cultuar esses seres hediondos quando a maioria simplesmente não suporta vê-los e nem sequer o conhecimento de sua existência? A resposta é Aklo. Como em boas sociedades secretas e conspirações, o culto de Cthulhu tem seus próprios textos e cantos ocultos, todos compostos em Aklo, uma língua velada. Logo, existe uma linguagem adaptada tanto para sustentar a existência desses demônios quanto para defini-los, descrevê-los, e, portanto, recriá-los em uma representação adequada, permitindo sua presença na realidade. Dois mundos, um humano e um governado por seres abissais, separados por uma fina membrana de linguagem.   

Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn

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Referências

[1] BURROUGHS, William S. A revolução eletrônica. Lisboa: Vega, 1994.

[2] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/10/escoceses-superam-esquimos-com-mais-de-400-palavras-para-neve.html

[3] https://www.xapuri.info/antropologia/piraha/

[4] LOVECRAFT, H. P. O horror em Red Hook. São Paulo: Iluminuras, 2007.

[5] BORGES, Jorge Luis. O livro de areia. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

[6] LOVECRAFT, H. P. O horror em Red Hook. São Paulo: Iluminuras, 2007.