O Natal das biXas será o maior do mundo

Por Fausto Gomes

A capa da revista não me chamava muita atenção por nada que não fosse seu conteúdo. Provocante, diferente, moderna, faltavam adjetivos para dizer o quão impressionado fiquei com ela. Mas outra coisa me chocou tanto quanto o seu conteúdo, fiquei impressionado com a data de sua publicação.

É uma capa cheia de força. Grita “Geni é a mãe” para a sociedade; grita “Homens Nus!” para a sociedade. Era esse o tom de luta da revista, de resistência. Querendo dar voz às minorias políticas, Lampião da Esquina foi o primeiro jornal homossexual brasileiro que circulou entre os anos de 1978 e 1981. Aproveitou a onda da mídia alternativa que surgiu após a abertura política de 1970 e o abrandamento da censura. É uma capa cheia de força que foi publicada em 1980!

Passados mais de quarenta anos dessa publicação, são notáveis os avanços das pautas homossexuais, hoje LGBTs, no mundo. Mas é espantoso como uma capa dessa ainda causa estranhamento. Nem sempre pelo seu conteúdo, mas pela ousadia. No fundo, acho que naturalizamos uma mídia preconceituosa e inquisidora, que mantém alguns ainda esses traços, e não conseguimos lidar com manchetes ou capas que apresentem “homens nus!” e não somente mulheres nuas nos seus destaques.

Também chama a atenção no jornal carioca as informações sobre os homossexuais em outros países, como na Argentina, por exemplo. A era da substituição de importações terminou em 1976, e nuestros hermanos sofreram uma inflação crônica que aumentou ao longo da década de 1980. Escassez de empregos e as altas dos preços flagelavam as famílias porteñas. Mas é preciso resistir. E em uma Buenos Aires em pânico, os gays resistiram. E resistem até hoje.

O uso dos termos “bixas”, “travesti” e até mesmo “gay” na capa do jornal pode ter colaborado para esse meu estranhamento. Nenhuma preocupação em generalizar, em recalcar a notícia na generalidade sem identidade do termo “homossexual”. Observando outras capas desse mesmo jornal não faltam exemplos da acidez, da força e da resistência de seus editores. Denúncias de homofobia, crimes raciais, festas gays e muita resistência marcaram o editorial dirigido por Darcy Penteado, Adão Costa, Aguinaldo Silva, Antonio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, Jean-Claude Bernardet, João Antônio Mascarenhas, João Silvério Trevisan e Peter Fry.

 

Passaram-se mais de quarenta anos dessa publicação e são miseráveis as mudanças estruturais que foram feitas a fim de criar uma sociedade que naturalizasse a diversidade sexual, identitária e de orientações sexuais. Mas é preciso resistir. Geni, não: mulher. Ainda não é a hora de parar de chocar. De chacoalhar a estrutura e tensionar o mundo para aquilo que sempre foi velado, oprimido e escondido. Talvez seja a hora de tomar conta não só do carnaval, que já é nosso, mas também de todas as outras festas. Inclusive e preferencialmente aquelas festas “de família”. Aí sim vocês vão ver o natal LGBT ser o maior do mundo! Maior até que o carnaval, já que até quem não cai na folia tem família.

revista coonectar

© 2020 por Coopernexus. Webdesign Matheus Meira, Bruno Andreoli e Livia Cucatto.

Aos leitores:
Os artigos publicados nesta revista não refletem necessariamente uma opinião da Coopernexus, já que somos um fórum de opiniões. A responsabilidade das matérias aqui publicadas é exclusiva dos membros da revista.