“O Gambito da RAinha”

Estados Unidos | 2020 | Netflix | Minissérie | Direção de Scott Frank

Por Andrés Navarro

Sessenta e quatro casas, trinta e duas peças, duas cores, um objetivo. O xadrez carrega consigo mais que um jogo ou um passatempo para desenvolver o raciocínio lógico. Como todo esporte, é um híbrido de ciência e arte. É um embate entre equipes, as peças se articulam em movimentos específicos para atacar e defender ao impor influências de posições sobre as demais. O objetivo é um só: atacar o rei adversário por meio de uma composição de peças, de maneira que este não possa se defender no movimento subsequente. Apesar de seu aspecto coletivo na simulação do enfrentamento de dois reinos com forças militares exatamente iguais, o xadrez é um jogo individual, pois o general dessa batalha é apenas um indivíduo: o enxadrista.

Ainda que tenha uma reputação de um esporte formal e sisudo, existem algumas iniciativas em tentar trazer o xadrez para um universo mais popular e acessível, respaldando-se em elementos mais humanos e psicológicos. Dentre elas, destaco a minissérie "O Gambito da Rainha" (Netflix, 2020), uma adaptação do livro homônimo de Walter Tevis.

A série narra a história de Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy), garota nascida na região central dos Estados Unidas, órfã e acometida por traumas de infância. No orfanato, ainda criança, Harmon conhece dois elementos que a acompanharão por todo decorrer de sua história: o xadrez e o vício em medicamentos. A protagonista evolui rapidamente no jogo (e no vício também!) e em pouco tempo se destaca como uma prodígio. A partir de então, a série retrata a rápida e impressionante ascensão de Beth como enxadrista e sua busca por títulos de torneios cada vez mais expressivos enquanto trava batalhas paralelas com seu vício e problemas pessoais.

Ambientada nos anos 50, sob o panorama político da Guerra Fria, a história de Beth Harmon é fictícia, mas bastante verossímil. É possível estabelecer paralelos entre os eventos da série e alguns acontecimentos históricos do século XX. Com o cenário político mundial dividido entre as nações do bloco capitalista no ocidente e do bloco socialista na Europa oriental, a série projeta em Harmon a representante do ocidente para interromper o domínio soviético no xadrez, que, para além da disputa no jogo, implicava na disputa de hegemonia de um regime político sobre o outro. O exemplo histórico que mais salta aos olhos é a disputa entre Bobby Fischer e Boris Spassky pelo título mundial de xadrez de 1972, com a prevalência do norte-americano. Esse enfrentamento foi largamente coberto pela mídia e seu desfecho representou muito mais que a conquista máxima de um esporte. Fischer manteve seu título até 1975, quando abandonou o jogo no auge de sua forma. Tal como Harmon, Fischer era, além de um excelente enxadrista, acometido por uma série de distúrbios psicológicos. Ademais, enfrentou problemas com o governo norte-americano, levando-o a uma vida de reclusões, exílio político e raras aparições públicas.

Outro aspecto que vale ressaltar é o gênero da protagonista: uma mulher. Por mais que a série não explicite debates de natureza feminista, essa questão tangencia os eventos da narrativa e apresenta um retrato de época bastante condizente com os papeis sociais exercidos por homens e mulheres nos Estados Unidos dos anos 50 e 60. Como mulher, Beth renuncia, de certa forma, ao seu papel protocolar na sociedade americana em busca do objetivo de se tornar a melhor enxadrista que conseguir e de se sustentar exclusivamente de um esporte de amplo domínio masculino. Ao acompanhar a série, é possível reconhecer que Harmon se inscreve em campeonatos que apenas os homens participavam. Não há uma regra explícita proibindo a participação de mulheres, mas o acordo tácito está posto. A protagonista rompe essas barreiras e, dessa forma, coloca em pauta o direito de decidir seus próprios movimentos, dentro e fora do tabuleiro.

" O Gambito da Rainha" é uma minissérie de 7 episódios que levará os espectadores à empolgação que permeia o xadrez e os conflitos da protagonista, sem muitos rodeios e conflitos laterais que não sejam relevantes à narrativa principal. No fim das contas, dá até vontade de jogar uma partida.

 

“JOsep”

França, Espanha, Bélgica | 2020 | Longa-metragem de animação | Direção de Aurel

Por Fausto Gomes

Josep Bartolí nasceu em 1910, em Barcelona, e muito cedo começou a trabalhar como ilustrador em um jornal local. Não demorou muito para que o desenhista se juntasse ao sindicato barcelonense. Com um pouco de certeza, imagino que essa tendência ao sindicalismo possa ter influenciado fortemente sua trajetória de vida.

Visto muitas vezes como guardião da batalha de uma geração de espanhóis abalada pela brutalidade do franquismo, também é bastante conhecido pela sua relação afetiva com a artista mexicana Frida Kahlo. Uma vida dessas seria uma fonte de inspirações artísticas para qualquer um.

Efoi justamente um companheiro de profissão, Aurélien Froment, conhecido apenas como Aurel, que resolveu transformar um capítulo da vida de Bartolí em uma animação de tirar o fôlego! Prepare o coração e a alma para a “Josep”, cujo enredo retrata os anos em que o ilustrador passou exilado em um campo de concentração Francês. A própria estética do longa em muito lembra os traços de Bartolí.

Fugidos do regime de Franco e da guerra civil, muitos espanhóis buscaram abrigo na vizinha França. Mas lá não havia pães nem cafés postos à mesa e os exilados foram colocados em campos de concentração e tratados brutalmente pelo exército francês. Nesse período, Bartolí retratou essa realidade em muitos desenhos, tornando-a uma marca de sua arte.

Conhecido nas galerias como cronista do exílio, Josep Bartolí exibe em seus desenhos a dureza dos campos de concentração e a solidão de uma vida quase sem esperança, mas com muita memória. E muitas das cicatrizes que estão em seu portfólio são reconstruídas na narrativa recriada por Aurel.

Não só vale muito a pena assistir o longa de animação, mas também é imperativo que entusiastas do tema, cartunistas e pessoas que valorizam a história ocidental experimentem essa experiência minimalista que funde memória, arte e poesia em um contexto de guerra, solidão, saudade e ódio.

Conhecer a produção de Bartolí antes de assistir à animação enriquece a experiência do longa, mas assistir ao longa sem conhecer a obra de Bartolí enriquece ainda mais o primeiro contato com sua obra. Foi assim comigo e achei fantástico. Tenho certeza de que irá encantar a vocês também.

 

“O Segredo dos seus Olhos”

Argentina, Espanha | 2009 | Longa-metragem | Direção de Juan José Campanella

Por Livia Cucatto

Não é por acaso que o filme “O segredo dos seus olhos” tenha ganhado inúmeros prêmios, sobretudo, o de melhor filme estrangeiro em 2010. A narrativa, em princípio, assemelha-se a uma tradicional, com crime, suspense, algum romance, amizade. Tradicional, mas muito bem amarrada. Porém, o que faz esse enredo ser poeticamente coerente e de uma verossimilhança transcendental (interna, externa, interplanetária...) são os olhos - à luz da linguagem não-verbal – e a “paixão” – sob a perspectiva discursiva.

Já diziam os poetas – até mesmo aqueles que não sabem que o são - que os olhos são a janela da alma. Alguns dizem que os olhos claros, cristalinos, entregues, assustam pela verdade implacável que transparecem; os escuros, misteriosos e instigantes, são invadidos por olhares que buscam incessantemente respostas na imensidão do escuro. Verdades e segredos se conversam na troca. É nessa atmosfera poética, já descortinada no título, que o filme “O segredo de seus olhos” se faz poema. E como todo poema, livre em si, e para quem dele se apropria, não faltam sentidos a ele atribuídos. Nesse contexto, discorro um pouco sobre aquele que em mim repousou.

Para onde se olha, há poesia. Já no começo, as insônias de Benjamín Esposito, personagem vivido pelo famoso ator argentino Ricardo Darin, combinam-se a um bloco de notas, na cabeceira da cama, em que a palavra “temo” é escrita. Esposito está escrevendo um romance baseado em um crime que o marcou, o perturbou e ao mesmo tempo o libertou depois de mais de 20 anos para viver um amor, que fora apenas de olhos, ao lado de sua ex-chefe, Irene.

A narrativa volta no tempo e o estranho assassinato de uma jovem professora, Liliana Colotto, é contado. Os olhos entram em cena novamente como um elemento determinante para a identificação do assassino: ao olhar álbuns de fotografias da vítima, Esposito percebe a presença constante de um rapaz que sempre está a olhá-la com olhos de obsessão, talvez uma forma negativa de paixão.

E é um outro tipo de paixão que faz o marido dela, Morales, ir todos os dias, durante anos, à estação de trem de Buenos Aires com a esperança de encontrar o assassino. A paixão por uma mulher, a paixão por encontrar o culpado, a paixão como sentimento forte, fogo, agente, ativo e duradouro – ao contrário do que se diz. E por ser tudo isso, é que se chega ao criminoso de Liliana Colotto – Isidoro Gómez, um namoradinho de infância.

Pablo Sandoval, parceiro de departamento de Esposito, é um apaixonado pela boemia: bar, amigos e bebida – e muita. Ele diz um dos trechos mais belos do filme. Em minhas palavras é mais menos assim: o ser humano pode mudar de casa, de emprego, de marido, de país, etc. Só não pode mudar de paixão. A paixão nos acompanha a vida toda e é a presença/ausência dela que nos move ou nos paralisa. E por meio de cartas roubadas pela dupla ao invadir a casa da mãe do criminoso, eles descobrem que Gómez era apaixonado pelo time de futebol Racing.

Ele chega a ser preso, mas é solto por Romano, inimigo de Esposito e funcionário corrupto, que paga a fiança, liberta-o um mês depois e o contrata como um assassino de aluguel para a facção de direita do Partido Peronista, para assim, conseguir vingança de Esposito. Gómez, então, passa a ameaçar Esposito que é transferido para outra cidade.

Irene casa-se e forma família, Esposito vive uma vida exilada, Morales segue procurando o assassino de sua esposa. E Pablo? Além de protagonizar o melhor texto da história, ser fundamental para chegar até o assassino, é ele - o alcoólatra desenganado - que comete o maior ato de amor – não paixão – do filme.

Muitos anos depois, Esposito retorna a Buenos Aires e contata Irene para que leia seu romance. Essa escrita revela como Esposito carrega inquietudes, sobretudo pelo fato de não terem prendido Gómez e lhe dado a prisão perpétua que ele prometera a Morales. Por isso, ele busca pelo viúvo de Liliana Colotto e descobre que ele havia aprisionado Gómez em um sítio distante – a prisão perpétua que ele tanto queria. Depois disso, o personagem de Esposito tem uma espécie de redenção, que pode ser representada pela inserção da letra “a” no bloquinho de notas ao lado da cama: “temo” – “te amo”. O “a” que sempre faltou na máquina de escrever que utilizava, agora não falta mais e ele encoraja-se e consegue finalmente deixar transparecer em seus olhos a paixão por Irene.

“O segredo dos seus olhos” também nos traz o lado sombrio e dependente da paixão, mas, ao mesmo tempo, nos convida a refletir sobre a beleza – extremamente subjetiva – que é levar a vida apaixonado por algo: a beleza de não ter uma vida vazia, uma vida sem paixão.

 

“O Anjo Exterminador”

Por Luis Vieira

México | 1962 | Longa-metragem | Direção de Luis Buñuel

A nada discreta bestialidade da burguesia

Imagine-se preso em casa enquanto o mundo conhecido até então parece fraturar-se além de qualquer remendo. As convenções, os valores e a própria civilidade escorrem pelo ralo, como frágeis mentiras descamadas, na medida em que a barbárie, o ódio, a exploração do homem pelo homem e a irracionalidade se apresentam como os verdadeiros pilares da vida social. Descrição do Brasil da pandemia ou sinopse de uma ficção surrealista? Ambos. Pois além de contemplar o desolador cenário do país, nos últimos 12 meses, essas linhas iniciais também convergem com o enredo do clássico cinematográfico O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, lançado em 1962 e marco do surrealismo.

Na trama, acompanhamos vinte abastados e distintos representantes da elite burguesa mexicana em um jantar de gala. Conforme a reunião se estende, os convidados permanecem na casa até a madrugada e acabam dormindo todos na sala. O que parecia apenas um curioso impulso de espontaneidade coletiva revela-se, na manhã seguinte, uma inexplicável impossibilidade de deixar o cômodo, como se uma força externa e maior os mantivesse presos ali contra suas vontades. É a partir dessa fantástica premissa que acompanhamos o grupo em sua derrocada civilizacional conforme suas necessidades básicas são cada vez mais negligenciadas pelo ambiente hostil do cárcere.

Os outrora refinados expoentes sociais veem sua educação, cultura, valores e distinções desintegrarem, ao serem continuamente reduzidos a fome, sede, desespero e raiva. Essa nata, não obstante seu prestígio, se revela incapaz de se organizar, agir e produzir coletivamente uma solução, tendo seu desamparo ainda mais acentuado uma vez que a mesma força que os prendeu no salão, impeliu os empregados a irem embora na noite anterior. A elite está por sua conta, sem poder recorrer ao trabalho alheio.

Tem início a competição entre pequenos grupos pilhando como animais famintos os recursos que conseguem extrair do ambiente. O senso de coletividade se mantém débil, enquanto o individualismo empurra os personagens para uma contenda de cada um por si. Paredes logo são quebradas para que se dispute a água do encanamento e a mobília é destruída para alimentar fogueiras. Ou seja, o ambiente é degradado de forma tão predatória quanto se faz com recursos naturais do planeta em nome do lucro e da competitividade. Nada que possa ser destruído escapa da fúria do grupo. Em cena tão devastadora quanto emblemática, um manso rebanho de ovelhas adentra o salão para ser devorado de forma insaciável e avarenta.

E nesse momento, nem a clivagem entre os burgueses mais agarrados a civilidade perdida, com uma postura mais progressista e os entregues aos instintos animalescos faz muita diferença, pois o modo como as ovelhas são abatidas, comidas vivas ou abatidas com certa cerimônia, não mudam o seu destino. Os trabalhadores brasileiros que o digam, pois bastou a pandemia para elite faminta e ameaçada em seus lucros atacá-los como lobos se jogando sobre ovelhas. Entre o desdém de Roberto Justus para com as mortes em nome da produção, o pedido do prefeito de Porto Alegre para que as pessoas doem sua vida para salvar a economia local, a grotesca indiferença do presidente da República e a retórica da volta às aulas pela educação das crianças, as vidas dos trabalhadores são, na realidade, sacrificadas em prol da manutenção da acumulação de lucros, a razão de ser dessa classe desmascarada pela força das circunstâncias.

Assim como o COVID-19, força misteriosa que age sobre o grupo preso no salão parece ter surgido de algum lugar exterior às relações sociais, quase como intervenção divina, o anjo exterminador do título. É o que Buñuel dá a entender logo no início do filme quando fecha o quadro no nome da rua que abriga a casa: Rua da Providência. Seja então ou a providência divina ou o COVID-19, as forças e a distribuição de poderes sociais são alteradas, ameaçando a base de poder da elite. A partir daí, os discursos serenos e agregadores dessa classe se desfazem, se tornando grosseiros borrões e manchas de barbárie. A maquiagem humanista de um glamuroso ontem degrada-se em horrendos borrões decorando a monstruosidade desnuda da ressaca de hoje, revelando o que antes estava encoberto por aquela perfumaria: exploração, menosprezo e selvageria.

Após um ano de pandemia, quando o verniz de civilidade da elite brasileira não mascara mais sua disposição ao abuso e sua indiferença para com a vida dos explorados, assistir O Anjo Exterminador provoca uma aflitiva sensação de familiaridade. O fato da sobreposição entre a realidade e um filme surrealista ser tão nítida, aponta para a alarmante conjuntura que vivemos. Mas, ainda assim, nos olharmos como sociedade no espelho da ficção pode nos revelar detalhes, contornos e mecanismos fundamentais que nos escapavam à nossa vista viciada.

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