a emergência de Coletivos negros na academia branca: o que muda?

Por Ingryd Lo Tierzo

 

Meu ano de ingresso na universidade pública foi repleto de novas amizades, vivências e aprendizados. Contudo, sempre senti que faltava alguma coisa, que, até então, não sabia o que era. Com o passar do tempo, mesmo observando todos à minha volta muito animados com as inúmeras organizações extracurriculares presentes ali, eu não sentia a mesma euforia. Não me identificava e não achava que naquelas organizações eu encontraria o meu lugar. Foi então que em meados de setembro de 2018, após uma palestra do Centro Acadêmico de Administração Pública sobre a má implementação da lei 10.639, que diz respeito a introdução de ensinamentos afro-brasileiros no ensino básico, todos os alunos que se uniram para falar com a palestrante eram negros. Surgiu então  naquele momento uma nova iniciativa, diferente de todas as outras já vistas, no campus, por toda a comunidade acadêmica: o Conexão Preta. Isso mesmo! O primeiro coletivo negro da Unicamp de Limeira que foi apresentado nas redes sociais e despertou meu interesse de imediato. Percebi que era exatamente “aquilo” que faltava e que era “daquilo” que eu queria fazer parte. A primeira palestra organizada pelos alunos que deu início a essa iniciativa maravilhosa, foi sobre racismo linguístico e aconteceu no último dia de aula do semestre e, ao final dela, fui conversar com os organizadores dizendo que havia adorado, e o quanto gostaria de fazer parte desse coletivo negro que mal havia começado.

 

Com a proposta inicial de conectar as poucas pessoas pretas do campus universitário da Unicamp d Limeira, foi com o coletivo que eu compreendi o significado de ser negra no último país que aboliu a escravidão do mundo ocidental. Foi onde eu percebi que diversas situações que eu já passei durante minha vida foram racistas. Foi onde percebi com mais clareza, a problemática de alguns comportamentos tão enraizados na sociedade. O Conexão Preta foi o espaço que me despertou e desperta constantemente inúmeros incômodos, e todos eles necessários e responsáveis pela minha constante construção pessoal. E hoje, após dois anos de construção do coletivo, mesmo ainda não sabendo ao certo qual rumo gostaria de seguir quando me formar, tenho a causa racial centralizada em meus objetivos e fico muito feliz por estar fazendo parte desta constante e importante construção num ambiente universitário majoritariamente branco. 

A partir disso, o que muda? Mas este movimento acontece há mais de 10 anos por todas as universidades estaduais e federais que implementaram, desde 2003, a política de cotas raciais. Eu pude e estou vivenciando de perto as mudanças que coletivos negros trazem para a universidade em todos os seus âmbitos, principalmente estruturais. Nesse sentido a abertura do debate racial com a inserção da população negra no ambiente acadêmico se faz fundamental para que possamos ter uma sociedade mais igualitária no futuro, a partir da luta por ações afirmativas no presente. Contudo, para o povo preto, nunca deixa de ser desafiador estar em um ambiente branco, principalmente academicista quando fomos, e somos até hoje, tratados como objetos de estudo e não como protagonistas de nossa própria história. É nítido o despreparo de alunos e professores brancos para ter esses debates que, por sua vez, devem ser arrancados dos espaços em que estamos ocupando. 

Nesse sentido, o Conexão Preta, tal como os demais coletivos que surgem nesse ambiente acadêmico, tem como objetivo construir um espaço para estes alunos discutirem e reivindicarem seus direitos de permanência e protagonismo, sempre promovendo a igualdade racial e desconstruindo as estruturas racistas. Um grande exemplo disso foi o forte apoio dado durante a construção e todo o processo de implementação de cotas raciais também nos colégios técnicos da Unicamp, sendo esse apenas o início da luta para um ambiente mais igualitário dentro dessas escolas.

 

É dentro desses espaços que a inserção da população negra corrobora a construção de projetos e políticas de ações afirmativas inclusivas, tais como a Comissão Assessora de Diversidade Étnico-Racial da Unicamp, organizada por alunos e professores negros da universidade, uma vertente muito necessária da Diretoria Executiva de Direitos Humanos. Ela promove de forma institucional um ambiente mais justo, igualitário e sem racismo, mas que foi criada e fomentada somente após o período de greves em prol da implementação da política de cotas raciais. Outro exemplo de organização estudantil criada para atuar especificamente na atual conjuntura em que estamos vivendo é o Grupo dos Estudantes Negres do EAD, que promove o debate acerca de soluções para minimizar os impactos causados pela pandemia do COVID-19 nos estudantes negros da Unicamp.

Para além do ambiente universitário, o coletivo também se sente responsável por conversar com entidades da cidade para construir projetos e lutar por igualdade também na comunidade civil de Limeira, onde estamos inseridos e ocupamos um espaço muito privilegiado. Nesse sentido, há o cursinho popular Colmeia, localizado bem próximo da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, em que os alunos da instituição são os professores do cursinho.

Por fim, gostaria de salientar o fato de coletivos negros serem acima de tudo uma rede de apoio fundamental. É um espaço de acolhimento para aqueles que também não se identificam com a branquitude havendo uma rica troca de experiências, relatos pessoais e aprendizados para nos formarmos também como cidadãos negros, independente da profissão que desejamos seguir. O período de graduação é um dos mais importantes e marcantes na vida das pessoas, principalmente quando esta pessoa é negra, e muito provavelmente está sendo a primeira de sua família a ingressar no ensino superior. É neste espaço, em que tanto amadurecemos, que passamos a ter um olhar crítico para as situações que nos cercam cotidianamente, sendo fundamental romper silêncios, despertar incômodos, principalmente de pessoas não negras, e nos unir para que estejamos prontos para encarar os desafios que nos esperam e construirmos uma sociedade mais democrática, pautada nos fundamentos antirracistas que aprendemos durante nossa jornada, que é breve para alguns mas tão necessária dentro da universidade pública.

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Estudante de administração pública pela Unicamp, co-fundadora do Coletivo Conexão Preta, engajada nas lutas pelas igualdade racial e nas horas vagas leio HQs.