Poesia & Luta [do RAP ao Slam]: os protestos em verso conquistando o universo

Por Luana Teles e Renato Tião

Ritmo e poesia na cultura Hip Hop

O Hip Hop se manifesta em diversas parte do mundo, inclusive no Brasil. Trata-se de um movimento cultural e uma verdadeira filosofia de vida.

Filosofia esta que expressa as vozes artísticas, as danças, a realidade cotidiana, e as reivindicações das periferias.

Composto por 5 elementos essenciais (o RAP, o grafite, o break, o DJ e o conhecimento), as primeiras manifestações que deram origem ao Hip Hop surgiram no Bronx, em Nova York, por volta dos anos 70.

 

O RAP (do inglês "Rhythm And Poetry - Ritmo e Poesia) é um dos elementos centrais do Hip Hop e se manifesta dentro e fora desse movimento cultural. Um grito potente, poético e ritmado que não busca apenas ser ouvido ou servir somente de entretenimento. O RAPvai além, quer ensurdecer, quer despertar e fazer pensar para promover mudanças. 

 

As letras de RAP são poesias cheias de críticas sociais e que denunciam as violências, as negligências e o abandono do Estado em relação à população pobre, periférica e majoritariamente negra espalhada pelas comunidades do Brasil. O RAP é um gênero musical em que as letras além de expressarem toda a poesia ritmada têm um papel a cumprir: fazer o ouvinte entender de forma acessível a realidade que o rodeia e, a partir daí, desenvolver consciência principalmente de classe, de raça e de papéis sociais.

 

A música “Canção Infantil”, lançada em junho de 2019 pelo cantor e compositor César Mc, faz uma reflexão poética e crítica ao contexto de violência a que crianças das periferias estão expostas. Utilizando-se de metáforas que descrevem diversas situações do cotidiano das comunidades, o rapper as relaciona com histórias, contos, músicas e brincadeiras infantis:

"Eu brincava de polícia e ladrão um tempo atrás

Hoje ninguém mais brinca, ficou realista demais

As balas ficaram reais perfurando a Eternit

Brincar nós ainda quer, mas o sangue melou o pique

O final do conto é triste quando o mal não vai embora

O bicho-papão existe, não ouse brincar lá fora

Pois cinco meninos foram passear

Sem droga, flagrante, desgraça nenhuma

A polícia engatilhou pá, pá, pá, pá

Mas nenhum, nenhum deles voltaram de lá

Foram mais de cem disparos nesse conto sem moral

Já não sei se era mito essa história de lobo mau." - Canção Infantil, César Mc part. Cristal

 

Vídeo Clipe de "Canção Infantil", César Mc part. Cristal:

https://m.youtube.com/watch?v=Ri-eF5PJ2X0

Os cantores e as cantoras de RAP são conhecidos/as como MCs ("mestres de cerimônia") e colocam em suas letras,  versos e  rimas, histórias que não são contadas em outras vertentes da música. 

 

Em outra letra muito significativa, sendo sua primeira música após conquistar o título de campeão do Duelo Nacional de MCs de 2017, César MC aponta o genocídio da população negra, principalmente dos jovens, um dos maiores problemas sociais e de segurança pública do Brasil.

 

"Viatura 'tá quase Uber, mas não é vantagem

Pois quando a pele é escura mano nada cancela essa viagem

Ainda somos mira, alvo e ira Educação? Gorjeta

Onde a bala perdida sempre acha a pele preta

Coincidência? Estranha essa treta

Tiros de borracha apagam histórias de quem nem teve caneta.

[...]

O Mc que nunca ri, desabafando, enquanto os verde e amarelo as ruas vão decorando

Até queria essa alegria de ver a copa chegando,

mas não dá pra pintar rua que ainda tem sangue dos meus mano."- Quem tem boca vaia Roma, César MC.

 

Vídeo Clipe de "Quem tem boca vaia Roma", Cesar Mc:

https://m.youtube.com/watch?v=or43G_BMPc4

 

Na poesia presente no RAP encontramos histórias reais de resistência cotidiana daqueles que são esquecidos diariamente. Contos daqueles que mesmo antes de serem capazes de segurar uma caneta têm suas histórias apagadas para sempre.

 

As rodas culturais e as batalhas de rima estilo livre (FreeStyle)

Símbolo de resistência nas ruas e de ocupação do espaço urbano pelo movimento Hip Hop, as rodas culturais são um componente importante no cenário do RAP nacional.

 

No contexto social brasileiro a cultura e o lazer não são proporcionados aos moradores da periferia, tal como deveriam. Falamos de uma realidade em que os corpos que habitam as comunidades são constantemente considerados como meras máquinas a serviço do trabalho alienante e exaustivo.

 

As rodas culturais quebram as barreiras impostas nesse panorama. Seguem o lema "nós por nós" tornando-se verdadeiros espaços de acesso à cultura, de estímulo à  criatividade e de fomento à poesia.

 

Nas rodas culturais de RAP a atração principal é a batalha de rima, competições em que os/as MCs participantes mostram suas habilidades no FreeStyle (estilo livre) e muita criatividade ao construírem rimas na hora. 

 

O FreeStyle valoriza, além do improviso, a capacidade de se adaptar aos mais diversos temas e aos diferentes beats (base musical que o/a Mc deverá acompanhar para fazer as rimas). É preciso raciocinar com agilidade.

 

A rapper Winnit também vem conquistando cada vez mais espaço na cenário musical deno RAP nacional. Em grande parte, devido ao seu imenso talento e habilidade de se expressar com firmeza, ritmo e muito sentimento.

 

Destaque na cena de batalhas, em que trilhou um brilhante caminho com várias rimas criativas, fortes e marcantes que lhe renderam diversas vitórias:

  • Redbull francamente 2018

  • Battle Force 2018

  • Redbull Mano 2019.

  • Festival sons da rua 2019

  • Batalha do conhecimento 2019

Na batalha do conhecimento realizada no Rio de Janeiro, palavras aleatórias são escolhidas podendo estar interligadas ou não a um tema específico. Os/as Mcs devem, então, desenvolver seus versos improvisando com as palavras que receberam. 

 

Na edição da batalha do conhecimento de 2019, Winnit foi a grande campeã. A artista demonstrou ser muito habilidosa e criativa desenvolvendo rimas improvisadas e bem construídas. Ao receber as palavras "transporte público, balança, perícia, sagacidade, equilíbrio e gênero", ela desenvolveu ótimos versos em menos de 1 minuto.

 

"Transporte público deve ser igual no Rio e em SP

Por isso eu coloco essa pauta na balança 

O transporte é público, só que não é pra você 

Que vai só apertado e sem cinto de segurança

Então, eu tenho a perícia na delícia do que é fazer meu RAP

E a sagacidade de onde eu venho, minha localidade

É todo lugar do mundo, eu não julgo ela por CEP

E agora eu tenho o equilíbrio do meu gênero

Efêmero, por isso eu utilizo o raciocínio 

Cê sabe o que significa equilíbrio de gênero?

Você olhar pra mim e dizer é menina ou é menino?

Sabe o que sou? Eu falo e não demoro

Não é menina nem menino, Winnit é ser humano!"


Compilado de rimas da Winnit:

https://m.youtube.com/watch?v=S6wTZV01DUg&t=945s

(As rimas citadas começam no minuto 4:15)

As rimas feitas no contexto das batalhas seguem uma lógica e  ritmo próprios. O tempo limitado exige que sejam desenvolvidas de modo rápido e mais direto. Mas nem por isso perdem sua força poética e os versos de Winnit não deixam dúvidas disso.

 

Na música, Winnit elevou suas rimas e versos a outro nível. Com mais tempo para pensar, construir e escolher as palavras que melhor expressam seus sentimentos, suas novas letras de RAP apresentam ao público um outro lado da artista. Embora mantenha as vertentes críticas das batalhas, Winnit nos apresenta mais musicalidade e versos mais elaborados. Isso sem a pressão da plateia, dos jurados e sem o tempo restrito que se encurtava a cada rima.

 

A música "14 de março", feita em parceria com Stella Yeshua, é uma bela e potente representação do que são ritmo e poesia. A letra  se inicia denunciado o preterimento de mulheres negras que não se encaixam em aparências padronizadas. Além disso, os versos perpassam com muita competência  outras temáticas como racismo, violência policial e desigualdade social.

 

“Não tem mais preconceito, usar black tá na moda

Porém somos o alvo do descaso e da rota [...]

O racismo é institucional, certeza, ouve a canção 

Branco correndo é atleta, preto parado é ladrão. ”  -  “14 de Março”, Winnit part. Stella

 

As batalhas são um ambiente de celebração da arte e da cultura, de troca de experiências, de musicalidade e de poesia que revelam grandes talentos do RAP (Emicida é um grande exemplo) e do Hip Hop.

 

Nas ruas e praças espalhadas pelo Brasil, adolescentes, jovens e adultos das periferias fazem suas poesias e mantém viva a essência da cultura hip hop. Esses artistas continuam os passos dos ancestrais ao mesmo tempo que constroem novos caminhos para reafirmar que o RAP, além de gênero musical, é educação, conscientização e resistência!

 

Música "14 de Março", Winnit part. Stella Yeshua:

https://m.youtube.com/watch?v=3BVdm14baQ4


 

O fenômeno do Slam

O Slam é um movimento literário de poesia livre e revolucionária, que rompe com as tradições da norma culta, da métrica e da rima.  A poesia é declamada ao público na forma de um campeonato que atrai principalmente a juventude.

Realizadas em locais públicos e aceitando a participação de qualquer pessoa, essas competições de poesia  consolidaram-se como um importante espaço de fala e escuta da juventude periférica. 

Há muitas diferenças entre as batalhas de rima o Slam, como o fato de não haver improvisação ou qualquer tipo de sonoplastia neste último. No Slam, os participantes chegam com as poesias prontas, as apresentações são normalmente bem ensaiadas e não há necessidade de se encaixar em algum ritmo ou batida específica. Quem participa tem total liberdade para declamar seu poema, podendo até levá-lo por escrito em papel ou mesmo usar o celular para lê-lo na hora.

O movimento surgiu na cidade de Chicago, mais ou menos no início da década de 1980, mas só chegou ao Brasil em 2008, quando na cidade de São Paulo foi criado o ZAP! (Zona Autônoma da Palavra). A responsável pela iniciativa foi a pesquisadora, produtora, atriz e poetisa Roberta Estrela D’Alva.

Até o final de 2019, o país já contava com centenas de grupos de Slam espalhados por 20 estados. Há campeonatos municipais, regionais e estaduais. Os vencedores garantem vagas para o Slam BR, campeonato brasileiro de poesia falada, que é realizado anualmente em São Paulo. Lá são selecionados os representantes do Brasil na copa do mundo de Slam disputada em Paris.

O documentário longa metragem “SLAM: Voz de Levante”, dirigido por Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D'Alva, registra o crescimento do movimento no território brasileiro ao longo dos 7 anos em que o filme levou para ser produzido. 

Vaja o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Yo5DBjMz6Nc

As regras gerais de um Slam são as seguintes:

  1. As poetisas e os poetas devem apresentar poemas que sejam de sua autoria.

  2. Não há restrição em relação aos temas ou estilos da poesia. A única exigência é que sejam apresentadas em um período de até 3 minutos. As apresentações são cronometradas e quem ultrapassa esse limite em mais de 10 segundos é penalizado na pontuação. As poesias podem abordar qualquer tema.

  3. Não é permitido o uso de trilhas sonoras nem de objetos cênicos. Cada participante se apresenta com as roupas que usam no dia a dia.

  4. O júri deve ser formado por 5 ou 6 pessoas que não sejam do círculo de amizades de quem participa da competição. As notas atribuídas às performances variam de 0 a 10 e a não há como recorrer às pontuações.

O número de participantes classificados para cada etapa da competição pode variar de acordo com o número de inscritos.

Embora a escolha da temática dos poemas seja livre, a grande maioria das poetisas e poetas que competem no Slam aproveitam esse espaço cultural não elitista para abordar críticas sociais. O racismo, o feminismo, a violência e a marginalidade são os temas que se entrelaçam na grande maioria das performances. Isso leva o público a uma autêntica experiência de reflexão pessoal e conscientização política.

Por ser capaz de caracterizar a realidade em torno de cada indivíduo as batalhas de rima convidam o ouvinte a mudar sua atitude em relação a esta realidade.

A recorrência desses assuntos já havia se consolidado décadas atrás, sob forte influência do Hip Hop. Desde o início do movimento criado pelo poeta e operário da construção civil Marc Kelly Smith, o Slam fixou-se com um polo de luta da classe trabalhadora e dos setores oprimidos da sociedade.

Uma característica marcante do Slam no Brasil é a grande participação das mulheres que aos poucos foram conquistando seu espaço e dominando as premiações. 

De acordo com a poetisa do distrito federal Nega Lu (foto), geralmente as mulheres não são bem vindas nos espaços. Quando isso acontece é por motivo de pegação ou namoro, mas sempre como coadjuvantes. Já no Slam ela sente que é protagonista no cenário.

Além de se apresentarem em público, as poetisas do Slam ganharam espaços em editoras publicando livros que permitem divulgar sua arte para além dos espaços de competição.

Jessica Campos é uma jovem poetisa da zona sul de São Paulo, que também atua como educadora no cursinho popular Carolina de Jesus e como organizadora do Sarau do Capão.

Sua poesia direta arrebatadora pode ser apreciada no livro “Transcrevendo a Marginalidade”, publicado em 2020 pela editora Quirino.

Nas palavras de Gabriely Leite, que escreve o prefácio, o livro traz histórias de pessoas reais com dores e amores. Gente que sofre com o preconceito e a desigualdade, mas que também ama, goza, bebe e brinda à vida.

Alguns dos poemas tratam da militância, da violência contra a mulher, contra o pobre e contra o preto. A genialidade dessa garota vai ao ponto de conseguir transformar até estatísticas em versos.

Dizem que o termo Slam vem da sonoridade de uma porta batendo, mas no caso da Jéssica parece que vem de um tapa na cara dos machistas, dos racistas, dos homofóbicos e da preconceituosa classe burguesa. Veja um trecho do poema “Não é Guerra, é Genocídio”:

 

“... Não fumaria um beck toda manhã pra entrar nas função

Não roubaria sua casa, se a família dele lhe desse atenção

Mas pera, a mãe dele tá ocupada limpando a porra da sua mansão

Cuidando do seu filho

Só pra colocar comida na mesa

E você acha que tudo isso acontece por irresponsabilidade e incertezas?

Quer culpar o lado menos privilegiado?

Só troco essa eia contigo

Quando na minha casa tiver espaço pra estacionar seu carro 4x4”

 

Mas não são apenas da luta, da raiva e do sofrimento que tratam os poemas publicados nesta obra. Há muito amor, lirismo e, sobretudo, paixão em suas palavras. Vendo o poema “Eu me fiz”, é possível desfrutar dessas características.

 

“Me fiz calmaria

Sou a tranquilidade de uma madrugada

Sou a brisa que bate quando tu reflete na praia

Sou aquela olhada pro céu, cansada

 

Me fiz ventania

Sou o arrepio perto do pescoço

Sou aquele ar que bate quando abre os braços, gostoso

Sou aquela sensação de liberdade

 

Me fiz chuva

Sou aqueles pingos gelados nas costas

Sou as gotas que molham as plantas

Sou o cheiro de terra molhada

 

Me fiz tudo que te libertava

Me fiz reflexão

Me fiz saudação

Me fiz trovão

Me fiz vulcão

Me fiz dona de Mim si

Me fiz amor próprio

EU ME FIZ

Mas e você, me diz, o que fez por mim?”

Luana Teles é graduada em Direito, tendo como principais áreas de interesse e atuação a infância e a juventude (ato infracional), o direito educacional e os direitos humanos. Além de advogada, é educadora e violonista.

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