Acerca da covid-19

Gilvanir Batista 

Os meios de comunicação - televisão, rádio e certos espaços das redes sociais - insistem em mostrar cenas de pessoas sem utilizar máscaras ou burlando o isolamento social e, no mesmo compasso, veiculam falas de fontes diversas, mencionando certos valores éticos: união, solidariedade, bem comum, apontando cotidianamente a necessidade da consciência da população para o enfrentamento do coronavírus.

 

A difusão dessas concepções não leva em consideração as relações sociais concretas encontradas no trabalho, as experiências – pregressas e atuais, a inserção em grupos sociais: familiar, religioso, educacional, cultural, esportivo. 

 

Defendo que não existe uma consciência abstrata a ser adotada pelos diversos setores da sociedade, isto é, o impacto do vírus, o uso de máscaras e as medidas de isolamento social são apreendidos de maneira diferenciada. Apresento a seguir algumas especificidades de dois segmentos sociais e dos nossos dirigentes políticos, buscando indicar alguns aspectos concretos que depõem contra a adoção de ideias abstratas vinculadas ao gênero humano. 

 

Os empresários respondem às demandas do mercado, que por sua vez se assenta nas expectativas de lucro. Há alguns dias representantes de importantes setores da produção nacional (têxtil, química, máquinas e equipamentos, farmacêutica, elétrica e eletrônica, dentre outras) estiveram em Brasília para reivindicar junto ao STF o fim do isolamento social e indicar os problemas que a decretação de um Lockdown acarretariam para a indústria. É matéria corrente que setores do comércio individualmente ou representados por suas associações têm pressionado os governadores pelo fim das medidas de restrição de circulação de pessoas. As noções de união, solidariedade e consciência não são compatíveis com as demandas de um setor social que preza por amealhar capital.

As camadas populares, sobretudo aquelas mais empobrecidas, necessitam garantir a sobrevivência, isso explica as longas filas na Caixa Econômica Federal para receber os R$ 600,00 do auxílio emergencial e também, certas iniciativas pelo retorno das atividades econômicas, haja vista a escassez de trabalho nessa camada social. Dezenas de milhões de brasileiros não recebem uma educação apropriada; o acesso à saúde é limitado e o lazer também; não têm água e esgoto, moram em barracos, palafitas e outros tipos moradias precárias. Sem falar nas condições de trabalho, também precárias. Nesses termos, a solidariedade ao gênero humano não aparenta ser argumento mobilizador da consciência desse setor social. 

 

Governadores e prefeitos decretam diversas medidas de contenção do vírus, sendo que o governador de São Paulo, João Doria e o prefeito da capital, Bruno Covas aparecem diariamente na TV cercados por médicos e especialistas em saúde pública, enfatizando o propósito de proteger a vida da população em acordo aos ditames da ciência, criticando fortemente o governo federal por não levá-la em consideração. É possível observar também que outros fazem discursos fortes e decretos bombásticos voltados ao enfrentamento da Covid19, claramente buscando a atenção da mídia. Em contrapartida, o presidente Bolsonaro se contrapõe ao isolamento social, sustentando o direito constitucional de ir e vir e a necessidade da população voltar ao trabalho para a saúde da economia, além de cotidianamente minimizar os efeitos da pandemia.  Apesar da retórica voltada às benesses do povo, esses personagens atuam vinculados às suas demandas mais imediatas, estão em campanha eleitoral.

 

As peculiaridades dos setores da sociedade advêm de determinadas condutas e práticas. As falas que surgem na mídia sobre a necessidade de consciência para lutar contra a pandemia são abstratas, porque aparecem descoladas do cotidiano das pessoas. A eficácia das medidas contra a pandemia encontra-se associada à intervenção do Estado, uma vez que na contemporaneidade cabe ao poder público determinar a conduta social. Convém lembrar a adoção do Lockdown por governos de diversos países e o decorrente sucesso na redução da contaminação pelo vírus e mesmo no Brasil, as máscaras passam a ser efetivamente usadas em algumas cidades a partir de legislação. 

 

A dignidade da educação no contexto da pandemia

Thiago Moreira

Estamos vivendo, nos últimos meses, os desdobramentos de uma pandemia mundial que suspendeu diversas atividades e trancafiou parte da população em suas casas – outra parte, pelo menos no Brasil, foi abandonada à própria sorte para manter a economia funcionando. Diante de um vírus que causou a morte, até a finalização desse texto, de 37 mil pessoas e já contaminou mais de 700 mil apenas no Brasil, governantes tem determinado medidas de distanciamento a fim de conter a pandemia ou, ao menos, reduzir os danos causados por ela. Nesse contexto, escolas encontram-se fechadas desde março e, sem previsão de retorno, multiplicam-se ações que visam, supostamente, reduzir os prejuízos educacionais decorrentes da suspensão das aulas. “A educação não pode parar”, dizem. Na educação do futuro, a regra é a contabilidade das habilidades necessárias para se dar bem no mundo produtivo, o tempo se torna um produto a ser consumido ou um investimento do qual se esperam bons retornos futuros. Tempo em casa é, portanto, tempo desperdiçado. “Ninguém fica para trás” na corrida pelo sucesso. 

O vocabulário empresarial e privado sempre esteve presente na educação: tanto na reivindicação que a escola seja mais eficiente em qualificar os estudantes para o mundo do trabalho, abandonando conteúdos e práticas supostamente obsoletos para focar nas habilidades da sociedade do futuro, quanto na ideia de que a educação deva centrar-se nos interesses individuais das crianças. Para os docentes, os desdobramentos dessa lógica tem sido certo esvaziamento do sentido público da tarefa de apresentar aspectos do mundo às crianças em um contexto plural. Na escola, essa querela a respeito dos objetivos da educação, por vezes irreconciliáveis, é sempre mediada pelos docentes, que embora não possam solucionar definitivamente a disputa, são capazes de neutralizar alguns de seus efeitos. Pois, como afirma Inés Dussel, a escola não é uma instituição homogênea, mas uma montagem provisória de pessoas, artefatos e práticas que não se resume às paredes ou regras de funcionamento, mas por uma rede de complexas relações entre sujeitos entre si e destes com a instituição. 

Nesse espaço de tensão entre as demandas dos indivíduos, as expectativas sociais e as críticas especializadas, os docentes podem ser mais que executores de tarefas pré-determinadas, atuando coletivamente, pensando, tomando decisões que não são, necessariamente, pautadas pelos interesses exteriores. Não somos funcionários de uma empresa, cujo valor se mede pelo retorno do investimento. Antes, somos profissionais em uma instituição historicamente constituída como um espaço separado para dedicar atenção e estudo às coisas do mundo. Evidentemente, esse caráter profissional implica o cumprimento de certas obrigações com a instituição à qual estamos vinculados – no caso das escolas públicas, o Estado –, mas a burocracia nunca foi capaz de controlar todos os aspectos do trabalho sem a adesão das pessoas. Há, portanto, um certo hiato entre os dispositivos jurídico-burocráticos que constituem as regras do jogo escolar e o cotidiano conturbado e barulhento onde efetivamente, atuamos. Esse hiato existe, pois, a instituição escolar não oferece apenas um conjunto de diretrizes para o trabalho docente, mas também o espaço e o tempo no qual nos reunimos em torno de certos objetivos comuns. É na escola que nos envolvemos em reuniões, discussões, planejamentos, chegamos a consensos, encontramos soluções e encontramos as circunstâncias para não permitir que as demandas exteriores controlem todos os aspectos de nosso trabalho. Em outras palavras, presentes na instituição, podemos estabelecer algo em comum, em torno do qual agimos coletivamente para conservar o pequeno hiato que dá sentido e dignidade ao ofício docente. 

Nesse sentido, a pandemia causou uma ruptura entre a instituição e seus profissionais. As escolas estão fechadas e nós, confinados ao mundo privado. Nossos microfones são silenciados e as reuniões de equipe se tornam o momento da transmissão de ordens. A palavra já não circula mais. Ela é unidirecional. A escola e a sala de aula são para os docentes aquilo que a oficina é para o artesão: o local onde se realiza um ofício. Destituídos de nossas oficinas, nos tornamos alguma outra coisa que tem apenas uma reminiscência do que significa ser professor ou professora. Isolados em nossas casas, nos limitamos a fazer outra coisa que não tem mais qualquer relação com a tarefa de iniciar as novas gerações em um mundo comum a todos, mas tem a ver com manter intacta a falsa sensação de que o investimento educacional não deixou de ter retorno. Nos perdemos em maneiras de sustentar o subterfúgio de que seguimos ensinando. Nosso trabalho reduzido à mera execução de tarefas, como dentes de uma engrenagem que, por sua vez, compõe uma máquina gigantesca de produção e consumo que não pode parar. 

Em uma fábrica, cada trabalhador deve realizar diligentemente sua função para assegurar o perfeito funcionamento da cadeia produtiva. Se alguém para, toda a sequência de montagem é afetada. Tempo é dinheiro e por isso a produção não pode parar. Eficiência, tempo, controle, pró-atividade e flexibilidade sempre foram palavras presentes no cotidiano das escolas. Mas o ruído do cotidiano sempre foi capaz de abafar seu significado de modo que sempre foi possível assegurar alguma margem para ação, ainda que fosse mínima, e essas palavras iam se tornando sussurros distantes à medida em que os laços comuns entre os docentes se fortaleciam. Hoje, no entanto, nos habituamos e, muitas vezes, passamos a repetir em alto e bom som: a educação não pode parar. Talvez se tivermos a coragem de escutar com atenção, sejamos capazes de escutar a frase completa: a educação não pode parar porque tempo é dinheiro.  

Penso que Antonio Candido estava certo quando nos ensinou que dizer que tempo é dinheiro é uma brutalidade. Pois o “tempo não é dinheiro, mas o tecido de nossas vidas.”. Se no precário arranjo da escola somos capazes de encontrar formas coletivas de oferecer aos nossos alunos um tempo separado das urgências da vida, das demandas sociais e das expectativas familiares, esse ensinamento deveria ter um significado ainda mais marcante para nós, docentes. Isto posto, é fundamental que não nos deixemos dobrar pela angústia, pela tristeza e pelo medo, que continuemos alertas para, quando for o momento, retomar os nossos espaços de trabalho sem permitir que a lógica monstruosa do capital nos submeta de modo definitivo.

Thiago Moreira é pedagogo, professor do Ensino Fundamental na Prefeitura de São Paulo e mestrando na área de filosofia da educação pela Faculdade de Educação da USP. Se dedica a pensar sobre os modos de ser professor na escola pública a partir de narrativas de fatos e cenas escolares.

 

Por que essa crise seria um ponto de virada na história?

Seleção de Umberto Ribeiro

Um filósofo britânico dá sua resposta à questão apontando que a crise sistêmica gerada pelo coronavírus implicará em impactos irreversíveis nas relações internacionais que marcaram a ordem mundial até então. Não só o capitalismo liberal terá falido para dar lugar a outras formas políticas e econômicas pelas razões que defende, mas em escala social e cotidiana a emergência de um mundo mais virtual e de movimentação humana mais restrita terá sido descortinado diante do novo cenário ainda mais preciso e ambíguo aberto pela pandemia e sua análise. John Gray para NewStateman

https://www.newstatesman.com/international/2020/04/why-crisis-turning-point-history

 

Indígenas entre o Garimpo e a Covid-19

Seleção de Umberto Ribeiro

Estudo feito em parceria com a Fiocruz, a UFMG e o Instituto Socioambiental apontam para taxas alarmantes de contágio entre as populações Yanomami, provocado pelo convívio ilegal e violento do avanço do garimpo. Não faltam razões para que essa nação indígena seja a mais particularmente afetada de toda Amazônia. Clara Roman para ISA

https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/covid-19-pode-contaminar-40-dos-yanomami-cercados-pelo-garimpo-ilegal

© 2020 por Coopernexus. Webdesign Matheus Meira, Bruno Andreoli e Livia Cucatto.