Os brasileiros não sabem português?

Por Livia Cucatto

Quem nunca escutou numa roda de conversa que o brasileiro não sabe português? E quando na roda tem algum professor de língua portuguesa, hein? É muito comum ouvirmos: Nossa, vou tomar cuidado para falar, não sei português. Ou ainda: “Pra mim fazer” não dói seu ouvido? E, recentemente, um candidato à prefeitura disse que boa parte dos estudantes não sabiam português... Mas que português é esse que muita gente não sabe ou acha que não sabe?

A resposta é bem simples: para aqueles que entendem a língua portuguesa como sinônimo da norma-padrão da língua, a resposta é sim - muitos brasileiros não dominam essa norma. Entretanto, a língua portuguesa não se resume à norma-padrão. Ela é uma das variantes da língua portuguesa, a única que é aprendida na escola. Nesse contexto, dizer que não se sabe português, porque não se domina a norma culta é uma inverdade alimentada por aqueles que a dominam, pois tiveram boas condições para aprendê-la.

Não tenho a intenção com este texto de desvalorizar o ensino da norma-padrão. Não. E de jeito nenhum. Pois, sendo a língua uma forma de poder, dominar a variante de prestígio – que de maneira superficial e injusta distingue quem sabe ou não português - pode ser questão de sobrevivência num país desigual como o Brasil e com uma das maiores taxas de desemprego da história.

A questão é: ao dizermos sobre si ou sobre o outro que não se sabe português, porque não se fala e se escreve a norma culta é cientificamente um grande equívoco. Primeiramente, é preciso dizer que toda criança que nasce em determinado país está exposta a uma dada língua. Dito isso, todo ser humano que viver ali saberá se comunicar naquela língua. Desse modo, um bebê que nasce no Brasil saberá português. Diante desse fenômeno biológico e social, podemos afirmar que todos falamos português.

Então, respondida a pergunta acima, emendo uma segunda, tão ou mais relevante que a primeira: por que grande parte da população tem essa concepção de língua? Esse pensamento pode surgir por algumas razões, por exemplo, de natureza fonética, lexical ou ainda e, como já mencionado, por um referencial de língua baseado em uma única variante: a norma culta ou norma-padrão da língua.

A razão fonética envolve a fala, mais especificamente, a pronúncia. Devido ao Brasil ser um país formado por muitos povos, a nossa cultura bem como nossa língua sofreu e sofre influências diversas. É diferente o sotaque de um gaúcho comparado ao de um mineiro ou ao de um pernambucano. Essa diferença pode gerar um estranhamento e, por conseguinte, uma discriminação de tudo que difere de si “(...) é que Narciso acha feio o que não é espelho (...)”.  Nesse contexto, escuta-se que muitos brasileiros não falam português simplesmente porque apresentam sotaque diferente de quem externaliza tal afirmação.

Outro fator pode ser o desconhecimento de palavras não tão usuais, consideradas vocabulário de linguagem de domínio ou técnico. A ausência de vocábulos no léxico de um falante pode levá-lo a achar que não sabe português. Muito provavelmente, o vocabulário desse falante é suficiente para suas interações diárias e, então, não há uma necessidade inconsciente de aprender novos termos. O interessante nesse pensamento é que a pessoa avalia que aquilo que ela não sabe é melhor do que o que ela sabe e, ainda pior, não saber aquilo a desabilita como falante de língua portuguesa.

Dentre as três possibilidades, acredito ser esta última a principal razão para as falácias mencionadas acima. “Saber português” não é igual a saber a norma culta. Todos os brasileiros sabem português, mas podem não dominar a norma-padrão da língua, é verdade. Essa variante se aprende na escola, muitos a consideram como uma segunda língua. Por exemplo, a colocação pronominal: podemos posicionar o pronome oblíquo antes, no meio, ou depois do verbo. Quando não há palavra atrativa e o verbo está no futuro, deve-se aplicar a mesóclise: comprar-te-ia e não te comprarei ou, ainda, comprarei-te. Isso é norma-padrão e se aprende na escola. Se alguém não domina essa regra, ele não saberá menos português por isso. O que precisamos diferenciar é que há uma distância entre a variante culta e a coloquial, mas ambas são variantes do mesmo idioma - o português.

No cenário ideal e possível, todos deveriam ter acesso à norma-padrão. O ensino desta implica acolher as variantes de todos os alunos e acrescentar mais uma à vida dos cidadãos. Ao acolher as variantes, demonstra-se respeito e valorização à diversidade que é comum a um país como o nosso: colonizado e geograficamente imenso. Aqui, fala-se o português do Brasil, o que significa dizer que se fala de várias formas. Todas elas importam, pois carregam história e são instrumentos de comunicação. Há a norma-padrão, que tenta unificar essas variedades, até como forma de frear as mudanças da língua (esse tema ficará para o próximo texto), a qual é requerida em diversas situações do nosso cotidiano. Cada variante tem seu papel social, mas nenhuma é melhor do que a outra. Além disso, não dominar uma delas não nos desabilita como falantes de português, apenas escancara todos os problemas socioeducacionais que arrastamos.

 

O pasto, as queimadas e o papel da ciência

Por Adriano de Souza Antunes

O Brasil de 2020 ainda não pôde ser compreendido. Em meio ao caos estabelecido por uma das mais graves crises econômicas e sociais da história mundial originada pela grande pandemia do século, os brasileiros foram obrigados a enfrentar o descaso com a ciência e com as reservas naturais do país.

Nesse contexto, nossa crise ambiental que já se apresentava quase constante ao longo dos anos, representada pelos frequentes cortes de orçamentos destinados aos órgãos de proteção ambiental, praticamente saltou aos nossos olhos de maneira escancarada e dolorosa. Não pela presença da fumaça proveniente das queimadas nas cidades do Centro-Oeste brasileiro, mas pela forma que o sofrimento de diversas espécies e a ausência de gestão para a crise se fez real e insólita.

A estação climática é o inverno, onde o período de estiagem já é conhecido, afinal é característica clara e definida do clima tropical continental os meses que a chuva se apresentará escassa. Importante ressaltar que devido a proximidade com a linha do Equador, o inverno possui temperaturas elevadas na região.

Logo, temos um cenário perfeito para que as queimadas possam acontecer, alastrar-se e, teoricamente, criar um cenário de destruição. E de fato elas acontecem. Cientificamente e exaustivamente estudadas, as queimadas naturais do Cerrado são necessárias para manter e promover a diversidade de várias espécies.

Esses acontecimentos já são todos conhecidos pela ciência e como já afirmado, rotineiramente estudados. Porém, o que aconteceu em 2020? Por que tamanho caos e desastre?

Problema posto, é hora de começar a compreendê-lo. O gráfico abaixo nos dá a ideia da dimensão dos acontecimentos.

      Imagem 1 - Série história do total de focos de queimada no Pantanal. Elaborado com dados do INPE. Fonte: Divulgação/INPE.

Desde o início da série histórica, conforme registros do INPE, não tínhamos um ano tão expressivo com relação ao número de focos de queimadas. Importante perceber que os registros terminam no dia 30/09/2020, logo esses números tendem a aumentar.

Segundo dados e imagens e relatórios do INPE, 2020 se apresentou com temperaturas mínimas acima da média. Agosto apresentou anomalias de temperaturas mínimas entre 1°C e 4°C acima da média em algumas áreas da região. E, por consequência, chuvas abaixo da média climatológica histórica, como evidenciados na imagem 2.

Imagem 2 - Anomalias de temperatura e precipitação - Fonte: CPTEC - INPE.

Sendo assim uma perigosa combinação tem início.

 

Mais uma vez, ano após ano, as queimadas acontecem e sabemos que acontecerão. Nesse cenário, qualquer cidadão comum pensaria que o Estado possui um plano de ação caso algo saia do controle...

Sigamos adiante na composição e evolução da catástrofe. Hora de retomar o início de nossa conversa: a atitude negacionista.

 

Representados por um líder cujas atitudes se resumem em lampejos de brilhantismo às avessas, os brasileiros sentiram um certo calafrio quando, em pleno púlpito, para milhares de pessoas ao redor do mundo os índios e caboclos foram responsabilizados pelo aumento dos números das queimadas, em um infeliz discurso na ONU proferido pelo presidente do Brasil.

 

É mais do que compreendido que as reservas indígenas estão no caminho do fogo e que por consequência são um dos povos maios prejudicados pelas chamas. Conforme dados da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) o número de ataques as reservas em 2019 dobrou sem comparado a 2018. Logo, podemos atribuir o aumento significativo das queimadas a quem?

 

Pois bem, ações de incentivo a transformação da floresta em elementos que podem gerar lucros já são uma constante no cenário nacional. Entre essas modalidades podemos citar

 

o garimpo, na maioria das vezes ilegal e a criação de pasto para a pecuária.

Encorajados pelos ataques constantes ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e as suas operações, assim como pelo afrouxamento em relação as punições por crimes ambientais, fazendeiros e garimpeiros parecem ter de fato criado condições para escancarar suas atividades.

 

Observando publicação do IBAMA, apenas 5% das multas acabam sendo quitadas. Por consequência, ações de fazendeiros se tornaram evidentes. No atual momento existem operações de investigação a 5 suspeitos de intensificaram os incêndios na região do Pantanal. Mas realmente necessitamos de mais pasto para aumentar a produção? De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), países  desenvolvidos, conseguem produzir muito mais por hectare do que aqueles que são considerados subdesenvolvidos. Logo, a solução é simples: tecnologia. Não há a necessidade de mais áreas, mas sim de aprimoramento tecnológico para que os espaços possam ser aproveitados em sua plenitude.

 

Dentro dessa perspectiva o cenário foi criado: anomalias de temperatura e precipitação, descaso com as leis ambientais e os povos da floresta, necessidade de obtenção de lucro cada vez maior e por fim o negacionismo da ciência característico do atual governo. Mas e o nosso ministro do meio ambiente? Onde estaria nesse contexto de destruição? Punindo infratores? Ampliando as leis de proteção ambiental? Não. Nesse exato momento Ricardo Sales estava revogando regras de proteção a mangues e restingas, ou seja, o berço de várias espécies que fatalmente desapareceriam por meio da especulação imobiliária. Só não aconteceu, ainda, pela ação da União, que por meio de um desembargador restabeleceu as diretrizes do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA).

 

Portanto, a sequência de combinações foi decisiva para a configuração da tragédia, o que nos traz uma perspectiva nefasta por pelo menos mais dois anos. Mas e o plano de ação de combate aos incêndios mesmo? Bem, deixa pra lá...

(Glória aos corajosos brigadistas, que mesmo em pequeno número trabalharam e trabalham arduamente e aos integrantes de ONGs que salvaram inúmeras espécies de animais que agonizavam em meio as chamas.)

Bibliografia.

MARTIN, J.G.P.; Coisas de Cerrado. Ciência e poesia na rede. UNESP - 2005. Disponível em:https://www2.ibb.unesp.br/departamentos/Educacao/Trabalhos/coisasdecerrado/OPROJETO/oprojeto.htm. Acesso em: 02/10/2020

 

PREVISÃO CLIMÁTICA SAZONAL - CPTEC  - INPE. (Boletim de 30 de Setembro de 2020). Disponível em: http://clima1.cptec.inpe.br/~rclima1/pdf_notatecnica/Nota_Tecnica.pdf

Acesso em 03/10/2020.

 

RELATÓRIO VIOLÊNCIA CONTRA OS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL -

Disponível em: https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2019/09/relatorio-violencia-contra-os-povos-indigenas-brasil-2018.pdf

 

Sítios:

https://www.gov.br/funai/pt-br

https://www.gov.br/ibama/pt-br

https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/08/18/ibama-icmbio-multas-governo-bolsonaro.htm

https://www.embrapa.br/home

Bacharel, Licenciado e Mestre em Geografia. Atualmente doutorando no programa de Geografia Física da Universidade de São Paulo. Atua como pesquisador e professor em diferentes níveis de aprendizagem em grandes colégios de São Paulo e região.

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