o plástico nosso de cada dia

 

Por Rita Barbosa

Foi adiado em um mês o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day), marcado para 22 de agosto de 2020. Tal data tem sido calculada desde 1970, a partir de uma conta de subtração entre a chamada pegada ecológica – uma metodologia que mede a demanda da população por recursos naturais – e a biocapacidade do planeta, ou seja, sua capacidade de renovação. O cálculo é feito anualmente pela ONG Global Footprint Network e, segundo levantamento, o adiamento deveu-se à pandemia e às paralisações das atividades econômicas em todo o mundo.

Visto por muitos como uma boa notícia e também como uma prova de que é possível alterar os padrões de consumo da humanidade, pretende-se discutir,neste texto, maneiras de rever o uso de um dos principais vilões do processo de esgotamento dos nossos recursos: o plástico. Para tanto, é pertinente discutir brevemente os impactos e capacidade de decomposição desse material, bem como os perigos da pseudo solução chamada “reciclagem”, um paliativo do grande processo.

Presente em praticamente tudo o que compramos e consumimos, seja na embalagem, seja no conteúdo, o plástico deixou de ser a grande inovação que propunha resolver problemas importantes nas áreas da saúde e tecnologia. Inicialmente pensado como produto de longa vida útil, passou a ser utilizado, em grande parte das vezes, uma única vez e em poucos segundos, como nos casos das sacolas de supermercado, canudos, copos descartáveis, pratos etc.

Antes de qualquer debate sobre o assunto, é preciso entender que o conceito de “jogar fora” precisa ser revisto. Não há “fora” do planeta. Tudo permanece aqui e vai parar em algum lugar até que se decomponha. Considerando que o plástico leva, em média, de 300 a 500 anos para se decompor, pode-se dizer que todos os derivados desse material que nossos bisavós, avós, pais e nós usamos estão por aí na Terra, em algum lugar, seja nos aterros, nos rios, oceanos, ou espalhado nos lixões.

Conforme a indústria petrolífera foi diversificando os possíveis usos dos polímeros e ampliando suas opções de lucro, o plástico foi se inserindo no dia a dia dos habitantes da Terra como uma forma “prática” e “rápida” de resolver as coisas. Lavar copos? Dá trabalho! Levar uma sacola retornável ao mercado? Desnecessário! Embalar o que já está embalado? Questão de segurança! E assim vai... as desculpas são infinitas e esbarram, em sua maioria, no pretexto da falta de tempo e das vidas corridas das pessoas.

Aos poucos, conforme alguns segmentos da sociedade foram percebendo os impactos desses resíduos nos rios, ruas e na própria saúde, suspeitas sobre o uso do plástico foram levantadas e organizações passaram a questionar o seu uso. Claro que setores industriais logo organizaram uma maneira de rever essa situação, passando a incentivar e bancar em muitas cidades os processos de Reciclagem, com a intenção de não diminuir as vendas de seus produtos. A Reciclagem aparece então como coringa, o processo que resolve tudo e limpa, inclusive, a nossa consciência em relação a enorme quantidade de lixo que se produz ao, por exemplo, tomar um simples lanche numa rede fast-food.

“Ah, mas eles reciclam”... Pouco sabemos sobre a reciclagem e é claro que isso é proposital. Acabamos por ensinar, nas escolas, a reciclagem como solução para tudo.As grandes corporações exibem em seus sites conteúdos e mais conteúdos sobre “preocupação sócio ambiental”, o “greenwashing” (o chamado “banho verde” no produto, criando uma falsa aparência de sustentabilidade, sem aplicá-la na prática) está aí a solta nas prateleiras dos mercados vendendo verdadeiros “milagres” para o meio ambiente. No entanto, para além da possibilidade de reutilização, muito pouco se questiona sobre a produção de lixo em si.  Quase não se discute sobre a real necessidade de consumirmos tantas embalagens, saquinhos, prendedores, etiquetas, bandejas etc.

O pior é que pouco se apresentam os dados reais sobre a reciclagem. E não só aqui no Brasil, que beira ao ridículo, mas no mundo todo. Nosso país, por exemplo, segundo estudo da WWF de 2019, é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo e recicla apenas 1% desse resíduo. Sim, 1%! Ou seja, nada. Segundo dados da ONU Meio Ambiente, também de 2019, o mundo produz cerca de 300 milhões de toneladas de lixo plástico a cada ano. Até o momento, somente 9% do lixo plástico gerado foram reciclados e somente 14% são coletados para a reciclagem.

Justamente devido a nossa falta de conhecimento, temos ainda outro problema com os itens enviados para a reciclagem: além de uma parcela ínfima da população fazer a separação, mesmo quem o faz envia todos os materiais sem conhecimento real do processo. Empresas de reciclagem relatam que menos da metade do material plástico recebido (que já é absurdamente pouco se comparado a produção) realmente vale a pena ser reciclado. Isso porque a indústria lança uma série de tipos de plástico no mercado e poucos, muito poucos, tem real valor após o processo de reciclagem.

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Os códigos triangulares, a princípio deveriam aparecer em todas as embalagens plásticas. Não basta somente o símbolo de produto reciclável, o número interno também é muito importante, pois informa se realmente vale a pena e é possível reciclar aquele material. Acontece que esse ocultamento por parte dos fabricantes é uma forma de nos deixar “felizes” ao ver somente o símbolo, como se ele fosse o sinal automático de reciclagem.

No entanto, muitos estudos mostram que, praticamente, apenas os produtos designados pelos códigos 1, 2 e, eventualmente, o 5 valem a pena reciclar, tanto do ponto de vista comercial quanto da própria qualidade do material gerado. Isso ainda depende do nível de contaminação da embalagem e do que acrescentaram a ela. Muitas cores impressas, etiquetas e resíduos representam outro ponto de dificuldade no processo como um todo. Ou seja, não é nada simples reciclar o plástico. Além da baixa adesão da população, quase zero de investimento por parte do governo, existe ainda uma grande maquiagem no processo que mascara o real problema: devemos reduzir nossa produção de lixo, em especial do lixo plástico.

Poderíamos discutir inúmeros outros pontos importantes nesse processo, mas vamos nos ater, no momento, a indicar opções possíveis para a diminuição do uso de plástico em nosso dia a dia. Antes de listar essas dicas, fazemos questão de ressaltar que, apesar das iniciativas individuais fazerem alguma diferença, enquanto não houver um comprometimento real dos governos em rever o papel das grandes petrolíferas, certamente não conseguiremos reverter o quadro de maneira mais significativa. Então, além das mudanças na esfera individual, o engajamento em grupos que visam, de alguma forma, combater a farsa “verde” da indústria do petróleo é fundamental para que as reais mudanças aconteçam.

Dicas para um dia a dia com menos lixo:


1) O óbvio: você pode levar suas próprias sacolas no mercado ou feira. O que não é tão óbvio: você também pode levar sacos de pano para pesar suas frutas e legumes, ao invés de usar os famosos saquinhos transparentes disponíveis em todos os cantos.

 

2) Você pode preferir produtos não embalados, na medida do possível. Porque comprar uma banana embalada em isopor e plástico filme que nunca será reciclado? Porque comprar um coco verde semi descascado com um filme plástico e ainda um canudo?
 

3) Você pode trocar sua bucha de plástico poliuretano que nunca será reciclada e levará 300 anos se decompondo por aí por uma bucha vegetal. Sim, aquela que nasce por aí. Algumas empresas as vendem cortadas ou você pode comprar na feira e cortar você mesmo.
 

4) É possível trocar sua escova de dentes de plástico, com cerdas ainda mais impossíveis de reciclar por uma escova de bambu com cerdas de carvão vegetal, que podem, inclusive, ir para a composteira quando não estiverem mais utilizáveis.
 

5) Quem faz a barba ou se depila pode trocar os aparelhos de barbear de plástico pelos de inox, que duram a vida toda e você só precisa comprar a lâmina (que, inclusive, vem numa embalagem de papelão!)
 

6) Você não precisa mais daquele desodorante numa embalagem aerossol que vai ficar por aí durante a sua e, no mínimo, na vida das próximas 3 gerações e que, de quebra, faz um mal tremendo para sua pele! É só utilizar leite de magnésia no lugar ou seguir as inúmeras receitas de desodorante natural dos sites com essa pegada.
 

7) É possível sair de casa com um mínimo de planejamento, levando sua própria garrafa de água e um kit conhecido como “lixo zero”. Nele você carrega sempre um jogo de talheres, hashi, canudo, guardanapo de pano e um copo dobrável, de preferência com marcação dos mls. Assim, dependendo do local onde for comer, você pode pedir para usar seu próprio copo e recusar os talhares de plástico que acompanham as refeições e o sorvete.
 

8) Para o lixo que inevitavelmente produzimos, é possível substituir os sacos de lixo comuns por sacos de papel, de jornal, ou ainda os de bioplástico (mas os de verdade, porque muitos, como das sacolinhas de mercado, não se decompõem verdadeiramente, apenas se quebram em micro plásticos antes que os outros, o que não resolve nada do nosso problema).
 

9) As mulheres podem substituir os absorventes comuns – que levam em média 100 anos para se decompor – por calcinhas absorventes laváveis ou o copo coletor. Pode parecer estranho, mas é realmente super possível.
 

10) Você pode aprender algumas receitas básicas, em sites com essa preocupação, para fazer alguns produtos de limpeza você mesmo, como o detergente, o lava-roupas, evitando aquela sequência de produtos caros, poluentes e de embalagens que dificilmente serão recicladas devido à contaminação.
 

11) Aquele filme de PVC tão utilizado na cozinha não é essencial. Você pode simplesmente usar as tampas dos potes e panelas ao invés do filme ou, no caso de itens sem tampa, adaptar alguma. Existem ainda opções no mercado de panos dobráveis e laváveis de cera de abelha que se amoldam aos potes e frutas. De quebra, quando não estiverem mais bons, vão para a composteira.
 

12) Não coma, ou evite ao máximo alimentos ultraprocessados. Além de contribuírem para uma significativa piora na sua saúde, normalmente são vendidos em embalagens impossíveis ou muito difíceis de serem efetivamente recicladas – sim, aquele alumínio / plástico do salgadinho não será reciclado nunca e talvez você ainda o encontre em alguma praia por aí...

Para finalizar, uma sugestão legal é acompanhar o site (https://umavidasemlixo.com/) e canal do youtube (https://www.youtube.com/channel/UC2zkjVxMQ1exfb5GsUYmSBg) da brasileira Cristal Muniz. Existem muitas referências ao redor do mundo para ajudar na tentativa de uma vida rodeada de menos lixo, mas a Cristal é uma mulher forte, coerente, realista e nossa conterrânea. O livro dela se chama “Uma Vida Sem Lixo”, mesmo nome do blog. Lá muitas outras dicas e debates interessantes poderão ser acessados.

Reciclar é importante, mas não é a solução para uma real revisão das nossas práticas contínuas de exploração da Terra. Revisar nosso dia a dia já ajuda muito no processo e, mais do que isso, adquirir a consciência real do problema político e econômico por trás disso pode nos impulsionar a mudar hábitos e pressionar os grupos que realmente precisam mudar a lógica de produção e consumo no planeta.

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Curadorias

 

Por Bruno Andreoli

O que você precisa saber sobre o cigarro eletrônico


https://www.bbc.com/portuguese/geral-47129651

 

 

 

 

 

 

 

 


 

O texto da BBC News Brasil traz, com referências ao Public Health England, à Anvisa e ao Incor,
as conclusões (tão consolidadas quanto possíveis) a respeito do produto, que vem ganhando
grande popularidade nos últimos anos.

Nossa água veio de carona num asteróide e ele é bem específico


https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-08-28/o-misterio-da-origem-dos-oceanos-
terrestres.html

 


 

Recomendamos o artigo do El Pais, que coloca as recentes conclusões que nos aproximam da
reposta à questão fundamental: por quê há tanta água por aqui.

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