Organizadas contra Bolsonaro

Seleção de Umberto Ribeiro

Rompendo com as expectativas e os estereótipos dominantes, em um contexto nacional de desmobilização pública das oposições ao governo federal, as torcidas organizadas iniciaram as novas ondas de manifestações progressistas em meio à pandemia. As razões levantadas para as mobilizações reforçam que política e futebol não se separam mesmo em momentos de crise. Felipe Souza para BBC

https://www.bbc.com/portuguese/geral-52899944

Cooperativismo: espaço à ressignificação pessoal

Andrés Navarro

Quando me propus a escrever algo sobre cooperativismo, apesar do entusiasmo, não pude negar o receio da minha inexperiência e da minha falta de letramento no assunto. Sou químico de formação, enveredei-me pela docência, não sou grande conhecedor de história ou sociologia para explanar sobre o panorama histórico-social do cooperativismo, tampouco tenho ampla experiência nessa forma de organização institucional. Para ser sincero, minha experiência em uma cooperativa não supera um pouco mais que um ano.

Minha preocupação não é injustificada, pois vivemos numa sociedade de técnicos: o economista, o sociólogo, o engenheiro, o advogado, o jurista, o médico, o químico. Sou filho de uma escola de pensamento cuja técnica resolutiva, raciocínio lógico e a apreensão de princípios e leis científicas consolidam os grandes pilares para encarar os problemas de nossas vidas. É evidente que precisamos dos especialistas. Ninguém em sã consciência se submeteria a uma cirurgia realizada por alguém sem formação em medicina, ou aceitaria ser defendido num tribunal por um indivíduo pouco conhecedor das leis, ou, ainda, ascenderia tranquilamente num edifício erigido por uma pessoa com parcos conhecimentos de engenharia civil e estabilidade das construções. A importância dos especialistas para nossas vidas é inegável, pois, afinal, são eles os profissionais que dedicam suas vidas a conhecimentos e procedimentos muito específicos, que demandam muito esforço e tempo, e cujas aplicações são, em muitos casos, de grande utilidade pública.

 

Nesse cenário de incontestável importância dos técnicos, vale uma ressalva: basta estarmos servidos da competência e da perícia dos especialistas para que, espontaneamente, nossas vidas sejam as melhores possíveis, atendendo nossas aspirações, tanto profissionais como pessoais?

 

Como tentativa de encaminhar uma reflexão sobre possibilidades de respostas a essa questão, primeiramente, gostaria de colocar o que entendo por cooperativismo. 

Cooperativas são instituições estruturadas a partir da união de pessoas com interesses econômicos, sociais e culturais em comum. Caracterizam-se por organizações compostas por trabalhadores de um determinado setor, que se organizam de forma autônoma, numa empresa, com o intuito de zelar por seus interesses econômicos e dar suporte a seus membros. Trata-se de uma relação vantajosa para todos os envolvidos: por um lado, os profissionais contam com maior suporte administrativo, fiscal e jurídico, e maiores chances de serem alocados no mercado de trabalho. Por outro lado, as cooperativas mantidas pelas contribuições e pelo trabalho de seus membros gozam de algumas vantagens financeiras, administrativas e fiscais em comparação a empreendimentos empresariais mais tradicionais, além de propiciarem maior representatividade política para os interesses da classe de trabalhadores que nelas se inserem. 

 

A dimensão profissional das cooperativas, apesar de fundamental, não é, contudo, ao meu ver, o que lhe é mais cara. Outros elementos estruturantes do cooperativismo são fundamentais à prática de política e de vivência coletiva que compõem outras esferas de nossas vidas, pois envolvem o trabalho colaborativo e as tomadas conjuntas de decisões que irão impactar as vidas daqueles que as deliberam. Seguindo seus princípios de autonomia e autogestão, as cooperativas são ambientes profícuos para o desenvolvimento de práticas de cidadania que invariavelmente são demandadas na vida em sociedade. 

 

Não sejamos ingênuos de acreditar, também, que as cooperativas são os refúgios da democracia e da igualdade em seus estados ideais. Como toda empresa ou agregação de pessoas cuja finalidade imediata é a sobrevivência econômica, elas não estão imunes às sectarizações, disputas de poder, embates de posições ideológicas diferentes, imposições das vontades particulares de alguns perante outros e jogos de influência das mais variadas formas. Tudo justificado em sua pretensa conformação democrática. Por sua própria natureza ampla de abranger representantes de setores muito diferentes da economia, contemplando desde catadores de recicláveis até grandes produtores industriais, as organizações cooperativistas se organizam como reflexos da nossa realidade política e daquilo que estamos acostumados a vivenciar como democracia. 

 

Ainda que carregue consigo virtudes e vícios da coletividade, são nas primeiras que me apoio. Essas organizações possibilitam a tomada de decisões em prol do bem comum, são movimentadas por assembleias e pela possibilidade de posicionamentos individuais ou coletivos. Ainda que sujeitas a desvios e desencaminhamentos, são ambientes autônomos e autogeridos, possíveis incubadores da efetiva participação política e da autêntica prática democrática, diferente do universo empresarial verticalizado e estratificado pelas relações entre patrão e empregado. Além disso, contribuem para maior igualdade de oportunidades e renda para seus integrantes, uma vez que, de princípio, são formadas por indivíduos semelhantes tanto em aspectos técnicos como de camada social.

 

Não menos importante, acredito que o cooperativismo é composto por atividades que carregam a possibilidade de ressignificação daquilo que trazemos implacavelmente conosco e que muitas vezes nos define tão profundamente: a profissão. Agir em colaboração cooperativa é de certa forma atuar em ambientes e situações pouco usuais, de escassa ou nenhuma experiência prévia no exercício profissional; é ser confrontado com discussões que não temos respostas prontas e que não fazem parte de nossa especialização técnica; é se compreender como indivíduo que tem aspirações profissionais e pessoais; é fazer uso de liberdades que nos acostumamos a não considerar; é revermos nossas posturas profissionais, pessoais e nossos ideais; é, em última instância, repensarmos nosso papel no mundo. 

 

Somos técnicos, não há como negar. Vivemos para servir nossas especialidades e para sermos servidos das especialidades de outros. Muitos se realizam assim: vivem para o trabalho e no trabalho encontram os motivos para viver. Estreita simbiose entre as aspirações profissionais e pessoais. Para outros, contudo, a esfera das realizações pessoais toma outro domínio. O trabalho é necessário para as saúdes financeira e da mente, mas não atende profundamente em suas mobilizações mais íntimas. Em qualquer dos casos, as cooperativas, instituições fundadas por técnicos, podem propiciar espaço para essas duas formas de encarar as relações entre nossas vontades e ambições. Seja pela liberdade de se reencontrar dentro daquilo que tão bem conhecemos, nossa profissão, ou pelo seu elemento cooperativo, comunitário e com ações voltadas para o benefício coletivo.

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